Samuel Corum/The New York Times
Samuel Corum/The New York Times

Como o espaço se tornou a próxima disputa de 'Grande potência' entre EUA e China

A corrida de Pequim por armas antissatélite começou há 15 anos. Agora, pode ameaçar as frotas orbitais que dão aos militares dos Estados Unidos sua vantagem tecnológica

William J. Broad, The New York Times

26 de janeiro de 2021 | 09h00

A corrida de Pequim por armas antissatélite começou há 15 anos. Agora, pode ameaçar as frotas orbitais que dão aos militares dos Estados Unidos sua vantagem tecnológica. Armas avançadas em bases militares chinesas podem acionar ogivas que destroem satélites e disparar raios laser com potencial para cegar matrizes de sensores delicados.

E os ataques cibernéticos da China podem, pelo menos em teoria, impedir o contato do Pentágono com frotas de satélites que rastreiam os movimentos do inimigo, retransmitem comunicações entre as tropas e fornecem informações para o direcionamento preciso de armas inteligentes.

Entre as questões de segurança nacional mais importantes que o presidente Joe Biden enfrenta agora está como combater a ameaça que a China representa para os militares dos EUA no espaço e, por extensão, para as forças terrestres que dependem das plataformas aéreas.

O governo Biden ainda não indicou o que planeja fazer com o legado do presidente Donald Trump nessa área: a Força Espacial, um novo braço das forças armadas que tem sido criticado como uma escalada cara e imprudente que poderia levar a uma nova e perigosa corrida armamentista.

Trump apresentou a iniciativa como sua, e agora ela sofre por ser associada a ele e continua sendo alvo de piadas na televisão. Mas sua criação também foi o ápice das escolhas estratégicas de seus antecessores, os presidentes George W. Bush e Barack Obama, para conter uma China fortalecida que intensificou o alarme bipartidário.

“Começamos a perceber que nossos sistemas espaciais são bastante vulneráveis”, disse Greg Grant, funcionário do Pentágono no governo Obama que ajudou a planejar sua resposta à China. “O governo Biden verá mais fundos - não menos - indo para a defesa espacial e lidando com essas ameaças”.

O objetivo da proteção é criar uma presença americana em órbita tão resiliente que, não importa quão mortais sejam os ataques, ela funcionará bem o suficiente para que os militares projetem poder ao redor do globo em represálias terrestres e contra-ataques. Isso poderia deter os ataques de Pequim em primeiro lugar. A questão difícil é como conseguir esse tipo de forte dissuasão.

Lloyd J. Austin III, general aposentado de quatro estrelas do Exército que foi confirmado na semana passada como secretário de Defesa de Biden, disse ao Senado que manteria um "foco apurado" em aumentar a "vantagem competitiva" do país contra os militares cada vez mais poderosos da China. Entre outras coisas, ele pediu novos avanços americanos na construção de "plataformas com bases no espaço" e repetidamente se referiu ao espaço como um domínio de combate.

O novo governo tem mostrado interesse em explorar as inovações dos empresários espaciais como um meio de fortalecer o controle militar - o que Austin em seu depoimento no Senado chamou de "parcerias com instituições espaciais comerciais". Os governos Obama e Trump adotaram essa estratégia como uma forma exclusivamente americana de aprimorar a vantagem militar.

Os especialistas discordam sobre se os EUA estão fazendo muito pouco ou demais. Os defensores de uma política externa agressiva fizeram lobby durante décadas para a criação de um Divisão Espacial militar e exigiram mais gastos com armas.

Mas os controladores de armas consideram a Força Espacial como um aumento das tensões globais e dando a Pequim uma desculpa para acelerar suas próprias medidas ameaçadoras.

Disparada de Pequim

Durante anos, os chineses estudaram - com ansiedade crescente - as forças armadas americanas, especialmente suas invasões no Afeganistão, em 2001, e no Iraque, em 2003. Os bons resultados no campo de batalha foram vistos como enraizados no domínio do espaço. Os estrategistas observaram que milhares de bombas guiadas por satélite e mísseis de cruzeiro choveram com precisão devastadora sobre as forças do Taleban e as defesas iraquianas.

Embora a vantagem do Pentágono em habilidades orbitais fosse claramente uma ameaça para a China, os estrategistas argumentaram que isso também poderia representar um risco.

“Eles viram como os EUA projetavam poder”, disse Todd Harrison, analista espacial do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa de Washington. “E eles viram que isso estava em grande parte sem defesa.”

A China começou seus testes antissatélite em 2005. Ela disparou dois mísseis em dois anos e depois virou manchete em 2007 ao destruir um satélite meteorológico abandonado. O teste bem-sucedido repercutiu globalmente porque foi o primeiro ato de destruição desse tipo desde a Guerra Fria.

A China também buscou diversificar sua força antissatélite.

Em testes, a China começou a disparar raios laser fracos contra satélites e a estudar outras maneiras de atacar na velocidade da luz.

Então veio a nova ideia. Cada aspecto do poder espacial dos EUA era controlado em solo por poderosos computadores. Se invadidos, os cérebros das frotas espaciais de Washington podem ser degradados ou destruídos. Esses ataques, em comparação com qualquer outro movimento antissatélite, também eram incrivelmente baratos.

Em 2005, a China começou a incorporar ataques cibernéticos em seus exercícios militares, principalmente nos primeiros movimentos contra redes inimigas. Cada vez mais, sua doutrina militar pedia ataques iniciais paralisantes.

Em 2008, os hackers tomaram o controle de um satélite civil de imagem chamado Terra que orbitava baixo, como a nave de reconhecimento militar. Fizeram isso duas vezes - primeiro em junho e novamente em outubro - em circuitos de controle de roaming com aparente impunidade. Notavelmente, em ambos os casos, os hackers realizaram todas as etapas necessárias para comandar a espaçonave, mas se abstiveram de fazê-lo, aparentemente para reduzir suas impressões digitais.

Resposta de Washington

Em seu segundo mandato, o governo Obama tornou público o que chamou de "estratégia de compensação" para responder à China e outras ameaças, capitalizando a vantagem tecnológica dos EUA.

Assim como os EUA desenvolveram, primeiro, um vasto arsenal nuclear e, depois, armas inteligentes, este terceiro movimento buscaria uma vantagem ao acelerar a ascensão da robótica, armas de alta velocidade e outros avanços que poderiam capacitar as forças armadas por décadas.

Ao contrário das compensações anteriores, disseram as autoridades, o objetivo era depender menos das equipes federais do que dos empresários de tecnologia que estavam transformando rapidamente o mundo civil.

Os avanços no espaço deveriam ser defensivos: nuvens de satélites pequenos e relativamente baratos e frotas de lançadores reciclados que cobririam completamente Pequim com incontáveis alvos. Para Obama, avanços inovadores deveriam fazer pelas forças espaciais dos EUA o que Steve Jobs fez para aparelhos terrestres, levando-o a perder tempo em torno dos ministérios calcificados de estados autoritários.

O governo Obama já estava aplicando a filosofia comercial à NASA, transformando a agência espacial em uma grande financiadora de avanços empresariais. Estava injetando bilhões de dólares no desenvolvimento de foguetes e cápsulas particulares destinados a levar os astronautas à órbita.

Os militares aderiram. Os beneficiários incluíram Elon Musk, fundador da Tesla, e Jeff Bezos, fundador da Amazon. Suas empresas espaciais - SpaceX, de Musk, e Blue Origin, de Bezos - tentaram transformar os lançadores de foguetes descartáveis em recicláveis, reduzindo seus custos.

Autoridades militares acreditavam que o novo sistema tornaria possível substituir rapidamente os satélites em tempos de guerra.

A terceira compensação também procurou diminuir o tamanho dos satélites. Ao longo de décadas, os grandes se transformaram em gigantes. Alguns custam US$ 1 bilhão ou mais para serem projetados, construídos, equipados, lançados e mantidos em serviço. Um tipo desenrolou uma antena quase tão grande quanto um campo de futebol. Mas os civis, inspirados pela revolução do iPhone, estavam construindo espaçonaves tão pequenas quanto fatias de pão.

Os estrategistas militares viram as espaçonaves menores, mais baratas e mais numerosas tornando a seleção de alvos antissatélite muito mais difícil - em alguns casos impossível - para um adversário.

No final do governo Obama, a SpaceX estava enviando cargas úteis para o espaço e trazendo foguetes de reforço à Terra em pousos suaves.

Dois anos depois, Trump revelou a Força Espacial, provocando piadas no Twitter, em programas de televisão na madrugada e até em uma série de comédia da Netflix. Mas em março, a unidade disse que havia tomado posse de sua primeira arma ofensiva, chamando o evento de histórico. Com base na terra, o sistema dispara feixes de energia para interromper espaçonaves. O tenente-coronel Steve Brogan, especialista em combate espacial, disse que a aquisição "coloca a ‘força ’na Força Espacial e é crucial para o espaço como um domínio de combate". /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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