Como o Texas ensina História

Diretrizes escolares impostas por escolhas políticas levam a extremos como livros que elogiam aspectos da escravidão

Ellen Bresler, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2015 | 02h03

Um aluno de escola secundária no Estado americano do Texas e sua mãe recentemente chamaram a atenção para uma curiosa frase num livro de Geografia: descrevia o comércio de escravos no Atlântico como a vinda de "milhões de trabalhadores" para as plantações no sul dos Estados Unidos. A editora prometeu rever o livro para que sua versão digital e as próximas edições descrevam de modo mais exato a migração forçada e a escravidão dos africanos.

Mas será preciso mais do que isso para corrigir a maneira como a escravidão é referida nos livros escolares texanos. Em 2010, a Direção Geral das Escolas Públicas no Texas aprovou um currículo que promove o capitalismo e a filosofia política republicana. As diretrizes constantes do currículo provocaram muita inquietação, incluindo uma que estabelece que os novos livros não devem dar tanta importância à escravidão como causa da Guerra Civil.

Neste trimestre, cinco milhões de alunos de escolas públicas no Texas começaram a ler os livros que seguem as novas diretrizes. E alguns deles distorcem a história não por meio de palavras escolhidas, mas usando um instrumento que com frequências consideramos apolítico: a gramática.

Em setembro, Bobby Finger, do site Jezebel, obteve e publicou alguns trechos dos novos livros, mostrando muita coisa inaceitável quanto ao seu conteúdo. Os livros minimizam o horror da escravidão e até chegam a sugerir que ela teve um aspecto positivo, assumindo a forma de uma cultura afro-americana distintiva.

Mas não é somente o conteúdo das passagens nos livros que é o problema. É também a forma. As decisões dos escritores sobre como construir as sentenças, sobre quem o sujeito da sentença será, quanto a se o verbo deve estar na forma passiva ou ativa, moldam a mensagem de que a escravidão não foi assim tão ruim.

Dei aula para alunos do primeiro ano de faculdade no Dartmouth College. Meus colegas e eu tentamos transmitir a importância da escrita clara. Entre os princípios da escrita clara, estão esses: quando possível, utilize sujeitos humanos e não nomes abstratos; utilize verbos na forma ativa, não passiva. Não queremos que alunos escrevam "tortura foi usada", porque deixa oculto quem estava torturando quem.

Nos excertos publicados pelo Jezebel, os livros do Texas empregam os princípios da escrita boa, vigorosa e clara quando se referem ao "aspecto positivo" da escravidão. Mas, quando abordam a sua brutalidade, os autores usam artimanhas para ofuscar a verdade. Podemos observar isso na seguinte passagem de um livro, publicado pela Houghton Mifflin Harcourt, chamada História dos Estados Unidos do Texas.

. Entretanto, o tratamento severo era muito comum. Açoites, escravos marcados a ferro e mesmo torturas ainda piores faziam parte da escravatura."

Observe como o sujeito principal de cada oração é uma pessoa: escravos, senhores ou proprietários. O que essas pessoas, especialmente os proprietários, estão fazendo, é claro: estão tratando seus escravos gentilmente e fornecendo alimento e trajes adequados. Depois, há uma mudança, não apenas da perspectiva dos autores sobre a escravidão, mas também na construção da suas sentenças. Não existem pessoas nas duas últimas sentenças. Sim, existe um tratamento severo, açoites, marcas de ferro, tortura. São todas coisas ruins. Mas onde estão os proprietários de escravos que estão açoitando, marcando e torturando?

Os editores dos livros foram colocados numa posição difícil. Eles tinham de ensinar História sem contestar as posições políticas que estão em desacordo com a História. Ao agir desse modo, fizeram muitas escolhas gramáticas. Embora nem sempre se admita, escolhas gramaticais podem ser morais e esses editores fizeram as escolhas erradas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ELLEN BRESLER É PROFESSORA NO INSTITUTE FOR , WRITING AND RHETORIC EM DARTMOUTH

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