Como o EI afasta muçulmanos

Extremismo do grupo leva jovens a se distanciar do Islã e até manifestar ateísmo em redes

WILLIAM J., DOBSON, SLATE, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2014 | 02h00

O Estado Islâmico (EI) atrai certamente jovens muçulmanos do mundo todo para o seu feroz movimento cujo objetivo é a construção de um califado no Iraque e na Síria. Mas já existe algo menos visível - a reação online ao EI dos jovens muçulmanos que declaram sua oposição à lei islâmica (a sharia) e até anunciam com orgulho o próprio ateísmo.

Nadia Oweidat, pesquisadora sênior da New America Foundation, que analisa o uso da internet pela juventude árabe, diz que o fenômeno "está crescendo enormemente - porque a brutalidade do EI acabou exacerbando a questão e até mesmo afastando alguns jovens muçulmanos do Islã".

No dia 24 de novembro, a BBC publicou um artigo sobre algo que surgiu como tendência no Twitter. O texto começava: "Cresce o número de mensagens em árabe na rede social pedindo que se abandone a sharia. A discussão da lei religiosa é um tema sensível em muitos países muçulmanos. Entretanto, no Twitter, uma hashtag que se traduz como 'Por que rejeitamos a implementação da sharia' foi usada 5 mil vezes em 24 horas.

O bate-papo ocorre principalmente na Arábia Saudita e no Egito. Nele, jovens questionam se a lei religiosa atende às necessidades dos países árabes e aos modernos sistemas legais. Alyaa Gad, uma médica egípcia que mora na Suíça, foi quem começou a hashtag. 'Não tenho nada contra a religião', ela diz à BBC, mas afirma que é contra 'o seu uso como sistema político'".

A BBC acrescentou que "muitas outras pessoas participaram da conversa usando a hashtag e enumeraram as razões pelas quais árabes e muçulmanos deveriam abandonar a sharia. 'Porque não existe um único exemplo positivo de que ela ofereça justiça e igualdade', tuitou um dos participantes. Uma mulher saudita comentou: 'Aderindo à sharia, aderimos a leis desumanas. A Arábia Saudita está encharcada com o sangue dos executados pela sharia'".

Ismail Mohamed, um egípcio que tomou para si a missão de criar liberdade de consciência em seu país, lançou um programa chamado Black Ducks, para oferecer um espaço em que árabes agnósticos e ateus possam falar livremente do seu direito de escolher aquilo em que acreditam e resistir à coerção e à misoginia das autoridades religiosas. Ele integra a Rede de Árabes Ateus, que não para de crescer. Para notícias em árabe escritas por árabes desafiando autocratas e religiosos ortodoxos, também existe o site freearabs.com.

Outra voz que vem recebendo ampla atenção é a do Irmão Rachid, um marroquino que criou sua própria rede no YouTube para enviar mensagens de tolerância e denunciar exemplos de intolerância entre sua antiga comunidade muçulmana. (Ele se converteu ao cristianismo, preferindo o "Deus de amor" desse credo.)

Em um clipe postado recentemente no YouTube, que foi visto 500 mil vezes, o Irmão Rachid se dirigiu ao presidente Obama: "Prezado sr. Presidente, permita-me dizer que o sr. está enganado a respeito do EI. O sr. disse que o EI não fala em nome de uma religião. Eu era muçulmano. Meu pai é um imã. Estudei o Islã durante mais de 20 anos. Posso lhe afirmar com total segurança que o EI fala pelo Islã. Os dez mil integrantes do EI são todos muçulmanos. Eles são originários de diferentes países e têm um denominador comum: o Islã. Eles seguem o profeta Maomé do Islã em todos os detalhes e exigem a criação de um califado, que é um elemento fundamental do Islã sunita."

O jovem prosseguiu: "Peço ao sr. que deixe de ser politicamente correto - que chame as coisas pelos seus verdadeiros nomes. EI, Al-Qaeda, Boko Haram, Al Shabab na Somália, o Taleban, e suas organizações irmãs, são todos produzidos no Islã. A não ser que o mundo muçulmano encare a questão do Islã e separe a religião do Estado, esse ciclo jamais terá fim. Se o Islã não é problema, então porque há milhões de cristãos no Oriente Médio e nenhum deles se explodiu para tornar-se um mártir, embora viva nas mesmas circunstâncias econômicas e políticas - ou até piores? Sr. presidente, se o sr. quiser realmente combater o terrorismo, terá de combatê-lo nas suas raízes. Quantos xeques sauditas pregam o ódio? Quantos canais islâmicos doutrinam pessoas ensinando-lhes a violência do Alcorão e do Hadith? Quantas escolas islâmicas produzem gerações de professores e estudantes que acreditam na jihad, no martírio e no combate aos infiéis?"

Consequência. Declarando falar em nome de todos os muçulmanos - e promovendo uma forma puritana de Islã que leva a atual doutrinação das madrassas, financiadas pelos sauditas, à sua lógica conclusão política - o EI escancarou algumas frustrações há muito latentes no mundo árabe muçulmano.

Sendo uma pessoa de fora, não saberia dizer até que ponto essas mensagens de discordância se espalharam. Mas, evidentemente, há um grupo significativo de muçulmanos que se convenceram de que seus pregadores respaldados pelo governo e suas hierarquias religiosas incutiram neles um tipo de Islã que não fala em seu nome.

Essas mesmas autoridades também lhes negaram os instrumentos do pensamento crítico e o espaço religioso para buscar novas interpretações. Portanto, alguns, como o Irmão Rachid, deixam o Islã por credos diferentes e convidam outros a segui-los.

Alguns, aparentemente, estão se distanciando sem estardalhaço da religião - cansados de ser apadrinhados por ocidentais politicamente corretos que lhes dizem o que o Islã não é, e tiranizados por entidades autoritárias que se denominam islamistas que lhes dizem o que o Islã é. Agora que a Internet criou espaços e plataformas alternativas, seguras, para discutir essas questões, fora das mesquitas e da mídia controlada pelo governo, explode essa guerra de ideias. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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