Alexandre Meneghini/REUTERS
Alexandre Meneghini/REUTERS

Como o aumento do acesso a celulares ajudou os protestos contra o governo cubano

Liberada no país em 2018, conexão móvel aproximou jovens do mundo do consumo

Pedro Vilas Boas, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 15h00

HAVANA - Os recentes protestos contra o governo cubano, os maiores desde os anos 90, só foram possíveis graças a um componente inédito: a democratização do acesso à telefonia celular, artigo raro na ilha até 2017. Conectados, os cubanos agora querem mais acesso a consumo e liberdade cultural, colocando em xeque o governo de Miguel Díaz-Canel

“Para eles não faz mais sentido. A revolução é pelo consumo”, diz Paulo Ramirez, professor de Filosofia, Sociologia, Antropologia e Ciência Política da ESPM.

No último dia 11 de julho, os cubanos ocuparam ruas de várias cidades do país para protestar contra o governo em meio a uma crise econômica e sanitária. As manifestações foram organizadas pelas redes sociais.

A conexão de internet só foi autorizada nas residências de Cuba em 2017. No ano seguinte, o governo também liberou o acesso por celular. Em 2019, o presidente legalizou o acesso à internet sem fio nas casas.

Quando a internet foi liberada nas casas, a cada 100 habitantes de Cuba, 57,15 conseguiam se conectar. Em 2019, eram 61,84, aumento de 8%. Os dados foram compilados pelo IBGE baseados em levantamento da União Internacional de Telecomunicações (ITU, na sigla em inglês), agência da Organização das Nações Unidas (ONU).

Os números também mostram que as assinaturas de telefonia móvel em Cuba cresceram 13% de 2018 - quando o acesso à internet pelo celular foi liberado - a 2019. A cada 100 habitantes, 47,39 assinavam o serviço; no ano seguinte, o número subiu para 53,32.  

“O que chega para esses jovens, pelos meios de comunicação e, agora, com a internet, é um mundo do consumo. A rebeldia em Cuba não é se declarar comunista, mas sim poder ter um boné, tênis, coisas que eles têm dificuldade em acessar”, avalia Ramirez.

Internet controlada

Apesar do avanço com a liberação do acesso à internet em Cuba nas residências e celular, a conexão é restrita e tem interferência direta do governo. Após os protestos em julho, o regime cortou a internet da população.

Dados da NetBlocks, monitor global da internet, mostraram instabilidade no WhatsApp, Facebook, Instagram e alguns servidores do Telegram no dia seguinte às manifestações. Isso acontece porque a única provedora de internet é a estatal ETECSA.

Yasmin Curzi, pesquisadora do Centro de Tecnologia e sociedade (CTS) da FGV Direito Rio, explica que é difícil burlar essa intervenção do governo cubano, mesmo utilizando redes privadas virtuais ou VPN.

“A ETECSA é a única provedora do país. Isso faz com que seja muito mais fácil simplesmente interromper o fluxo das comunicações. Também é mais fácil pra desativar nos celulares, por ter esse controle unificado”, explica.

Na avaliação do professor Paulo Ramirez, o corte da conexão de internet pelo governo Miguel Díaz-Canel tem relação direta com a diminuição das manifestações de rua. O presidente também tem feito acenos à população.

Na quinta-feira, 29, o governo anunciou a distribuição de alimentos e aumento da cesta básica subsidiada.

“A informação que a gente tem é que há presos políticos, que foram responsabilizados por organizar as manifestações. É um retrocesso porque é um governo civil, mas militarizado”, diz Ramirez.

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