Como os bósnios estão curando as feridas da guerra

Duas décadas depois, personagens do conflito sangrento refazem a vida em Sarajevo

É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES , É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h03

Está tudo calmo na capital bósnia. Andar de carro é fácil e não mais uma jornada interminável de desfecho imprevisível. As lojas fazem bons negócios vendendo suvenires de mapas da Sarajevo sitiada. Grupos de japoneses se aglomeram em ônibus de turismo. Nos 16 anos desde que terminei meu livro sobre os desdobramentos sangrentos na Iugoslávia, não pude voltar à Bósnia, não pude enfrentar outra lição de história balcânica ou da ignorância de pessoas bem intencionadas.

É bom estar de volta. É bom ouvir queixas sobre governança abjeta, corrupção, a arquitetura inoperante de Dayton, a mesquinharia do sectarismo. É bom ouvir tudo isso sem o estouro seco do impacto de mais um obus nas ruas desertas onde vidas e membros são ceifados. Eu me encontro, por acaso, com Tarik Sabanovic, irmão mais novo de Faruk, sobre quem escrevi depois que ele foi baleado na frente do Holiday Inn, em 1995. Tarik lembra do que ocorreu em 9 de novembro de 1993, quando tinha 9 anos.

"Estava na escola como minha mochila do Mickey, esperando a campainha tocar para ir para casa, quando ouvi o obus cortando o ar. Já estávamos havia 18 meses em guerra, por isso, sabia o que fazer e me atirei no chão. Quando me levantei, havia um colega de classe diante de mim. Vi que ele não tinha o olho direito. Olhei para a minha direita e vi Sahir Kapo com uma ferida aberta no braço. Olhei para a minha esquerda, onde estava meu melhor amigo, Vedad Kijkanovic, que morava no meu prédio. Não consegui vê-lo. Ele havia sido explodido em pedaços. Depois, olhei para onde estava minha professora, Fatima Gunic. Sua cabeça estava sobre a mesa. O quadro negro tinha buracos de estilhaços. Seu cabelo saía dos buracos."

Tarik correu. Perto de casa, encontrou Faruk, que o carregou para o apartamento da família. Mais tarde, Tarik viu a mãe de Vedad em lágrimas. Ela não conseguira encontrar um ponto no cadáver do filho para dar um beijo de despedida. Tudo que aquele obus sérvio deixara foram seus dentes.

Mais tarde, nos encontramos com Faruk. Foi uma reunião emotiva. Ele ainda está em sua cadeira de rodas. A barba, agora, com traços grisalhos. Ele tinha 20 anos quando o conheci no hospital, em Sarajevo, em 1995, assistindo ao vídeo em que ele era baleado enquanto um soldado da ONU observava sem fazer nada: a paralisia do Ocidente incentivou o genocídio contra muçulmanos bósnios e produziu Srebrenica.

Médicos em Nova York se interessaram por Faruk depois do artigo. Ele foi levado para lá de avião. "Após a luz das velas e a escuridão de Sarajevo, era como voar num céu de luzes em Manhattan. Foi um banho de luz. Eu estava no Maimonides Medical Center, no Brooklyn, com uma janela com vista de Manhattan, como um cartão postal com as Torres Gêmeas. Aí, os médicos me trouxeram a notícia de que eu jamais poderia andar e a cidade inteira escureceu."

Ele retornou. Estudou. Apaixonou-se e se casou. Divorciou-se. Começou a fazer vídeos e comerciais, mas queria fazer um filme que contasse sua história. No ano passado, Faruk treinou com afinco e, após seis meses, conseguiu ficar de pé durante 30 segundos, a primeira vez em 17 anos. "Eu luto contra a desesperança o tempo todo. É sempre um momento difícil quando alimento esperanças, porque ouvi sobre algum novo chip, por isso tento ignorá-lo", disse.

O filme que ele está dirigindo chama-se Pássaros Como Nós, com base no trabalho do poeta sufi do século 13, Farid al-Din Attar. Faruk escreveu o roteiro. Tarik está envolvido. É um longa metragem de animação em 3D usando tecnologia de ponta. Os pássaros viajam até muito longe, mas, no fim, descobrem que o segredo da vida está neles mesmos.

É difícil encontrar pessoal qualificado em Sarajevo para trabalhar. Dois que tinham competência tecnológica eram sérvios de Pale, quartel-general das forças nacionalistas que bombardearam Sarajevo durante a guerra. Talvez um deles tenha disparado o obus que destroçou a sala de aula de Tarik. Talvez o outro tenha sido o franco-atirador que aleijou Faruk.

Faruk os contratou em 2010. Eles conversaram bastante sobre a guerra. Mais tarde, um dos sérvios morreu num acidente de carro. No funeral, perto de Pale, falou-se de como ele havia cometido o erro de trabalhar para muçulmanos. Você segue em frente e acredita, mesmo que leve 17 anos para ficar 30 segundos de pé. Cada ato de cura conta. "Contratar rapazes do outro lado foi a vitória suprema", afirmou Tarik. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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