Como o EI pode vencer

Cogitar vitória do grupo no Oriente Médio é sombrio, mas necessário para combatê-lo

JOHN, MCLAUGHLIN, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2015 | 02h00

Imaginemos o impensável: pode o Estado Islâmico sair vencedor? Digo "impensável" porque, desencorajados como todos se tornaram, muitas análises não chegam ao ponto de imaginar como seria uma vitória do EI no Oriente Médio. A convicção geral é a de que o grupo é tão nocivo que simplesmente tem de ser derrotado.

Analisemos essa hipótese, pensando por um minuto sobre o que é necessário para o grupo sair vitorioso. O que seria o sucesso para o EI? Basicamente, num futuro previsível, seria manter a área conquistada - aproximadamente metade de Iraque e Síria - e exercer uma rudimentar governança nesse território que chama de seu califado.

O que significa um futuro previsível? O grupo quase certamente sobreviverá ao governo de Barack Obama nos EUA. Aos dois anos da próxima presidência, se o EI ainda estiver governando aquela região, acho que seria difícil não chamar isso de vitória.

O que deve ocorrer para que esse se torne um fato quase inevitável? Pelo menos quatro situações e nenhuma delas pode ser vista como pura fantasia.

Em primeiro lugar, os oponentes do EI não conseguirão mobilizar força de combate suficiente para enfrentar o grupo. Apenas bombardeios não bastam. O Exército iraquiano não está à altura da tarefa e, compreensivelmente, não há muita vontade dos EUA de enviar os soldados necessários - que seriam entre 10 mil e 20 mil. Os Estados árabes mencionaram a criação de uma força, mas não têm experiência num projeto desse tipo e há pouca unidade entre eles para levá-lo adiante.

Claro que os EUA continuam a treinar os soldados iraquianos como também cerca de 5 mil combatentes para enfrentar o EI na Síria. Mas uma lição que aprendi com o Vietnã e outros conflitos nos últimos anos é que existe uma enorme diferença entre treinar uma força e colocá-la no combate.

As pessoas não lutam porque foram treinadas, lutam porque creem em alguma coisa. No momento, os que mais acreditam no seu combate são os combatentes do EI.

Em segundo lugar, o EI terá de entrar em Bagdá. Seu controle da Província de Anbar coloca esse avanço dentro do seu alcance. Para muitas pessoas, o EI dominado por sunitas não conseguirá capturar Bagdá, cidade predominantemente xiita que será defendida ferozmente pelas milícias. Mas o EI não precisa tomar a cidade para desmoralizar seus oponentes, do mesmo modo que os norte-vietnamitas não necessitaram tomar Saigon durante a Ofensiva do Tet, em 1968. Os vietcongues foram derrotados militarmente, mas conseguiram destruir o espírito de luta do sul e convencer muita gente nos EUA de que a guerra não podia ser ganha. O EI precisa apenas mostrar que consegue romper as defesas da cidade, infiltrando combatentes e armas e provocando o caos.

Em terceiro, o Iraque terá de continuar sucumbindo, o que deixará os oponentes do EI com uma base de combate menos segura e os sunitas, xiitas e curdos do país ainda mais à deriva. A minoria sunita continua irreconciliavelmente descrente do governo xiita de Haider al-Abadi. O movimento de independência dos curdos parece sob controle, mas, se eles se tornarem a principal força de combate ao EI, seu incentivo para a independência só aumentará.

Em quarto lugar, o Irã terá de deixar de assumir uma maior responsabilidade pela derrota do EI. As milícias iranianas vêm auxiliando as forças iraquianas, mas não têm um efeito decisivo. Se nenhuma outra força surgir, o Irã poderá ver-se tentado a liderar o combate, enviando contingentes maiores de soldados e membros da milícia Hezbollah. Mas ninguém deseja isso, principalmente a Arábia Saudita, que teria forças iranianas bruscamente próximas da sua fronteira.

Essas são duras realidades. As péssimas alternativas disponíveis induzem a uma paralisia política nos EUA e no Oriente Médio. Mas uma clara lição dos últimos anos é que não tomar nenhuma decisão também é uma maneira de decidir - que pode engendrar alternativas ainda piores.

Se as quatro condições acima ocorrerem, parece inevitável que o EI vença e a partir daí os desafios não serão mais fáceis.

Para atender às demandas, os governos poderão ser obrigados a se comprometer com o EI, mas, como sempre ocorre com Estados terroristas, futuramente o grupo estará buscando alvos externos, como os EUA, continuando a ser uma ameaça para seus vizinhos e aferrados à sharia, a lei islâmica.

Entre as alternativas que poderiam nos desviar disso, duas são essenciais. Primeiro, precisamos esvaziar a reivindicação do EI a um califado retomando uma parte substancial do território. Em segundo lugar, devemos encontrar uma maneira de concretizar o que até agora provou ser o mais difícil: pôr fim à alienação das populações sunitas no Iraque e na Síria, o mais poderoso instrumento do EI para atrair novos recrutas. Esse último objetivo vai exigir pressão militar, persuasão e diplomacia numa escala descomunal. Mas a verdade é que nada além disso dará resultado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-DIRETOR ADJUNTO E EX-DIRETOR INTERINO DA CIA DE 2000 A 2004. É PROFESSOR DA JOHNS HOPKINS SCHOOL OF ADVANCED INTERNATIONAL STUDIES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.