Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Como o presidente do Irã deixou Trump pendurado no telefone e Macron esperando no saguão 

Rohani e seus assessores foram surpreendidos pela oferta de uma conversa com o americano, apresentada a eles pelo presidente da França

Farnaz Fassihi and Rick Gladstone / The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 22h52

NOVA YORK - A linha telefônica havia sido secretamente configurada. O presidente Donald Trump esperou do outro lado. Tudo o que o presidente do Irã, Hassan Rohani, precisava fazer era sair de sua suíte de hotel e entrar em uma sala segura onde a voz de Trump seria ouvida por meio de alto-falante.

Rohani e seus assessores foram surpreendidos pela oferta, apresentada a eles pelo presidente Emmanuel Macron, da França, em uma visita sem aviso prévio na noite de terça-feira passada a seus aposentos no Millenium Hilton Hotel, perto das Nações Unidas, onde líderes mundiais haviam se reunido para a Assembleia-Geral. 

Foi uma missão retirada de um thriller de Hollywood. Macron tem procurado por meses intermediar um degelo no impasse entre os Estados Unidos e o Irã, que ameaçou se transformar em uma nova guerra no Oriente Médio.

Acompanhado por uma pequena equipe de consultores, Macron aguardava uma resposta fora da suíte do líder iraniano, segundo três pessoas com conhecimento da jogada diplomática, que foi noticiada pela segunda-feira pelo The New Yorker. As mensagens foram passadas entre eles pelos assessores de Rohani.

No final, Rouhani se recusou a sair do quarto. Macron saiu de mãos vazias e Trump ficou pendurado na linha.

Resposta estratégica

Sem garantia de que Trump terminaria com as onerosas sanções que impôs ao Irã, Rohani temia estar preso em um encontro que Trump poderia explorar como um sucesso nas manchetes, disseram as pessoas com conhecimento do episódio.

Também ficou claro que Rohani poderia sofrer uma reação política em casa, onde os linha-dura já estavam furiosos com a mera possibilidade de Rohani considerar um diálogo com Trump.

Para os iranianos, no entanto, o incidente destacou o que eles veem como a ânsia de Trump, à beira do desespero, de recriar um momento teatral como ele alcançou com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, em sua cúpula em Cingapura em junho de 2018. Seria uma validação de que a estratégia deles de aumentar as tensões em resposta à campanha de "pressão máxima" de Trump estava dando frutos.

"Para Rohani, conversar com Trump é uma obrigação", disse Ali Vaez, diretor do programa do Irã no International Crisis Group, uma organização de pesquisa em resolução de conflitos. Rohani não correria esse risco, disse Vaez, a menos que "ele soubesse que uma recompensa sairia disso".

O desejo de Trump de uma reunião ou pelo menos um telefonema com Rohani durante a Assembléia-Geral refletia o que alguns analistas chamaram de frustrações mais amplas do líder americano por problemas internacionais que continuam se acumulando.

Essas frustrações só foram agravadas pelo inquérito de impeachment do Congresso sobre o telefonema de Trump com o presidente da Ucrânia em julho, no qual ele pressionou por uma investigação sobre o ex-vice-presidente Joe Biden, um dos principais candidatos democratas na eleição presidencial de 2020.

"Trump realmente quer uma vitória na política externa e não consegue encontrar uma", disse Cliff Kupchan, presidente do Eurasia Group, uma empresa de consultoria de risco político em Washington. "Ele acha que as negociações com o Irã agora podem ser sua melhor chance."

Kupchan disse que Trump "estava especialmente desesperado na ONU". "Ele queria mudar o ciclo de notícias da Ucrânia e Biden para uma reunião dramática com Rouhani.”

As pessoas que relataram a infeliz visita de Macron ao hotel de Rohani se recusaram a ser identificadas por nome ou nacionalidade porque não estavam autorizadas a discuti-la. A Casa Branca não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários. Autoridades dos ministérios das Relações Exteriores da França e do Irã se recusaram a comentar.

A visita de Macron seguiu o discurso de Trump naquele dia na Assembléia-Geral, em que ele repetiu suas denúncias-padrão do Irã, mas sinalizou a possibilidade de uma reconciliação, lembrando ao mundo que alguns dos atuais amigos dos Estados Unidos são ex-inimigos.

Mas na quarta-feira, quando foi a vez de Rohani de se dirigir à Assembléia-Geral, ele quase descartou a possibilidade de uma reunião com Trump enquanto castigava os Estados Unidos por desistir do acordo nuclear de 2015. Para o Irã, disse Roahani, as oportunidades de se fazer uma boa foto devem surgir depois, e não antes, do progresso alcançado. Ele não deu a entender que Trump tentou, sem sucesso, conversar com ele por telefone na noite anterior.

Richard Nephew, ex-vice-coordenador principal de políticas de sanções do Departamento de Estado e agora pesquisador da Escola de Relações Públicas da Universidade de Columbia, disse que os iranianos têm duas razões para guardar esse episódio para si mesmos.

"Eles não vêem nenhuma vantagem internacional ao criar uma situação embaraçosa para Macron ao mostrar a rejeição", disse Nephew. "Eles podem querer esse canal no futuro, então por que miná-lo?"

A segunda razão, disse ele, é que "Rohani pode estar preocupado com o modo como seus oponentes em Teerã usariam isso, independentemente de ele ter dito 'não'."

Para os membros da hierarquia do Irã, que em grande parte se definiu pela hostilidade ao governo dos Estados Unidos desde a Revolução Islâmica de 1979, qualquer indício de um alívio nas relações alienadas vem com um risco político extraordinário.

Na Assembléia-Geral das Nações Unidas, em particular - o único lugar onde autoridades iranianas e americanas poderiam se encontrar - os líderes do Irã se esforçaram para evitar encontros.

Raros contatos

Em 2000, o presidente Bill Clinton e o presidente do Irã na época, Mohammad Khatami, tiveram um encontro próximo na Assembléia-Geral. Os assessores de ambos os lados haviam orquestrado um aperto de mão no corredor que deveria parecer de improviso, mas Khatami mudou de ideia no último minuto e se escondeu no banheiro até que Clinton e seu partido deixaram o corredor, disseram diplomatas que sabiam sobre o incidente.

Em 2013, no meio das negociações do acordo nuclear com o Irã, as autoridades americanas e iranianas discutiram a possibilidade de o presidente Barack Obama e Ruhani darem um aperto de mão na Assembléia-Geral.

Por fim, os dois só compartilharam um telefonema - mas mesmo isso foi como um raio diplomático, a primeira vez que os líderes dos dois países falaram desde a crise dos reféns em Teerã, mais de três décadas antes. No Irã, os linha-dura repreenderam Rohani por ter falado com Obama.

Mais tarde naquele ano, Rohani não compareceu ao funeral do líder sul-africano Nelson Mandela, em parte por medo de ficar encurralado ao ver Obama. O jornal iraniano Kayhan, porta-voz do governo de Teerã, alertou que o funeral seria uma armadilha, levando ao contato pessoal "com o chefe do governo do Grande Satanás".

O ministro das Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, do Irã, acidentalmente esbarrou em Obama à margem da Assembléia-Geral em 2015 e os dois se cumprimentaram. Mas quando as notícias do aperto de mão vazaram, Zarif buscou garantias na Casa Branca de que uma fotografia do aperto de mão, tirada por um dos funcionários de Obama, não seria divulgada.

A desventura de Macron no Millennium Hilton não foi a primeira vez que ele se envolveu em constrangimentos envolvendo o esforço de Trump de conversar com os iranianos.

De acordo com a Aftab, uma agência de notícias iraniana semi-oficial, Trump fez uma tentativa espontânea de encontrar-se com Zarif em agosto na cúpula do Grupo dos 7 na França, organizada por Macron, que havia convidado Zarif para discutir uma possível reunião com os americanos.

A condição do Irã para aceitar o convite era de que não haveria encontros casuais com a delegação americana, disse a conta da Aftab.

Quando Macron disse a Trump que iria se encontrar com Zarif, disse Aftab, Trump surpreendentemente insistiu em se juntar a Macron, mas o presidente francês disse que prometeu aos iranianos que não haveria contatos desse tipo. Durante sua reunião com Zarif, disse Aftab, Macron brincou dizendo que poderia ligar para Trump para se juntar a eles. Zarif recusou.

Os esforços persistentes dos líderes europeus para intermediar uma reunião entre Trump e Rohani geraram piadas entre os iranianos. Eles dizem que o esforço para levar os dois líderes a uma reunião os lembra de um casamento onde primos que estão trancados em uma disputa familiar se encontram, e os mais velhos os pressionam para beijar e fazer as pazes sem resolver seus problemas. / NYT

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