Patrick Semansky/AP
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Como os EUA podem quebrar o controle de Putin sobre a Ucrânia; leia a análise

Propaganda anti-Ucrânia e mais de 100.000 militares na fronteira soa o alarme de que a Rússia está se preparando para lançar a maior ofensiva militar na Europa desde a 2ª Guerra

Alexander Vindman*, The New York Times

30 de dezembro de 2021 | 20h00

WASHINGTON - Parece ameaçadoramente como 2014. Naquela época, as tropas e tanques russos invadiram o leste da Ucrânia enquanto o Ocidente, em estado de choque, observava. Este ano, a Rússia mais uma vez impulsionou a propaganda anti-Ucrânia e reuniu quase 100.000 militares ao longo da fronteira com o país, além de tanques, artilharia e equipamento. Tudo isso soou o alarme de que a Rússia está se preparando para lançar a maior ofensiva militar na Europa desde a 2ª Guerra.

Na tentativa de aliviar a tensão, o presidente Joe Biden conversou com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Biden fez progressos ao sinalizar o custo significativo de uma invasão da Ucrânia: ele explicou que os Estados Unidos estão preparados para impor medidas econômicas punitivas para proteger a soberania da Ucrânia.

Mas isso pode não ser suficiente para deter Putin. A Rússia acumulou uma poupança para a guerra de US$ 620 bilhões, para enfrentar as sanções mais paralisantes - e Putin entende que essas penalidades provavelmente não serão aplicadas, já que os aliados americanos na Europa também seriam prejudicados.

Fornecer à Ucrânia armas maiores, como mísseis anti-aéreos e anti-navios, seria útil, mas a história sugere que o governo dos EUA é avesso ao risco de tomar essa medida. Para mudar o cálculo de Putin, é imperativo que a política do governo Biden em relação à Ucrânia mude tanto tática quanto estrategicamente para demonstrar um nível mais ativo de engajamento dos EUA, mas que evite entrar no aventureirismo militar.

Há uma questão maior em jogo aqui: o papel vital que uma Ucrânia livre e soberana desempenha na defesa dos interesses dos EUA contra os da Rússia e da China. Os Estados Unidos devem apoiar a Ucrânia fornecendo assistência militar mais ampla, envolvimento diplomático profundo e sustentado e, o que é mais importante, cooperação econômica.

Até o momento, a política externa dos EUA em relação à Ucrânia não conseguiu manter o Kremlin sob controle. Quando se trata dos vizinhos da Rússia, Washington se contentou com um papel passivo e tem sido, na melhor das hipóteses, inconstante em sua amizade com a Ucrânia.

A Rússia, por outro lado, está empenhada em reter e recuperar uma esfera de influência sobre seus territórios imperiais mais importantes, a Ucrânia, Belarus e a Geórgia. Putin - sem dúvida percebendo a diminuição do apetite americano por complicações estrangeiras nos últimos anos - aproveitou suas chances com usurpações da soberania ucraniana, incluindo a anexação da Crimeia e a invasão da região de Donbass. Mesmo a interferência nas eleições ocidentais é apenas outra tática para enfraquecer o Ocidente e criar uma esfera privilegiada de influência russa.

A crise iminente de hoje na Ucrânia é simplesmente a continuação das ambições de Putin. Declarações como a de Biden de que os interesses dos EUA terminam nas fronteiras da OTAN apenas encorajaram Putin a ignorar as normas internacionais.

Essa negligência americana deve acabar. Afinal, os Estados Unidos e a Ucrânia compartilham ideologia e interesses geopolíticos de longo prazo.

Nos últimos 30 anos, a Ucrânia fez grandes avanços em sua experiência com a democracia. Apesar dos preocupantes casos de corrupção apoiada pelo governo, a Ucrânia fez progressos árduos nas reformas em meio à guerra. Seis presidentes, duas revoluções e muitos protestos violentos depois, o povo da Ucrânia enviou uma mensagem clara que reflete o mais fundamental dos valores americanos: Eles lutarão pelos direitos básicos e contra a repressão autoritária.

Uma Ucrânia próspera apoiada pelos EUA torna uma Rússia autoritária inviável no longo prazo. O sucesso da Ucrânia derrubaria as aspirações da Rússia por um império e destacaria os fracassos do Kremlin, assim como as realizações da Alemanha Ocidental uma vez fizeram em comparação com o estado totalitário da Alemanha Oriental durante a Guerra Fria. Pode até convencer o povo russo - que compartilha uma cultura, história e religião com os ucranianos - a eventualmente exigir sua própria estrutura para a transição democrática.

Isso não acontece da noite para o dia. É necessário um investimento geracional para concretizar essa visão. No entanto, o forte contraste entre uma Ucrânia próspera e democrática e uma Rússia repressiva e economicamente estagnada já são evidentes. Em grande parte, é por isso que Putin precisa que a Ucrânia seja um Estado falido.

O apoio dos EUA à Ucrânia também pode ajudar a separar a China e a Rússia. Impedir que Putin invada a Ucrânia demonstra a força do compromisso do Ocidente em se opor à autocracia e torna a Rússia um parceiro menos potente da China em seus esforços mútuos para minar a ordem internacional baseada em regras do Ocidente.

Para esse fim, os Estados Unidos deveriam considerar uma expansão de apoio militar para a Europa Oriental para tranquilizar os aliados e reforçar as defesas da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Este tipo de implementação seria um sinal de que a agressão da Rússia resultará no tipo de postura de segurança da OTAN que a Rússia mais deseja evitar.

E os Estados Unidos não podem apoiar adequadamente a Ucrânia sem um envolvimento europeu significativo. O Kremlin deseja que a adesão da Ucrânia à OTAN seja uma questão central em qualquer discussão. Isso é uma distração, porque uma garantia de que a Ucrânia não fará parte da OTAN dificilmente impedirá a Rússia de ainda tentar colocar a Ucrânia sob seu jugo.

A questão mais importante a considerar é que as negociações com a Rússia devem ser tratadas ao nível da segurança europeia. Essas negociações devem criar rampas que aliviem as preocupações de segurança europeias e russas: para a Rússia, a invasão da OTAN e a defesa contra mísseis balísticos, e para a OTAN, a fronteira ocidental excessivamente militarizada da Rússia.

A ligação Biden-Putin abre a porta para esse tipo de discussão. A questão que permanece é se a Rússia está preparada para passar por aquela porta e reconsiderar sua posição sobre os acordos de controle de armas convencionais, como o Tratado de Forças Convencionais na Europa.

Os Estados Unidos também devem envolver a Ucrânia em iniciativas bilaterais de longo prazo sobre segurança, reforma e cooperação econômica. Este ano, Washington entregou aproximadamente US$ 450 milhões em assistência à segurança para a Ucrânia. Embora isso seja importante, a cooperação econômica deve ir além, para incluir o apoio ao investimento comercial americano por meio da Corporação Financeira para o Desenvolvimento. Washington também deve considerar a manutenção de uma relação de alto nível mais sustentada com a Ucrânia, que não é definida pelo fato de Kiev estar em crise ou não.

Existem benefícios irrefutáveis na existência de uma Ucrânia forte, democrática e independente como uma potência na encruzilhada entre a Rússia, a Ásia Central, o Oriente Médio e a Europa Meridional. Para que isso aconteça, os Estados Unidos precisam ser mais assertivos na região. Nossa abordagem tradicional indiferente já provou ser um beco sem saída.

*Alexander Vindman foi o diretor para assuntos europeus e russos no Conselho de Segurança Nacional de 2018 a 2020.

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