Alexander Zemlianichenko/Reuters
Alexander Zemlianichenko/Reuters

Como o Taleban usa estratégias sofisticadas para atuar nas redes sociais

A milícia radical islâmica de hoje aplica estratégias sofisticadas nas redes sociais, que raramente violam as regras das plataformas

Craig Timberg, Cristiano Lima / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 05h00

Para um grupo regido por códigos morais ancestrais, o Taleban afegão tem surpreendido ao usar estratégias sofisticadas em redes sociais para constituir força política e, agora que assumiu o poder, propagar a narrativa de que é capaz de liderar um Estado moderno, após quase 20 anos de guerra.

Em contas que se proliferam no Facebook, no Twitter e no Instagram - e em conversas coletivas em aplicativos como WhatsApp e Telegram - as mensagens dos apoiadores do Taleban normalmente contrariam a imagem predominante no Ocidente de que o grupo é intolerante, violento e dedicado à vingança, enquanto se mantêm dentro das fronteiras em transformação que definem o bom gosto e o conteúdo aceitável que as empresas de tecnologia aplicam para policiar o comportamento dos usuários.

Essa estratégia evidencia, de maneira geral, tamanha sofisticação, que analistas acreditam que há pelo menos uma firma de relações publicas aconselhando o Taleban a respeito de temas-chave, amplificação do alcance de mensagens em plataformas e criação de imagens e trechos de vídeo com potencial de viralizar - quase à mesma maneira de campanhas corporativas e políticas ao redor do mundo.

Uma imagem de um vídeo que circulou online no Afeganistão mostra combatentes taleban vestidos com trajes camuflados e ostentando metralhadoras, pairando impávidos em uma província do leste afegão, não muito longe de Cabul, sob um deslumbrante céu, rajado de rosa e azul. O texto abaixo dizia em língua pashtu e inglês, “EM CLIMA DE LIBERDADE”.

A disseminação ampla dessas imagens de propaganda seria quase impossível para um movimento insurgente no Afeganistão uma geração atrás, antes da chegada ao país do alcance online ocasionado por smartphones, conexões de internet e serviços gratuitos de redes sociais. Falta ao Afeganistão a mesma conectividade à internet que existe em outras partes do mundo, mas essa conexão cresceu acentuadamente na última década, em meio ao jorro de investimento estrangeiro.

Mas a audiência de grande parte - talvez a maioria - do que os apoiadores do Taleban postam em redes sociais é nitidamente internacional. Isso inclui afegãos que vivem em outros países, potenciais apoiadores no exterior e até as profundamente céticas potências ocidentais que gastaram trilhões de dólares na tentativa de criar uma democracia duradoura, em estilo ocidental, no Afeganistão, desde que a invasão liderada pelos Estados Unidos destituiu o Taleban do poder em 2001. O site oficial do Taleban tem versões em língua pashtu, dari, árabe, urdu e inglesa. Somente as duas primeiras são faladas comumente na maior parte do Afeganistão.

Os meses recentes testemunharam um aumento em mensagens online que mostram uma face mais gentil e tranquila do Taleban, cuja brutalidade durante o reinado anterior sobre o país foi notória, com execuções em massa, códigos morais repressivos e exclusão de mulheres das escolas e do mercado de trabalho.

“O Emirado Islâmico já ordenou seus mujahidin e outra vez os instrui: ninguém está autorizado a entrar sem permissão em casas que não sejam as suas”, tuitou no domingo o porta-voz taleban Suhail Shaheen. “A vida, a propriedade e a honra de todos deverão ser preservadas e protegidas pelos mujahidin.”

Shaheen tem mais de 350 mil seguidores no Twitter.

“O Taleban de hoje é imensamente sagaz em relação a tecnologia e redes sociais - bem diferente do que era há 20 anos”, afirmou Rita Katz, diretora executiva do SITE Intelligence Group, que monitora atividades de extremistas online.

Analistas alertam que alegações de um Taleban mais evoluído e tolerante não devem ser aceitas sem comprovação em um momento em que o movimento que já deu abrigo a Osama bin Laden e à Al-Qaeda se reapresenta a um mundo cético. O Taleban abraça uma noção profundamente tradicional do Islã, que faz muitos afegãos com visões de mundo mais modernas fugirem aterrorizados, de qualquer maneira possível.

Ao mesmo tempo, a habilidade do Taleban e seus apoiadores em operar consistentemente dentro das regras de empresas como Facebook, Twitter e YouTube deixou o Vale do Silício vulnerável a contracorrentes políticas cada vez mais intensas: conservadores americanos têm exigido explicações a respeito das razões por que o ex-presidente Donald Trump foi banido do Twitter enquanto vários interlocutores do Taleban não foram.

A resposta, afirmaram analistas, pode ser simplesmente que os posts de Trump desafiaram por anos as regras da plataforma contra discursos de ódio e incitação à violência - o que o Taleban de hoje, de maneira geral, não faz. “O Taleban está claramente cuidadoso em relação às políticas de conteúdo nas redes sociais e ainda não cruzou os diferentes limites relativos a violação de políticas que Trump cruzou”, afirmou Katz.

Katz alertou, porém, que “isso não significa de maneira nenhuma que o Taleban não deveria ser removido das redes sociais, porque as ondas de propaganda e narrativas que estão se espalhando - ainda que pareçam admissíveis segundo alguns padrões de políticas de conteúdo - estão beneficiando um movimento islamista militante global, de entusiasmo renovado e extremamente perigoso".

O desafio para empresas de tecnologia americanas é complicado pela mudança geopolítica, enquanto o Taleban assume o poder em meio a designações divergentes até do próprio governo americano. Enquanto o Departamento de Estado qualifica o Taleban paquistanês como uma organização terrorista estrangeira, o organismo não rotula da mesma maneira o Taleban afegão. O Taleban afegão, porém, está na lista de entidades sancionadas segundo as determinações do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA.

Citando essas determinações, o Facebook designou o Taleban como uma “organização perigosa”, o que concede à rede social um mecanismo com base em suas próprias políticas para ser acionado sempre que a empresa optar por remover alguma conta - sem importar o que digam posts específicos. A empresa até encerrou uma popular central de atendimento criada pelo Taleban no WhatsApp, cujo proprietário é o Facebook, para pessoas denunciarem incidentes de violência, saques e outros assaltos.

Daniel Knowles, correspondente internacional da revista Economist, tuitou que esses grupos de WhatsApp eram comuns mesmo antes do Taleban tomar o poder. “Fiquei até meio constrangido por não ter escrito antes a respeito dessas centrais de atendimento”, afirmou ele, após o Financial Times revelar em primeira mão que a central tinha sido removida. “Mas quando ouvi falar disso, não se tratava de centrais de atendimento. Era mais como se um taleban local pudesse ser acessado pelo WhatsApp; e se você ligasse, ele poderia resolver disputas. Só que agora eles são governo.”

Uma fonte familiarizada com as deliberações do Facebook, que conversou com a reportagem sob condição de anonimato, para poder falar livremente, afirmou que o Facebook reconhece que as sanções americanas contra o Taleban remontam à época do governo do ex-presidente George W. Bush e buscou orientações do OFAC. No passado, o OFAC criou diretrizes para tratar de casos específicos relativos a entidades sancionadas.

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O YouTube também afirmou estar em acordo com as sanções dos EUA, declarando que continuará a remover contas “que acreditarmos serem mantidas e operadas pelo Taleban afegão”.

O Twitter, porém, entre outras empresas, é mais permissivo em relação ao Taleban afegão e não remove contas que pretendam representar o grupo. E autoridades americanas têm tido o cuidado de ressaltar publicamente que Washington não tomou nenhuma decisão em relação a reconhecer - ou não - o governo taleban.

“Ainda estamos tomando pé dos acontecimentos das últimas 72 horas e suas implicações diplomáticas e políticas”, afirmou à imprensa, na segunda-feira, o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price.

Da mesma maneira que outros movimentos islamistas, como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, o Taleban se deu conta há muito tempo da oportunidade de usar as tecnologias de comunicação ocidentais contra o próprio Ocidente - enquanto demonstrou uma agilidade que por vezes frustrou pessoas encarregadas de apagar ou interromper a disseminação de suas mensagens.

Mesmo nos primeiros anos após as forças americanas expulsarem o Taleban de Cabul, a capital do Afeganistão, o grupo fazia propaganda por meio de posts de blog, afirmou Emerson Brooking, pesquisador sênior residente do Digital Forensic Research Lab, do Atlantic Council, uma organização de pesquisa com base em Washington.

Em 2011, afirmou Brooking, o Taleban já estava no Twitter e em 2014, no Telegram. Em 2016, o Taleban usou a praça de uma cidade rural por poucos minutos para gravar um vídeo de propaganda que depois circulou amplamente pelas redes sociais. Em 2019, o Taleban tinha aprendido a assumir o controle de hashtags - que significa incutir uma hashtag popular em suas próprias mensagens, uma ação parecida com spam, que pode motivar repreensões das empresas de tecnologia.

Assim como outros operadores de campanhas sofisticadas em redes sociais, o Taleban e seus apoiadores possuem grandes quantidades de contas em várias plataformas, para evitar que seu fluxo de propaganda seja suprimido pelas ações de uma ou duas empresas de tecnologia.

“Com base no volume absoluto de produção, várias das contas são administradas por indivíduos cuja função principal pode bem ser trabalhar as redes sociais”, afirmou Darren Linvill, pesquisador chefe do Media Forensics Hub, da Universidade Clemson. “Essas contas não são administradas por líderes ou combatentes do Taleban, mas por indivíduos que possuem acesso ininterrupto à internet, tanto por computador quanto por smartphone, e conhecimento considerável de inglês.”

Quando ficou claro, nos meses recentes, que os americanos finalmente sairiam do Afeganistão, as táticas do Taleban se sofisticaram, com mensagens que anunciavam cada avanço no campo de batalha e prometiam um país com futuro melhor.

Uma mensagem publicada no website em inglês do Taleban, em abril, criticava o feminismo, qualificando-o como “uma ferramenta colonial”, e alegava que o feminismo “ataca a instituição da família, em uma sociedade muçulmana que é centrada na família”. Uma outra mensagem, no mês seguinte, ressaltava a importância da liberdade de imprensa, qualificando-a como “essencial para as sociedades de todos os países”.

As estratégias em redes sociais do Taleban nos meses recentes podem ser vistas como projetadas para ampliar sua ofensiva de charme - que inclui declarações conciliatórias feitas recentemente a respeito de perdoar os afegãos que trabalharam para os americanos e pedindo que profissionais qualificados não fujam do país. Em uma entrevista coletiva, na terça-feira, o porta-voz Shaheen fez questão de convocar uma jornalista mulher e repórteres estrangeiros. Mas analistas continuam apreensivos em relação ao uso que o Taleban faz das redes sociais para se reinventar. “Depois virá a censura.”/TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

*Elizabeth Dwoskin e John Hudson colaboraram com essa reportagem 

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