Como lidar com a caixa-preta da China

Em visita à Malásia, eu esperava uma enxurrada de queixas. O país era uma das paradas da planejada viagem do presidente Barack Obama à Ásia, este mês, que foi cancelada em razão da crise orçamentária manufaturada em Washington. "Ficamos desapontados, mas entendemos a situação", disse o premiê, Najib Razak.

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2013 | 02h09

Outros foram menos diplomáticos, apontando o cancelamento como evidência do sistema político disfuncional e da decadência geral dos EUA. No entanto, muitos na Malásia - e por todo o Sudeste Asiático - disseram-se intrigados não com o que estava havendo em Washington, mas em Pequim.

Isso se deve, em parte, ao poder. À medida que cresce a importância da China, seus vizinhos ficam cada vez mais atentos ao Reino do Meio. No passado, a única política que eles acompanhavam fora de seu país era a de Washington. Hoje, eles sentem que precisam também compreender Pequim.

E há muita coisa a compreender. A China está no meio de uma grande transformação política. No mês passado, o país assistiu, em rede nacional, Xi Jinping participando de uma reunião em Heibei na qual membros veteranos do partido se engajavam numa sessão de "crítica e autocrítica". Isso é parte da campanha "linha de massa" do Partido Comunista, projetada para responder às preocupações de que o partido perdeu o contato com a realidade, é corrupto e elitista.

A campanha inclui também um forte impulso anticorrupção, cuja expressão mais visível foi a humilhação pública de Bo Xilai, o ex-dirigente do Partido Comunista de Chongqing. Muitos na China temem que a campanha anticorrupção não seja mais que um mecanismo para eliminar adversários políticos. "Há tanta corrupção na China que escolher quem processar é, de fato, uma decisão política", disse um empresário em Pequim, que pediu para não ser identificado.

Mais surpreendente para muitos, os novos líderes começaram uma vasta repressão a dissidentes. A mídia chinesa e grupos de direitos humanos dizem que centenas de jornalistas, blogueiros e intelectuais foram detidos, desde agosto, acusados do crime de "espalhar rumores".

Recentemente, esse grupo incluiu empresários influentes, entre os quais Wang Gongquan, um dos bilionários mais conhecidos da China, que defendeu uma reforma política e foi formalmente preso no domingo.

No mês passado, a TV chinesa levou ao ar uma confissão de Charles Xue, um empresário e blogueiro, que confessou seus crimes e elogiou as novas restrições da China à liberdade na internet. Este mês, a Universidade de Pequim demitiu o economista Xia Yeliang, que havia ajudado a esboçar a "Carta 08", uma petição pró-democracia que valeu a seu principal autor, Liu Xiaobo, o Prêmio Nobel da Paz.

Os estudiosos da China observaram nos últimos anos que o Partido Comunista está profundamente preocupado com sua legitimidade e seu apelo nas bases. Isso levou muitos a acreditar que ele trataria dessas questões abrindo seu sistema com reformas políticas que acompanhariam as econômicas. Em vez disso, tudo indica que o partido está optando por métodos mais antigos da era Mao de campanhas de repressão, confissões públicas e purificação.

Nos últimos 30 anos, o Partido Comunista da China tem realizações extraordinárias. Só na última década, a renda média per capita chinesa quase quintuplicou e o país é hoje a segunda maior economia do mundo. Talvez em razão do sucesso, porém, muitos desafios que a China enfrenta são aqueles nos quais a economia não pode ser separada da política.

Enfrentar os problemas como a poluição, por exemplo, significa desacelerar o crescimento industrial. Avançar para um modelo de desenvolvimento mais sustentável, significa tirar dinheiro de companhias estatais - e politicamente conectadas.

As pessoas com quem conversei no Sudeste Asiático não estavam tratando dessas questões sob a perspectiva de ativistas de direitos humanos. Estavam, de fato, apenas tentando compreender o que está havendo na China. Sobretudo, gostariam de saber que implicações as mudanças internas chinesas terão para a política externa de Pequim.

"A China está sendo muito cordial conosco ultimamente, mais do que era alguns anos atrás, mas ainda promove com muito vigor seus próprios interesses", disse um líder asiático. Diplomatas se preocupam porque a China vem circulando novos mapas da região em que uma linha anteriormente pontilhada demarcando as pretensões chinesas no Mar do Sul da China agora aparecem com uma linha cheia.

No mês passado, o chanceler da China negou qualquer mudança nas pretensões do país quando foi interpelado publicamente sobre isso num fórum do Brookings Institution pelo ex-secretário de Defesa americano William Cohen. No entanto, as preocupações ressaltam o nervosismos sentido na região.

Os EUA lavam sua roupa suja em público. Quando Washington pisa na bola, o faz em horário nobre, com políticos, jornalistas e comentaristas descrevendo com deleite cada detalhe escabroso. A China tem um sistema político opaco, que a torna bem mais misteriosa.

Contudo, a China também tem sua parcela de crises, controvérsias e mudanças. E, em razão de sua recém-adquirida influência, o mundo agora a está observando e se perguntando o que fazer com a caixa-preta que é Pequim. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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