AFP PHOTO / ED JONES
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Como lidar com um rei-deus júnior 

Kim Jong-un já viu o que ocorreu com Kadafi ao abrir mão de programa nuclear líbio

The Economist*, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2017 | 05h00

A Coreia do Norte é motivo não só de alarme, como de perplexidade. Trata-se de uma monarquia marxista hereditária, que tem em seu comando o mais jovem líder supremo do mundo, e também o mais velho. O tirano atual, Kim Jong-un, está na casa dos 30; seu avô, Kim Il-sung, é o “presidente eterno” do país, apesar de ter morrido em 1994. Para comemorar o aniversário do avô, em 15 de abril, o neto determinou que um grupo de aviões de caça voasse em formação exibindo sua idade: 105 anos. 

Também ordenou um desfile militar de grandes proporções, com soldados marchando a passo de ganso e caminhões transportando mísseis. Durante a cerimônia, um coro de vozes masculinas entoava a frase: “Nossas armas garantem a paz”, muito embora o regime ameace os inimigos com destruição nuclear e talvez tenha finalmente conseguido desenvolver um míssil capaz de atingir a Costa Oeste dos EUA.

Lidar com o rei-deus belicoso será um dos maiores desafios que Donald Trump enfrentará em seu governo. Também será o primeiro grande teste do presidente americano em relação à ascensão da China, que põe em risco a “Pax Americana” na Ásia. Os EUA não dispõem de boas alternativas para se haver com o imbróglio da Coreia do Norte. E as menos ruins exigem um bom entendimento tanto do regime norte-coreano, como do quebra-cabeças geopolítico em que ele está inserido. Também demandam paciência, coisa que Trump diz não ter em se tratando do regime de Kim.

A ideia de fazer logo alguma coisa é emocionalmente sedutora. A Coreia do Norte é uma ditadura cruel, onde o mais mínimo sinal de deslealdade pode ser castigado com o gulag ou a morte. Kim já mandou crianças para a cadeia para punir os “crimes-de-pensamento” de seus pais, e não pensa duas vezes para ordenar a morte de parentes seus. A perspectiva de que um homem desses possa ameaçar Los Angeles é apavorante. Apesar disso, atacar preventivamente a Coreia do Norte seria de uma imprudência sem par. 

Seus dispositivos nucleares encontram-se armazenados em esconderijos subterrâneos, possivelmente a grande profundidade. Seus mísseis, acoplados a lançadores móveis, estão espalhados pelo país. Só o Mar do Japão (Mar do Leste) separa a Coreia do Norte de Tóquio; e Seul, capital da Coreia do Sul, fica a poucos quilômetros da fronteira. A artilharia e os mísseis convencionais do Norte seriam suficientes para devastar o Sul, e um conflito poderia rapidamente se tornar nuclear, resultando na morte de milhões de pessoas.

Não é possível que passe pela cabeça de Trump começar uma guerra. Suas ações militares na Síria e no Afeganistão indicam que o presidente americano é mais cauteloso do que sugere seu palavreado beligerante. O problema é que, no caso, até mesmo dar a impressão de que os EUA cogitam atacar primeiro é um perigo. Se achar que está prestes a sofrer um ataque americano, Kim é capaz de ordenar uma ação nuclear preventiva, com consequências desastrosas. Em outras palavras, seria de bom alvitre que Trump suavizasse sua retórica.

Apesar de toda a excentricidade de Kim, há racionalidade em seu comportamento. O líder norte-coreano viu Muamar Kadafi abrir mão do programa nuclear líbio em troca de um melhor relacionamento com o Ocidente — e acabar morto. Aos olhos de Kim, o arsenal nuclear da Coreia do Norte é uma garantia de sobrevivência para seu regime e para ele próprio. (Por mais suicida que fosse sua eventual utilização.) Trump não tem muito como fazê-lo pensar de outra forma. As sanções que esvaziam as despensas dos norte-coreanos não afetam a mesa de Kim. Os ciberataques podem atrasar, mas não frustrar de vez os planos do líder norte-coreano. Só com a ajuda da China os EUA conseguirão desatar o nó górdio norte-coreano.

A China tem meios para obrigar Kim a lhe dar ouvidos. A superpotência asiática responde por 85% do comércio exterior da Coreia do Norte e poderia cortar seu fornecimento de petróleo. Mas os interesses dos chineses não coincidem com os dos EUA. A Coreia do Norte é sua aliada. Os líderes chineses não gostam do regime dos Kim, mas não querem vê-lo entrar em colapso e, em seguida, presenciar uma reunificação das duas Coreias, à maneira alemã. Isso, receiam os chineses, representaria a perda de um valioso para-choques. Os EUA têm atualmente 28,5 mil soldados estacionados na Coreia do Sul; a China não os quer enfileirados ao longo de sua fronteira.

Para conter a Coreia do Norte, Trump precisa aprender a conversar com a China. O impulso do presidente americano é tratar as relações externas como se fossem negócios. Em meados de abril, Trump postou no Twitter uma mensagem afirmando que teria dito ao presidente chinês Xi Jinping que “a China pode conseguir um acordo comercial muito mais favorável com os EUA se resolver a questão da Coreia do Norte!” 

Posteriormente, Trump revelou que sua decisão de não acusar a China de manipulação cambial, como tinha ameaçado fazer, foi resultado de uma negociação em que os chineses se comprometeram a ajudar os americanos na questão da Coreia do Norte. Deixar a ameaça cambial de lado foi uma decisão prudente; mas não há imprudência maior do que abordar a diplomacia como se fosse um negócio.

A China adoraria repartir o mundo bilateralmente em esferas de influência, com as grandes potências dominando suas regiões e trocando favores em outras partes. Desde o fim da 2.ª Guerra, os EUA são os guardiões de algo diferente: uma ordem internacional baseada em regras aplicáveis a toda e qualquer nação, que serviu de base para a paz relativa e o extraordinário crescimento econômico que o mundo experimenta desde então. O fato de Trump dar a impressão de fazer pouco caso dessa ordem global que se baseia em regras é preocupante. 

O mundo se tornaria um lugar bem mais perigoso se os EUA passassem a aceitar o desrespeito a normas internacionais por parte da China (no Mar do Sul da China, por exemplo), em troca de seu apoio no enfrentamento de quaisquer problemas que estejam em destaque nas manchetes dos jornais. Os EUA responderiam de forma mais apropriada à ascensão da China se fortalecessem a ordem internacional e convidassem a superpotência asiática a participar dela de forma mais ativa. Infelizmente, é improvável que Trump siga por esse caminho.

Portanto, resta esperar que o presidente americano e seus diplomatas consigam convencer os chineses de que conter a Coreia do Norte é algo que interessa à própria China. E para tanto, o importante é tratar da Coreia do Norte em si, e não misturar na conversa a questão do yuan ou dos empregos americanos no setor de siderurgia.

A China não ganha com a desestabilização do Leste Asiático ou com uma corrida armamentista regional que leve o Japão e a Coreia do Sul a desenvolver seus próprios arsenais nucleares. Trump deveria dar garantias a Tóquio e Seul de que os EUA continuarão a protegê-los. Mas também precisa lidar com as preocupações dos chineses. 

Para tanto, deveria deixar claro que a paralização e o posterior desmonte do programa nuclear norte-coreano é seu único objetivo, e uma mudança de regime não está em seus horizontes. Também poderia oferecer garantias de que, na eventualidade de uma reunificação das duas Coreias, as tropas americanas seriam mantidas ao sul da fronteira norte-sul atual.

A mensagem mais importante que é preciso fazer chegar aos ouvidos de Kim é a que, caso a Coreia do Norte venha a empregar suas armas nucleares, seu regime será eliminado da face da Terra. A longo prazo, a reunificação é inevitável e desejável. Enquanto isso não acontece, o jeito é manter o rei-deus júnior sob controle./ TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

*© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.  

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