REUTERS/Leonhard Foeger
REUTERS/Leonhard Foeger

Como o ex-líder da Áustria caiu em desgraça e abandonou a política antes dos 40 anos

Sebastian Kurz se tornou uma das pessoas mais jovens a liderar um país e hoje anuncia sua completa retirada da política na esteira de escândalos de corrupção

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 05h00
Atualizado 03 de dezembro de 2021 | 08h33

VIENA - Sebastian Kurz foi eleito chanceler da Áustria em 2017 aos 31 anos, tornando-se um dos líderes mais jovens do mundo. Quatro anos depois, ele anuncia a sua saída completa da política com o pretexto de passar mais tempo com a família. O ex-líder, porém, viu sua imagem de degastar em escândalos de corrupção e acusação de tráfico de influência.

Kurz anunciou sua retirada da política, bem como da liderança de seu partido ÖVP, na última quinta-feira, 2, apenas dois meses depois de haver renunciado como chanceler. Horas depois, seu sucessor no cargo, Alexander Schallenberg, também comunicou sua renúncia.

Embora não fosse mais chanceler, Kurz ainda mantinha a liderança de seu partido. Schallenberg liderava o país desde outubro, mas havia a expectaiva de que Kurz retornasse ao cargo. Com o anúncio da saída definitiva, Schallenberg decidiu se retirar do cargo pois, segundo ele, o líder do partido é quem deve ser o chanceler.

O partido conservador austríaco confirmou na manhã desta sexta-feira, 3, o atual ministro do Interior, Karl Nehammer, de 49 anos, como seu novo escolhido para o cargo. "Fui designado hoje por unanimidade da direção do ÖVP como presidente do partido e, por ele, como candidato ao posto de chanceler", confirmou à imprensa austríaca. 

De prodígio a uma moção de censura

Kurz ganhou o apelido de garoto prodígio quando, aos 27 anos, se tornou ministro das Relações Exteriores da Áustria. Aos 31 anos, virou um dos mais jovens chefes de governo eleitos democraticamente.

Mas logo ele se tornou alvo de críticas por ter conquistado o cargo de chanceler ao entrar em uma coalizão com o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de extrema-direita. A aliança, porém, logo lhe trouxe problemas.

Em imagens gravadas secretamente em 2017, o então político de oposição de extrema-direita Heinz-Christian Strache prometeu contratos governamentais em troca de doações potencialmente ilegais para uma mulher que ele pensava ser sobrinha de um oligarca russo.

Strache, se tornou vice-chanceler depois da formação da coalizão. Nas imagens, Strache também pode ser ouvido zombando de Kurz.

O caso, conhecido como Ibiza Affair, culminou na dissolução da coalizão e o Parlamento demitiu Kurz, forçando novas eleições. Ele se tornou o primeiro líder a ser removido do cargo por moção de censura desde o pós-guerra.

Investigação por tráfico de influência

Ele foi reeleito em 2019 e um segundo escândalo apareceu em seu governo. Seu próprio partido foi acusado de pagar jornais para fazer uma cobertura favorável durante as eleições.

Em outubro, foram investigadas alegações de que Kurz e membros do partido usaram dinheiro público para pagar pesquisas de opinião feitas sob medida e que eram publicadas em um tabloide. Os anúncios foram avaliados em 1,3 milhão de euros (8,2 milhões de reais).

Kurz e outros nove indivíduos, bem como três organizações, estão sob investigação. Kurz nega qualquer irregularidade, assim como o jornal.

Diante de um possível voto de desconfiança do parlamento, Kurz decidiu renunciar em outubro, mas mantendo a liderança do partido e do bloco conservador.

Schallenberg, que era até então o ministro das Relações Exteriores, foi considerado um substituto na execução das políticas de Kurz até que ele pudesse retornar ao cargo.

Porém, no mês passado, parlamentares votaram por unanimidade para retirar a imunidade parlamentar do ex-líder, permitindo que uma investigação avance.

A sua retirada política desfaz as expectivas de que ele retornasse ao cargo de chanceler. Como justificativa, Kurz disse se sentir constantemente sendo caçado.

"Eu não sou santo nem um criminoso, sou uma pessoa com forças e fraquezas", disse Kurz.

Além disso, ele afirmou que gostaria de passar mais tempo com sua esposa e filho recém-nascido, alegando que “começa um novo capítulo em minha vida que posso abrir hoje”.

Kurz transformou a política austríaca e deu ao país de 9 milhões de habitantes uma influência às vezes descomunal na União Européia, um bloco de mais de 440 milhões - ganhando a reputação de atrasar projetos de reforma.

Com uma postura dura em relação à migração, aparência jovem e ternos elegantes, ele apelou aos eleitores de centro-direita e conservadores da Áustria.

Os conservadores dos países vizinhos admiraram a capacidade de Kurz de promover os valores conservadores da linha dura sob um verniz polido e experiente na mídia, embora ele não tenha cumprido muitas de suas promessas./WASHINGTON POST E NEW YORK TIMES

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