Marcos Martinez Chacon/AP
Marcos Martinez Chacon/AP

Como o racismo e pandemia fizeram haitianos tentar trocar o Chile pelos EUA

Muitos dos migrantes haitianos que entraram recentemente no Texas haviam passado anos refugiados no Chile. Alguns disseram que enfrentaram desemprego, pobreza e hostilidade no país

Pascale Bonnefoy, The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 05h00

SANTIAGO - Phalone conseguira sobreviver desde que se mudara do Haiti para o Chile, em 2013, e trabalhava como cabeleireira em uma pequena cidade ao norte de Santiago.

Mas, em maio, ela, seus dois filhos e vinte parentes e amigos embarcaram em uma perigosa jornada de 7.500 quilômetros rumo norte, até os Estados Unidos, arriscando a vida e esperando pelo melhor.

“As coisas ficaram muito difíceis para os imigrantes no Chile”, disse Phalone, que não quis que seu sobrenome fosse publicado por temer que isto colocasse em risco suas perspectivas de imigração nos Estados Unidos. “As pessoas nos dizem para voltar para casa, dizem que somos a escória”.

Dos milhares de haitianos que apareceram recentemente na fronteira sul dos Estados Unidos, muitos, assim como Phalone, vieram do Chile. Na última década, enquanto os haitianos buscavam refúgio do devastador terremoto de 2010, o Chile – com sua política de acolhimento generosa e sua economia estável – tornou-se um destino ainda mais atraente para eles.

No Chile, os migrantes se viram diante de novas restrições, enquanto nos Estados Unidos, o governo Biden ofereceu novas proteções para os migrantes haitianos que já estavam no país. Haitianos no Chile, confundindo essa iniciativa com um tapete de boas-vindas, partiram na árdua jornada ao norte até a fronteira americana, apenas para se verem devolvidos à força ao Haiti, às vezes acorrentados.

O 'pesadelo' do Chile ao Texas

“Venderam para nós o ‘sonho chileno’, mas era tudo mentira”, disse Steeve Azor, 28 anos, que migrou do Haiti para o Chile em 2014. “Todos pensaram que o presidente Biden seria mais flexível na migração”.

Para aqueles que conseguiram chegar à comunidade fronteiriça de Del Rio, Texas, depois de meses na estrada, ficou imediatamente claro que era um engano. Havia poucas boas-vindas para eles nos Estados Unidos, apenas cenas de miséria e desespero.

Alguns foram repelidos à força por agentes montados da Patrulha da Fronteira dos Estados Unidos, enquanto tentavam cruzar o Rio Grande. Milhares de outros se amontoaram sob uma ponte e muitos foram levados de volta para onde tudo começara: o Haiti, país dilacerado, onde as crises se acumulam.

Mesmo assim, muitos haitianos continuam vindo do Chile, sem saber o que os espera na fronteira com os Estados Unidos ou dispostos a correr o risco. Em parte, isso ocorre porque a vida no Chile está cada vez mais difícil para os migrantes.

Uma vida difícil

Em dezembro, havia mais de 182 mil haitianos vivendo no Chile, de acordo com dados do governo. Esse número não inclui migrantes sem documentos, que são invisíveis para o governo e, portanto, vulneráveis a “abusos quando se trata de trabalho e moradia”, disse Álvaro Bellolio, diretor do Serviço Nacional de Migração do Chile.

Trabalho e moradia, sempre difíceis de conseguir, ficaram ainda mais escassos durante a pandemia. Muitos haitianos ficaram desamparados. Alguns alugam quartos em casas superlotadas e degradadas. Outros ocupam prédios abandonados. Muitos trabalham como vendedores ambulantes.

“Eu pesquisei o Chile e sua economia antes de vir”, disse Azor, o migrante haitiano, “mas nunca imaginei que estaríamos morando num quarto caro e compartilhando um banheiro com outras vinte pessoas”.

Ivenet Dorsainvil, 34 anos, professor e porta-voz de grupos haitianos no Chile, mudou-se para Santiago em 2010, depois de obter um visto de estudante e uma vaga em um programa de pós-graduação. Quando ele se mudou, o Chile estava se recuperando da crise financeira global e havia muitos empregos para os imigrantes.

Mas, com o passar dos anos, tudo mudou. Os migrantes passaram a ser acusados de tirar empregos dos chilenos e prejudicar os serviços sociais.

O país absorveu centenas de milhares de venezuelanos que fugiam das terríveis condições de seu próprio país. E, à medida que o número de migrantes haitianos crescia, atingindo o pico em 2017 e 2018, muitos na nação predominantemente branca começaram a tratá-los com desdém especial, disse Dorsainvil.

Alguns haitianos, disse ele, não acreditam nos riscos de tentar entrar nos Estados Unidos. “As pessoas estão vendendo as poucas coisas que têm e partindo com os filhos”, disse Dorsainvil. “Dizem que preferem morrer a continuar sendo humilhadas aqui”.

Uma inclusão fracassada

Waleska Ureta, diretora do Serviço Jesuíta para Migrantes, disse que o Chile poderia ter feito mais para estabelecer os haitianos.

“Foi uma experiência de inclusão fracassada”, disse Ureta. “No Chile, os haitianos enfrentam discriminação cultural e social, até mesmo no nível governamental, e racismo nos locais de trabalho e nas ruas”.

Phalone, a cabeleireira, disse que, quando seu grupo, viajando de ônibus, chegou à Região de Darién – um trecho montanhoso de 160 quilômetros de pântanos e florestas ao longo da fronteira da Colômbia com o Panamá – já havia cerca de cem pessoas, entre eles muitos haitianos que tinham morado no Brasil.

Naquela situação perigosa, eles largaram suas malas e enfiaram pertences essenciais e alimentos nas mochilas. Contrabandistas colombianos cobraram em dólar para guiá-los a pé até a fronteira com o Panamá, uma travessia de uma semana ao longo de trilhas estreitas.

“Muitas pessoas morreram em acidentes nessa rota, que fica muito escorregadia quando chove”, disse Phalone. “Foi uma experiência muito difícil e perigosa.” No Panamá, ela ouviu relatos de imigrantes sofrendo roubos e estupros.

Phalone deixou o Chile em maio. No início de agosto, ela e seu grupo haviam cruzado a fronteira do Texas e entrado nos Estados Unidos, onde moram agora, na esperança de obter asilo no país.

Piñera endureceu regras

Os haitianos dizem que o processo de obtenção de residência legal no Chile se tornou muito mais difícil com o presidente Sebastián Piñera, que assumiu o cargo em março de 2018. Entre janeiro e julho deste ano, 7% das autorizações de residência permanente emitidas pelo governo foram para haitianos, uma queda em relação aos 20% no ano passado.

O governo diz que as autorizações de residência são emitidas por ordem de chegada. Com o grande êxodo de venezuelanos que fogem do colapso econômico de seu país, a maioria das licenças está indo para eles.

Os haitianos, no entanto, veem o declínio como um claro sinal de que não são bem-vindos, disse Azor. Seu irmão Gregorio, de 26 anos, tentou durante seis anos encontrar no Chile o tipo de emprego estável que pudesse levar à residência legal. Em junho, ele desistiu e partiu para os Estados Unidos.

“É uma forma de nos pressionar a sair”, disse Azor. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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