Victor J Blue/The New York Times
Victor J Blue/The New York Times

Como morrem os regimes teocráticos; leia análise

Especialistas veem a sorte do extremismo acabando

David Brooks*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 05h00

Alguns anos são pontos de inflexão: 1517, 1776 e 1917. Estes são os anos em que ideias poderosas surgiram: a Reforma, o capitalismo democrático e o comunismo revolucionário. O ano de 1979 foi outra alvorada. O Islã político veio com a revolução iraniana, a ascensão dos mujahedin no Afeganistão, o programa de islamização no Paquistão e a popularidade da Irmandade Muçulmana no mundo árabe.

As ideias que capturaram a imaginação de milhões tinham raízes intelectuais. Por exemplo, o pensador Said Qutb, em meados do século 20, montou uma crítica ao materialismo sem alma da América, remontando à separação entre Igreja e Estado – o erro fatal, ele acreditava, que separava o espírito da carne. No mundo muçulmano, corpo e alma não deveriam ser divididos, mas viver unidos em um califado governado pela sharia.

Essa visão poderia se manifestar de maneira moderada, com os clérigos buscando o poder político, ou de maneira violenta, como jihadistas derrubando regimes. Em 2006, no ensaio chamado The Master Plan, Lawrence Wright relatou como a Al-Qaeda fez cumprir esses sonhos com planos épicos: expulsar os EUA do Iraque, estabelecer um califado, derrubar regimes árabes, iniciar um confronto com Israel, minar as economias ocidentais. Eram sonhos ousados que impulsionaram o terrorismo islâmico.

Para os responsáveis pelo ataque em Cabul, a morte de americanos pode parecer um passo em direção a essa utopia. A retirada dos EUA do Afeganistão parece uma derrota da democracia e um salto em direção ao sonho de um mundo muçulmano unificado. Mas algo mudou nos últimos anos. As ideias radicais perderam o brilho. Se eles pensaram que mobilizariam os muçulmanos, falharam. Em 11 países islâmicos pesquisados pelo instituto Pew, em 2013, apenas 13% tinham opinião favorável à Al-Qaeda. No livro The Missing Martyrs, Charles Kurzman mostra que menos de um em cada 100 mil muçulmanos virou terrorista desde o 11 de Setembro.

Quando o islamismo político tentou estabelecer teocracias em vários países, a reputação do movimento saiu arranhada. Em uma das manifestações mais violentas do extremismo, o califado do Estado Islâmico no Iraque e na Síria virou um pesadelo. Mesmo em lugares mais moderados, o Islã político está perdendo popularidade. Em 2019, a Economist concluiu: “Em todo o mundo árabe, as pessoas estão se voltando contra os partidos religiosos”. O aiatolá Mohamed Yazdi, do Irã, notou a tendência. “Os iranianos estão fugindo dos ensinamentos religiosos e se voltando para o secularismo.”

Globalmente, o terrorismo diminuiu. As mortes em ataques caíram 59%, entre 2014 e 2019. Especialistas veem a sorte do extremismo acabando. “As duas últimas décadas”, escreve Nelly Lahoud, na Foreign Affairs, “deixam claro o quão pouco os jihadistas podem realizar”. No Washington Post, Fareed Zakaria observou que “a maior parte do terrorismo islâmico hoje tende a ser local” – o Taleban, no Afeganistão, o Boko Haram, na Nigéria, a Shabab, na África. “É uma reversão dos dias de glória da Al-Qaeda, que insistia que o foco não deveria ser os regimes locais, mas sim os EUA e o Ocidente.”

A ideia de glória que surgiu há 40 anos foi reduzida. O problema não foi eliminado, mas diminuiu. Erramos ao tentar derrotar uma ideia poderosa por meio da força militar. Mas muito foi alcançado promovendo ideias liberais e permitindo que a teocracia murchasse sob o peso de suas próprias falhas. Os soldados que realizaram este trabalho merecem nossa admiração.

* É COLUNISTA

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