AP Photo/Alex Brandon
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Análise: Como o diagnóstico de Trump afeta a nomeação para a Suprema Corte

Teste positivo do presidente para covid-19 pode adiar audiências para confirmação de Amy Coney Barnett como sucessora de Ruth Bader Ginsburg

Carl Hulse and Nicholas Fandos, The New York Times

03 de outubro de 2020 | 13h04

WASHINGTON - O surto do novo coronavírus que infectou o presidente Donald Trump e se espalhou pelo Senado lançou um novo elemento de incerteza nesta sexta-feira, 2, na luta política pela instalação da juíza Amy Coney Barrett na Suprema Corte americana antes das eleições. Republicanos prometiam pressionar para que Barnett ocupasse a vaga deixada por Ruth Bader Ginsburg e democratas insistiam em uma pausa.

Conseguir uma confirmação complexa, que envolve os três ramos do governo, nas quatro semanas que faltam para as eleições, sempre prometeu ser uma tarefa intimidadora para os republicanos em meio a uma pandemia. Mas na sexta-feira à noite ficou claro que o desafio havia se intensificado, com a Casa Branca e o Congresso em tumulto e dois membros republicanos do Comitê Judiciário, senadores Mike Lee, de Utah, e Thom Tillis, da Carolina do Norte, entre os que anunciaram que haviam testado positivo para o vírus.

Republicanos insistiram em avançar em um ritmo incomum para marcar audiências sobre a nomeação de Barrett até 12 de outubro, enviar a nomeação para o plenário do Senado até 22 de outubro e confirmar o nome da juíza até 26 de outubro, oito dias antes das eleições — mesmo que isso significasse quebrar as normas do Senado e analisar uma nomeação judicial vitalícia por videoconferência. Mas o surto de coronavírus levantou a possibilidade de que os republicanos pudessem perder sua reduzida maioria na Comissão Judiciária ou no Senado.

Isso deu aos democratas, que já estavam se opondo à insistência de Trump em instalar uma nova juíza da Suprema Corte tão perto da eleição, um novo motivo para pedir um adiamento. Enxergando uma possível abertura, os democratas pediram que o Senado fizesse uma pausa e avaliasse o alcance do surto. Eles declararam que uma audiência totalmente virtual para analisar uma candidatura a uma nomeação vitalícia para a mais alta corte do país seria inaceitável.

"É fundamental que o presidente (do Comitê Judiciário do Senado, Lindsey) Graham coloque a saúde dos senadores, da indicada e dos funcionários em primeiro lugar — e garanta uma audiência completa e justa, que não seja apressada, truncada e virtual", disseram em uma declaração conjunta os senadores Chuck Schumer, de Nova York, líder da minoria, e Dianne Feinstein, da Califórnia, a principal democrata do Comitê Judiciário. "Caso contrário, este processo já ilegítimo se tornará um processo perigoso".

Na sexta-feira à noite, depois que o senador Thom Tillis anunciou seu resultado positivo no teste para covid-19, Schumer renovou seu apelo por um adiamento, escrevendo no Twitter que avançar com as audiências seria "irresponsável e perigoso". "Não há absolutamente nenhuma boa razão para fazer isso", disse ele.

Mas o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, presidente do Comitê Judiciário, prometeu que cumpriria sua agenda. O senador Mitch McConnell, republicano do Kentucky, líder da maioria, disse que pretendia continuar com o processo de nomeação assim que o comitê o aprovasse.

"Acabei de terminar um ótimo telefonema com o presidente", escreveu McConnell no Twitter nesta sexta-feira. "Ele está bem disposto e conversamos sobre negócios — especialmente sobre como os senadores estão impressionados com as qualificações da juíza Barrett. A todo vapor com o processo justo, minucioso e oportuno que a nomeada, a Corte e o país merecem".

As autoridades republicanas disseram que não tinham dúvidas de que os senadores encontrariam uma forma de mobilizar a nomeação, apesar dos protestos dos democratas. Mas os republicanos não podem se dar ao luxo de ter muitos membros afastados por doenças, o que poderia proporcionar aos democratas uma oportunidade de paralisar os procedimentos. Duas senadoras republicanas, Susan Collins do Maine e Lisa Murkowski do Alasca, já levantaram objeções para avançar com as audiências antes das eleições, reduzindo a margem de manobra na maioria republicana de 53 para 47 votos.

McConnell tem insistido durante toda a pandemia para que o Senado continue a se reunir pessoalmente, mas ele admitiu nesta sexta-feira que manter os senadores republicanos saudáveis era crucial para o destino da nomeação. "Acho que todas as precauções devem ser tomadas porque não antecipamos nenhum apoio democrata, nem na comissão nem no plenário do Senado, e, portanto, todos precisam estar em uma mentalidade de mão na massa", disse ele em uma entrevista com o apresentador de rádio conservador Hugh Hewitt.

Os posicionamentos em torno da luta em tribunal se desenrolaram à medida em que funcionários do governo na Casa Branca e no Capitólio passaram a sexta-feira correndo para rastrear aqueles que tinham entrado em contato com os portadores conhecidos do coronavírus para determinar até onde o vírus se espalhou.

Trump estava próximo a Barrett quando ele anunciou sua nomeação no Jardim das Rosas há uma semana, em um evento bastante frequentado, onde poucas pessoas usavam máscaras ou adotaram outras precauções. Pelo menos dois outros participantes de alto nível, o reverendo John Jenkins, presidente da Universidade de Notre Dame, e Kellyanne Conway, uma ex-conselheira da Casa Branca, disseram na sexta-feira que também haviam testado positivo para o coronavírus.

Os senadores Lee e Tillis estavam entre os pelo menos oito senadores republicanos presentes no evento da Casa Branca, onde alguns convidados também se reuniram dentro da casa, quando um vídeo registrou Lee abraçando outros participantes sem uma máscara. Tillis usava máscara.

Ambos estão no Comitê Judiciário e se encontraram com Barrett no Capitólio esta semana dentro de casa, sem máscaras, como fizeram com mais de uma dúzia de outras pessoas. O escritório de Tillis divulgou uma fotografia do senador e da juíza tocando os cotovelos em cumprimento. Os dois senadores que testaram positivo disseram que se sentiam bem, mas que se isolariam por 10 dias, colocando-os no caminho certo para voltar às atividades no dia em que Graham pretende iniciar a audiência de confirmação de Barrett.

Outros legisladores que tinham estado próximos a Trump ou a seus auxiliares disseram que estavam sendo testados. Entre eles estavam a presidente da Câmara, Nancy Pelosi; o senador Rick Scott, republicano da Flórida; e o senador Kelly Loeffler, republicano da Geórgia. Todos anunciaram que haviam testado negativo para a covid-19.

Os membros republicanos da delegação do Congresso do Minnesota, que voaram com o presidente no Air Force One de Washington para um comício de campanha em Duluth, também disseram que estavam sendo testados.

O deputado Jim Jordan, republicano de Ohio, voou para o debate presidencial em Cleveland na terça-feira no Air Force One com o presidente e Hope Hicks, assistente próxima a Trump que testou positivo na quinta-feira. Jordan anunciou na sexta-feira que havia testado negativo.

As preocupações com o surto parecem ter levado a uma mudança na abordagem muito criticada do Congresso, para testar as milhares de pessoas que entram e saem do complexo do Capitólio a cada semana, muitas delas vindo de avião de todo o país.

O Médico Assistente do Congresso informou aos legisladores na sexta-feira que os testes com resultado no mesmo dia seriam agora oferecidos no Capitólio aos parlamentares que mostrassem possíveis sintomas de coronavírus ou tivessem sido expostos a alguém que tivesse testado positivo. Os funcionários que entrassem em contato com alguém com resultado positivo para covid-19 também poderiam receber testes, disse o escritório.

O anúncio veio depois que o democrata Chuck Schumer expressou profunda ansiedade sobre as perspectivas de saúde no Capitólio após o teste positivo de Trump.

"Este episódio demonstra que o Senado precisa de um programa de teste e rastreamento de contatos para senadores, funcionários e todos os que trabalham no complexo do Capitólio", disse Schumer. "Nós simplesmente não podemos permitir que a atitude arrogante da administração afete negativamente este ramo do governo. É imperativo que todos os resultados sejam tornados públicos a fim de conter um possível surto e para que possamos determinar a necessidade de que senadores e funcionários entrem em quarentena ou auto-isolamento".

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