Mohamed Abd El Ghany/Reuters
Mohamed Abd El Ghany/Reuters

Como o Hamas roubou a cena?

Quatro razões pelas quais o grupo radical que governa Gaza ganha espaço, enquanto o laico Fatah míngua

AARON DAVID MILLER, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h06

Por que o Hamas - que alimenta o terror, lança foguetes fornecidos pelos iranianos e é a fonte do tropo "morte aos judeus", está obtendo mais atenção, tração, legitimidade e apoio do que os "bons palestinos", como o sensato e paternal Mahmoud Abbas, que renunciou à violência em favor das negociações? Desde que essa crise começou, o presidente Barack Obama parece ter se dirigido a todos os demais líderes do Oriente Médio, exceto Abbas. Algumas razões:

Um Fatah incapaz. O partido de Abbas está desorganizado. A vitória dos islamistas nas eleições legislativas palestinas em 2006, seu controle de Gaza em 2007, a própria falta de rumo político do Fatah e a ausência de um processo de paz confiável criaram uma abertura para o Hamas - a manifestação religiosa do nacionalismo palestino. A morte de Arafat deixou um imenso vácuo de liderança numa cultura política onde personas, não instituições, têm papel predominante. Abbas tem legitimidade eleitoral, mas carece de autoridade, credibilidade e do brio da luta histórica. E num movimento nacional palestino sem direção e estratégia, não é preciso muito para criar uma alternativa a um Fatah esgotado, dividido, corrupto e ineficaz.

Os falcões assumem o controle. Não gostamos de admitir, mas a política do Oriente Médio é dominada não por pacifistas e sim por homens duros, que às vezes podem ser pragmáticos, mas certamente não respondem a desejos sentimentais ou idealistas. As negociações de paz, do lado israelense, nunca foram e provavelmente nunca serão geridas pela esquerda. Desde os premiês Menachem Begin a Yitzhak Rabin até Ariel Sharon e Binyamin Netanyahu, a história das negociações árabe-israelenses mostra figuras implacáveis cujos cálculos foram reformulados por interesse próprio e ofereceram alguma coisa tangível ao mesmo tempo que ficavam impunes politicamente em seu país. Abbas talvez seja o melhor parceiro palestino que Israel já teve. Mas se não pode oferecer nada, bem, então aí temos um problema.

Ironia das ironias, foi o Hamas que emergiu como o objeto da real atenção de Israel. Ocorre que os nacionalistas islamistas tinham o que Israel precisava e podiam oferecer. Quando Israel quis um cessar-fogo, com quem negociou? Com o Hamas, não Abbas. Quando Israel quis o soldado Gilad Shalit de volta, com quem negociou? Com o Hamas, não com Abbas.

A zona de conforto de Bibi Netanyahu é o que é. No momento, é o líder legítimo de Israel e pode ser o único político capaz de governar o país. Se vai conseguir levar Israel a uma paz verdadeira com os palestinos é outra história. É politicamente inconveniente admitir isso, mas diante da sua visão do mundo, profundamente influenciada pela suspeita e desconfiança de árabes e palestinos, Bibi sente-se mais tranquilo no mundo do Hamas do que no de Abbas.

Netanyahu não procurou uma guerra em razão dos foguetes do Hamas. Certamente gostaria de destruir o Hamas e negociar com Abbas, mas tendo por base as suas condições. Na verdade, uma negociação envolvendo fronteiras, refugiados e Jerusalém é muito desconfortável para Netanyahu porque ele será forçado a tomar decisões que vão contra sua índole, política e ideologia.

A primavera islâmica. Mesmo que suas populações se identifiquem com a causa palestina, os Estados árabes jamais confiaram no seu órgão institucional, a Organização de Libertação da Palestina (OLP). Com exceção do Egito, todos os Estados árabes com fronteira com Israel tiveram um conflito sangrento com a OLP.

A influência crescente dos islamistas na política árabe deu ao Hamas mais espaço. Dois dos amigos mais importantes de Israel no Oriente Médio - Turquia e Egito - hoje apoiam o Hamas ao passo que as suas relações com os israelenses esfriaram. E esses novos aliados não são Estados à margem como Irã e Síria. São amigos dos EUA e estão bem no centro da comunidade internacional.

Seria interessante imaginar que de alguma maneira Fatah e o Hamas se uniriam, com Abbas no comando - produzindo um movimento nacional que tivesse uma única arma e uma única posição negociadora, em vez de um governo disfuncional que se assemelha à Arca de Noé. E seria uma ideia maravilhosa se os islamistas centristas pressionassem o Hamas neste sentido. Mas esse não é um universo paralelo de verdade, irmandade e luz que oferece finais felizes no estilo de Hollywood. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É MEMBRO DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS

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