AP Photo/Gerry Broome
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Como o 11 de Setembro alterou a vida de muitos americanos

Famílias relatam as decisões que tomaram e os rumos que seguiram 17 anos após ataques terroristas matarem quase 3 mil pessoas nos Estados Unidos

O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 16h13

NOVA YORK - No dia 11 de setembro de 2001, Stephen Feuerman viu o World Trade Center em chamas pela janela de seu escritório no Empire State Building. Paralisado, ele assistiu ao momento em que uma segunda bola de fogo explodiu na segunda das torres gêmeas.

Ele correu pelo 78º andar do edifício, pedindo a todos que saíssem, pensando que o arranha-céu onde estava poderia ser o próximo.

Com o bloqueio no trânsito da área, ele demorou horas para conseguir chegar em sua casa, no subúrbio de Westchester. Abalado pela experiência, o corretor, sua mulher e os dois filhos pequenos se mudaram em menos de quatro meses para um subúrbio no sul da Flórida, onde imaginavam estar mais seguros do que em Nova York.

Foi assim até fevereiro do ano passado, quando um ataque em massa aconteceu em Parkland, na Flórida. "Realmente não há lugar seguro", disse Feuerman, cujas crianças sobreviveram, mas perderam amigos no massacre que matou 17 pessoas na escola Marjory Stoneman Douglas.

Ele conta, no entanto, que a família tomou uma boa decisão após o 11 de setembro e se sente mais ligado ainda a Parkland desde que o ataque o colocou em uma espiral de eventos e ativismo pela segurança nas escolas. "Tivemos uma boa vida aqui", diz. "E, novamente, isso poderia ter acontecido em qualquer lugar."

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 levaram os Feuerman e muitos outros a se afastarem da vida nos locais onde aconteceram os ataques com os aviões sequestrados, que mataram quase 3 mil pessoas em Nova York, no Pentágono e na Pensilvânia há 17 anos. Alguns buscaram segurança. Outros deram mais importância à vida perto da família. Alguns reavaliaram completamente o que queriam de suas vidas.

"Nos deu um chamado para acordar"

Por cerca de 30 semanas ao ano, Scott Dacey dirige de sua casa, próxima de New Bern, na Carolina do Norte, até Washington, por alguns dias. As viagens de 563 quilômetros são o preço que o lobista federal paga para ter paz e tranquilidade após o 11 de Setembro. Ele e a mulher, Jennifer, antigamente esperavam ficar na área de Washington por anos. Depois, veio o ataque ao Pentágono e a sensação de viver sob segurança pesada no norte da Virgínia.

"Foi um chamado para que nós acordássemos: 'Como queremos viver nossas vidas?'", disse Dacey. "Queremos estar aqui, nessa busca incessante de Washington D.C. ou criando filhos em algum lugar menos vigiado e mais perto da família?" A mudança do casal, em 2002, significou custos extras, incluindo um apartamento em Washington. Jennifer, que era advogada, teve que fazer um segundo exame de ordem na Carolina do Norte.

Mas a mudança também abriu novas oportunidades. Dacey é um comissário do condado e concorreu a uma vaga no Congresso. Republicano, ele nunca havia considerado concorrer a eleições quando morava no norte da Virgínia, região de tendência democrata.

E seus filhos, hoje com 17 e 15 anos, cresceram em uma cidade considerada uma das mais seguras do Estado. "Não seria para todo mundo, mas para nós tem sido a mudança certa", disse Jennifer. "Estamos fora da bolha, e é assim que a América realmente vive."

"Você só vai mudar sua vida quando as coisas estiverem ruins"

Tinha que haver um jeito melhor de viver, pensavam Michael e Margery Koveleski. Designer de móveis, Michael sentiu o desgaste emocional ao seu redor quando trabalhava em uma parte baixa de Manhattan, após o 11 de Setembro. Medidas de segurança prologaram seu trajeto de casa, no Queens, até a empresa, devorando o tempo que tinha para os filhos.

E dois meses após os ataques terroristas, o voo 587 da American Airlines caiu perto da casa dos Koveleski, matando 265 pessoas. Na primavera seguinte, a família se mudou para Springfield, em Ohio, onde tinha amigos da igreja. Foi uma melhora, mas nem sempre fácil. 

Inicialmente, foi um desafio para os filhos dos Koveleski serem as crianças novas e mestiças em uma área menos diversa que o Queens. Michael é branco e Margery tem origem haitiana.

Além disso, Michael teve dificuldades para encontrar trabalho na economia abalada após o 11 de Setembro. Ele encontrou uma solução ao abrir o próprio negócio, Design Sleep, que vende colchões de látex natural e camas de plataforma. Já são 14 anos de empresa. "Você só vai mudar sua vida quando as coisas estiverem ruins ou terríveis", disse Michael. "Eu fico impressionado sobre como tudo se resolveu."

"Tentamos ecoar um pouco do que amamos"

Heather e Tom LaGarde amavam Nova York e não queria sair, mesmo depois que Heather assistiu às torres gêmeas queimarem do apartamento onde o casal morava, no Lower East Side de Manhattan. "Mas nos sentimos perdidos com o 11 de Setembro", disse Heather. "Mesmo que eu não estivesse fisicamente ferida, só por ter visto de tão perto mudei de perspectiva. Suas prioridades mudam."

Morar em Nova York foi ficando cada vez mais difícil. O casal tinha trabalhos sem fins lucrativos. Ela se ocupava com direitos humanos. Ele gerenciava um time de basquete para crianças, projeto que havia fundado depois de jogar para alguns times da NBA. Os dois dependiam da arrecadação de fundos, que diminuíra com a economia depois dos ataques. E os amigos haviam se mudado.

Inicialmente, um rancho na Carolina do Norte, que haviam visto à venda pela internet em 2002, seria apenas um refúgio de tempos em tempos. Mas em 2004, os LaGarde se mudaram para a fazenda, perto da pequena cidade de Saxapahaw, com os dois filhos, a garantia de alguns meses de trabalho de consultoria para Heather e nenhum plano além disso.

A ausência de planejamento evoluiu para o começo de uma empresa de restauração arquitetônica; um mercado de produtores locais; uma conferência de inovação humanitária; e o Haw River Ballroom, um espaço de eventos musicais em um antigo moinho, que o casal ajudou a renovar. "Tentamos ecoar um pouco do que amávamos" em Nova York, disse Heather, "mas vivendo em um lugar mais simples, mais fácil, mais natural".

"Liberdade, meus país, minha casa"

Georgios Takos viaja pelo norte de Wyoming em seu food truck Estação Grega. Na decoração do restaurante móvel está uma placa de veículo de Nova York, em estilo souvenir. É uma lembrança do local onde ele certa vez acreditou que traria à vida seu sonho americano. 

Crescendo na região norte da Grécia, em Kastoria, Takos desejava viver nos EUA que via nos filmes, e estava entusiasmado quando chegou a Nova York, em 1986.

Mas 15 anos depois, quando saía da cidade, tinha lágrimas nos olhos. Os ataques de 11 de setembro haviam destruído sua sensação de segurança e sua ideia de cidade. Ele se mudou e passou a trabalhar em um restaurante no Arizona, e em seguida foi para Califórnia, onde conheceu sua mulher, Karen, uma professora.

Em visita ao Estado natal de Karen, Montana, ele encontrou os EUA que imaginava. O casal se mudou para a cidade próxima de Powell em Wyoming. Takos ainda valoriza o que Nova York lhe ensinou sobre o trabalho duro. Mas ele diz que ao deixar a cidade, encontrou o que estava procurando - "Liberdade, meu país, minha casa!" / AP

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