Dario Lopez/Mills/AP
Dario Lopez/Mills/AP

Como o governo Biden pode ajudar o país a se salvar de sua crise de realidade

Ecossistema confuso e caótico que produz mentiras ameaça ideal de unidade e exacerba maiores problemas nacionais

Kevin Roose, The New York Times

03 de fevereiro de 2021 | 04h00

No mês passado, milhões de americanos assistiram à cerimônia da posse de Joe Biden como presidente, e ao seu nobre discurso inaugural em que pedia uma nova era de unidade americana.

Mas inúmeros outros americanos não prestaram qualquer atenção ao discurso de Biden. Estavam ocupados demais assistindo a vídeos no YouTube que afirmavam que a posse era um engodo pré-gravado em um estúdio de Hollywood.

Ou estavam fundindo a cabeça em um grupo de chat do QAnon, tentando entender por que o ex-presidente Donald Trump não estava interrompendo o discurso de Biden para declarar a lei marcial e anunciar a prisão em massa daqueles pedófilos satânicos.

Ou talvez as suas TVs estivessem sintonizadas na OAN, onde um âncora lançava a teoria sem fundamento de que Biden “na realidade não foi eleito pelo povo”.

Trinta por cento dos republicanos têm uma visão favorável do QAnon, segundo uma recente pesquisa do YouGov. Segundo outros levantamentos, mais de 70% dos republicanos acreditam que Trump ganhou legitimamente a eleição, e 40% dos americanos - inclusive vários democratas - acreditam na teoria infundada de que a covid-19 foi produzida em um laboratório chinês.

O ecossistema confuso e caótico que produz estas crenças totalmente enganosas não ameaça apenas um ideal elevado de unidade nacional. Ele exacerba ativamente os nossos maiores problemas nacionais, e cria mais trabalho para os que tentam solucioná-los. E levanta uma importante questão para o governo Biden: como unir um país em que milhões de pessoas optaram por criar uma versão própria de realidade?

Avaliemos os danos e evitemos a armadilha “terrorista”

Os especialistas concordaram que antes que o governo Biden possa atacar a desinformação e o extremismo, terá de compreender a magnitude do problema.

“É realmente importante que tenhamos uma compreensão holística de como o espectro do extremismo violento se apresenta nos Estados Unidos, e depois alocar os recursos de acordo”, disse William Braniff, especialista em contraterrorismo e professor da Universidade de Maryland.

Joan Donovan, diretora de pesquisa do Shorenstein Center on Media Politics and Public Policy de Harvard, sugere que o governo Biden poderia criar uma “comissão da verdade”, semelhante à Comissão para o ‘11 de setembro’, para  investigar o planejamento e a execução do ataque ao Capitólio, no dia 6 de janeiro. Este esforço, ela afirmou, seria dirigido idealmente por pessoas com um profundo conhecimento das inúmeras “facções em rede” que coordenaram e realizaram a revolta, inclusive grupos supremacistas brancos e milícias de extrema direita.

“É preciso que eles sejam responsabilizadas por estas ações”, disse Donovan. “O meu temor é que nós, enquanto sociedade, sejamos distraídos e nos concentremos demais em dar uma voz aos grupos marginais que saíram em bloco a favor de Trump”.

Estes especialistas foram encorajados pelo fato de que o governo Biden já anunciou uma “avaliação abrangente da ameaça” do extremismo interno depois dos tumultos do Capitólio. Mas alertaram que colocar estes extremistas na categoria de “terroristas internos” - embora compreensível, considerando o dano que causaram - poderia ter efeitos negativos. Eles observaram que as iniciativas do contraterrorismo têm sido utilizadas historicamente para justificar a expansão do poder do Estado de maneiras que acabam prejudicando as minorias religiosas e étnicas, e que a crise do extremismo interno de hoje não se enquadrava claramente nos tipos mais antigos, mais convencionais, das ameaças do terror.

Ao contrário, elas sugerem a utilização de novos rótulos mais estreitos que poderiam ajudar a distinguir os diferentes tipos de movimentos, e diferentes níveis de influência no interior destes movimentos. Um aposentado paranoico que passa o dia lendo fóruns do QAnon não é igual a um líder da milícia armada, e nós deveríamos distinguir um do outro.

Encontremos um “czar da realidade”

Vários especialistas com os quais conversei recomendaram que o governo Biden crie uma força tarefa de várias agências para atacar a desinformação e o extremismo interno, que poderia ser chefiada por uma espécie de “czar da realidade”.

Isto soa um pouco anti-utópico, concordo. Mas vamos ouvi-los.

Neste momento, os especialistas afirmaram, a resposta do governo federal à desinformação e ao extremismo interno tem sido ocasional e difusa entre diversas agências, inclusive com muita superposição desnecessária.

Renée DiResta, pesquisadora na área da desinformação no Internet Observatory de Stanford, deu como exemplo dois problemas aparentemente não-relacionados: a desinformação a respeito da covid-19 e a desinformação a respeito da fraude na eleição.

Frequentemente, ela disse, as mesmas pessoas e grupos são responsáveis por espalhar ambos os tipos. Por isso, em lugar de dois processos paralelos - um nos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças, visando esconder teorias da conspiração relativas à covid-19, e outra na Comissão Federal Eleitoral, que tenta corrigir a desinformação na eleição - uma força tarefa centralizada poderia coordenar uma resposta estratégica única.

Auditemos os algoritmos

Vários especialistas recomendaram que o governo Biden pressione por uma transparência muito maior do funcionamento interno dos algoritmos da caixa preta que Twitter, Facebook, YouTube e outras  importantes plataformas usam para  classificar os feeds, recomendar conteúdo e introduzir os usuários em grupos privados, muitos dos quais foram responsáveis por amplificar as teorias da conspiração e visões extremistas.

“Devemos nos abrir na mídia social para que os defensores dos direitos civis e as verdadeiras organizações de vigilância possam investigar os abusos dos direitos humanos permitidos ou amplificados pela tecnologia”, disse Donovan.

Um projeto de lei apresentado no ano passado por dois democratas da Câmara, Anna Eshoo, da Califórnia, e Tom Malinowski, de Nova Jersey, poderia ajudar a conter parte dos danos. A Lei de Proteção dos Americanos de Algoritmos Perigosos emendaria a Seção 230 da Lei de Decência das Comunicações, retirando a imunidade legal das grandes plataformas de tecnologia por conteúdo violento ou que incita à violência que os seus sistemas de classificação de feeds e de recomendações amplificaram, preservando ao mesmo tempo a sua imunidade de outro conteúdo gerado pelos usuários.

Mas não deveríamos sequer precisar de legislação para conseguir que estas companhias se abrissem. No ano passado, sob a ameaça de uma quebra forçada, o TikTok se comprometeu a permitir que os especialistas examinassem o seu algoritmo para provar que não praticava manipulação criminosa em relação aos usuários americanos. Dadas as suas atuais questões antitrust, outras redes sociais poderiam responder a um aceno semelhante em direção da transparência.

Adotemos um “estímulo social”

Os especialistas com os quais conversei alertaram que as plataformas de tecnologia sozinhas não poderiam trazer de volta os milhões de americanos já radicalizados, nem ensinam a alfabetização midiática, uma bala de prata que poderia impedir que ideias perigosas se fixassem.

Afinal, muitas pessoas são atraídas  para grupos extremistas, como os Proud Boys e as teorias da conspiração como a QAnon, não porque sejam convencidas pelos fatos, mas porque tais crenças lhe oferecem um sentido de comunidade ou propósito ou preenchem um vazio em suas vidas.

“Evidentemente, há uma questão da segurança da sociedade, mas há também em grande parte uma questão de saúde pública”,  disse Micah Clark, diretor de programação da Moonshot CVE, uma empresa que atua contra o extremismo de Londres.

Uma contramedida eficaz, ele sugeriu, poderia ser uma espécie de “estímulo social” - uma série de programas federais para encorajar as pessoas a deixarem seus monitores e se dedicarem a atividades baseadas na comunidade a fim de se manterem engajadas e ocupadas.

Encorajar as reuniões off-line, evidentemente, será mais fácil depois da pandemia. Mas há intervenções que parecem funcionar também em escala menor - como uma série de anúncios sobre “esvaziamento” que a Moonshot CVE lançou no Twitter e no Facebook, visando extremistas potencialmente violentos de alto risco com mensagens empáticas sobre saúde mental e atenção.

A maioria dos especialistas concordou que a coisa mais eficaz que o governo Biden poderia fazer para sanar a nossa crise de realidade nacional, e possivelmente até desradicalizar alguns dos que foram atraídos para grupos extremistas e para teorias da conspiração, seria corrigir problemas íntimos que fundamentalmente os levaram para lá.

“Muitas barreiras para a reentrada são muito pragmáticas e aborrecidas”, disse Braniff da Universidade de Maryland. “Elas não  se destinam necessariamente a mudar as ideias das pessoas. Mas a dar-lhes o acesso a diferentes  circunstâncias que lhes permitam desobrigar-se”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.