Como o Brasil viu o mundo à beira do abismo nuclear

Governo João Goulart acompanhou - e tentou mediar - episódio mais tenso da Guerra Fria, revelam documentos

ROBERTO SIMON , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h04

Uma mensagem arrepiante chegou à Embaixada do Brasil em Havana em 26 de outubro de 1962. O governo brasileiro estava "seguramente informado" de que EUA e URSS entrariam em guerra "nas próximas 48 horas" caso não cessasse a instalação de mísseis soviéticos em Cuba, alertava o chanceler Hermes Lima ao embaixador em Havana, Luiz Bastian Pinto. E ordenava o ministro: "Realize imediata gestão junto ao governo (cubano), apelando para a suspensão dos trabalhos".

Há 50 anos, a Crise dos Mísseis fazia o mundo, incluindo o Brasil de João Goulart, caminhar à beira do precipício da guerra atômica. O então líder soviético, Nikita Khruchev, decidira instalar foguetes nucleares a quase 300 km de Miami, algo que o governo de John F. Kennedy estava disposto a impedir a qualquer custo - até mesmo com a guerra.

Para entender como o Brasil viu o mundo rumo ao holocausto nuclear, o Estado mergulhou em centenas de telegramas secretos do Itamaraty, consultou historiadores e entrevistou protagonistas. No duelo entre os gigantes atômicos, o Brasil parlamentarista de Jango, solidário a Cuba e dependente dos EUA, colheu informações e chegou a tentar intermediar uma solução, enviando uma mensagem direta de Kennedy a Fidel Castro. O portador do recado era o chefe da Casa Militar, general Albino Silva, recebido por Fidel em Havana naquele outubro de 1962.

O Brasil entrou no imbróglio diplomático no dia 22 de outubro, quando o embaixador dos EUA no Rio, Lincoln Gordon, entregou a Jango uma carta de Kennedy avisando sobre a descoberta do arsenal soviético. Horas depois, o presidente americano iria à TV anunciar que a 3.ª Guerra Mundial poderia começar em breve.

No texto, Kennedy convidava o Brasil a "discutir a possibilidade de uma ação armada" em Cuba caso a crise não fosse solucionada pela diplomacia. Jango, imediatamente, convocou cinco assessores ao Palácio da Alvorada para rascunhar a resposta ao líder do "mundo livre".

"Debatemos ao longo de toda tarde e, ao final, o (ex-chanceler) San Tiago Dantas retirou-se a uma biblioteca para escrever a mensagem", relembra hoje, aos 83 anos, Almino Affonso, que participou da reunião como líder do governo de Jango na Câmara.

Veio, então, a resposta: o Brasil rejeitava qualquer "intervenção militar num Estado americano, inspirada na alegação de incompatibilidade com seu regime político" - ou seja, dizia-se um grande "não" a Kennedy.

A posição de Jango irritou os americanos, que repetidas vezes se queixaram ao embaixador do Brasil nos EUA, Roberto Campos. Em seus telegramas, o diplomata - que se tornaria ministro do Planejamento após o golpe de 1964 - contava que estava sendo cobrado pela "tibieza" da posição do Brasil, que não "compreendia" a ameaça do arsenal soviético no Caribe.

Em reunião de emergência na OEA, o Itamaraty votou a favor do bloqueio naval a Cuba. O Brasil, porém, diferentemente de Argentina, Peru, Colômbia e Venezuela, recusou-se a enviar forças para implementar o cerco à ilha.

Missão Albino. Recentemente, o historiador James Hershberg, da Universidade George Washington, descobriu que Kennedy voltou a procurar o governo brasileiro no meio da crise. Dessa vez, porém, para que o embaixador do Brasil em Cuba transmitisse a Fidel uma mensagem de oito pontos, incluindo uma promessa de não invasão em troca do fim da boa relação entre Havana e Moscou.

"Uma palavra explica a decisão de Kennedy de recorrer ao Brasil: desespero. Os EUA discutiam várias opções e uma delas era essa mensagem via governo brasileiro", explica Hershberg.

Segundo o historiador, o embaixador americano e o chanceler brasileiro reuniram-se no Rio na madrugada do dia 27. Além de um papel com a oferta, Gordon deu a Lima uma instrução: o Brasil deveria dizer que a mensagem partira de Jango, e não de Kennedy.

O governo brasileiro aceitou transmitir o recado, só que com uma pequena mudança. O portador da oferta a Fidel não seria o embaixador em Cuba, mas o chefe da Casa Miliar de Jango, general Albino, que partiria logo a Havana. Roberto Campos, nos EUA, avisava que os americanos viam o militar como simpático ao bloco socialista e o próprio Kennedy o questionara sobre a filiação ideológica de Albino.

Um telegrama do Rio informava o diplomata em Havana sobre a iminente chegada do general e o instruía a conseguir um "encontro imediato com Fidel". Dois dias depois, o líder cubano falaria por mais de uma hora com Albino na Embaixada do Brasil em Havana. Após ouvir o emissário de Jango, Fidel respondeu-lhe que qualquer acordo para a retirada dos mísseis soviéticos passaria pela devolução da base de Guantánamo a Cuba - algo impensável para Kennedy.

O líder cubano ainda se negava a permitir que inspetores internacionais fossem a Cuba, pois considerava isso "ofensivo ao brio de seu povo", escreveu Albino ao presidente Goulart.

No entanto, enquanto o general brasileiro e o revolucionário cubano discutiam, Kennedy e Khruchev já haviam chegado a um acordo, à revelia de Fidel. A URSS retiraria os mísseis de Cuba em troca de garantias de que os EUA não invadiriam a ilha e moveriam seus arsenais nucleares da Turquia e do sul da Itália.

Dias depois, já longe do abismo nuclear, o embaixador brasileiro descreveu a conversa que tivera com o chanceler cubano, Raúl Roa García, sobre o pacto entre Kennedy e Khruchev. "Não somos brinquedo nas mãos das superpotências!", teria bradado o chanceler de Fidel.

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