Como hostilizar um aliado

Agência de Segurança Nacional (NSA) poderia tuitar conversas telefônicas apimentadas da chanceler Angela Merkel ou postar no YouTube vídeos do primeiro-ministro Shinzo Abe, do Japão, cantando no chuveiro. O Pentágono poderia enviar drones a Paris, largando Big Macs sobre restaurantes finos, só para mostrar que pode.

Nicholas D. Kristof*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

01 de novembro de 2013 | 02h02

Líderes estão furiosos com Edward Snowden e Chelsea Manning pelos danos que eles causam à segurança americana. É justo. Mas o mais recente clamor sobre a espionagem da NSA é um lembrete de como autoridades americanas colocaram em risco interesses estratégicos dos EUA - ao extrapolar e fazer coisas só porque podiam.

A política de segurança nacional dos EUA saiu dos trilhos desde o 11 de Setembro. Durante 12 anos, a segurança foi uma obsessão, raramente limitada pela consideração de compensações. Buscou-se cada vantagem tática e isso, às vezes, leva - como a escuta clandestina de aliados - a perdas estratégicas.

Duplicamos os gastos em inteligência, descontada a inflação, para mais de US$ 70 bilhões anuais. Há mais pessoas com acesso a material "top secret" que a população de Washington - e era inevitável que houvesse alguns velhacos entre elas. Quando tudo é confidencial, o sistema perde credibilidade, transparência e responsabilização.

A guerra ao terror levou os EUA a travar guerras no Iraque e no Afeganistão, com poucos ganhos evidentes, e ao custo de milhares de vidas. Para cada jihadista morto, criaram-se vários. Como afirma um ditado chinês, levantamos uma pedra e a largamos nos nossos próprios pés.

Quando assumiu a presidência, Barack Obama parecia propenso a reorientar a política de segurança. Ele o fez, de fato, retirando os soldados do Iraque e, após um "reforço" mal concebido no Afeganistão, reduzindo a presença nesse país.

Mas, em geral, sua política é curiosamente similar à de George W. Bush: Guantánamo é uma afronta aos valores americanos, os programas de espionagem da NSA continuam em vigor, os ataques com drones (aviões não tripulados) foram intensificados e a Casa Branca tentou conter discussões públicas sérias sobre espionagem e guerra cibernética. O governo Obama processou mais informantes pela Lei de Espionagem do que todos os anteriores juntos.

O escândalo mais recente envolvendo a espionagem de líderes europeus é sintomático dessa miopia maior sobre interesses estratégicos. É fato que parte da indignação na Europa é fingida. Como observou o ex-chanceler da França, Bernard Kouchner: "Sejamos honestos. Nós grampeamos também. Todo mundo está ouvindo todo mundo. Mas não temos os mesmos meios que os EUA, o que nos deixa enciumados".

Mesmo assim, o grampo americano parece ter violado a lei alemã, bem como a regra número um da espionagem: não seja apanhado. Se Obama realmente não sabia que 35 líderes mundiais estavam sendo escutados clandestinamente, há algo de errado na supervisão da inteligência. Um ex-dirigente de alto escalão da CIA diz que antes do 11 de Setembro, esse tipo de monitoramento de líderes mundiais passava sempre por uma autorização da Casa Branca. "Tudo que envolvia autoridades públicas de alto escalão e chefes de Estado era verificado com cuidado, ao menos pelo conselheiro de segurança nacional, quando não pelo presidente".

Desde o 11 de Setembro, a política de segurança dos EUA está no piloto automático: se podem espionar Merkel, espionam. Se podem usar drones para matar um suspeito de terrorismo, usam. Se podem manter pessoas indefinidamente em Guantánamo, por que não?

A arrogância americana solapou a maior vantagem de política externa dos EUA: seu poder brando. No Paquistão, por exemplo, os ataques com drones removeram alguns militantes perigosos. No entanto, esses ataques são fortemente rejeitados pelo povo paquistanês, manchando a imagem e reduzindo a influência americana em um país crucial. Os drones danificaram a influência de Washington no Paquistão mais do que o Taleban.

Como expressou David Rohde, da Reuters: "A obsessão dos EUA com a Al-Qaeda está causando mais danos à nação do que o próprio grupo terrorista". Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations, diz que a maioria dos europeus não tem memória da Guerra Fria. Por isso, os americanos têm menos liberdade para hostilizar seus aliados.

Sim, ainda há um lugar para drones, para espionar aliados, para a NSA, mas eles precisam ser sujeitos a escrutínio, contexto e freios, como eram antes do 11 de Setembro.

A aviação comercial seria mais segura se fôssemos obrigados a voar nus. No entanto, aceitamos compensações - como as roupas - e, com isso, alguns pequenos riscos. Da mesma forma, já é hora de uma pausa para respirar no âmbito da segurança e de começar a examinar as compensações, em vez simplesmente fazer as coisas porque se pode.

*Nicholas D. Kristof é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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