Allison Joyce/AFP
Allison Joyce/AFP

Como os EUA podem responder militarmente à crise na Ucrânia? Entenda

Pentágono afirma que tropas americanas não lutarão por Kiev, mas envia caças, helicópteros de ataque e tropas de infantaria para reforçar a segurança na região

Dan Lamothe, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 05h00

O Pentágono detalhou uma nova rodada de desdobramentos militares para a Europa Oriental na terça-feira, 22, em resposta às últimas ações da Rússia contra a Ucrânia, enviando caças, helicópteros de ataque e tropas de infantaria para reforçar a segurança na região. O presidente americano, Joe Biden, no entanto, afirma que nenhuma tropa dos EUA lutará na Ucrânia.

“Este pessoal adicional está sendo reposicionado para tranquilizar nossos aliados da Otan, impedir qualquer agressão potencial contra os Estados membros da aliança e treinar com as forças da nação anfitriã”, disse o Pentágono em comunicado. “Eles se reportarão ao general Tod Wolters, comandante do Comando Europeu dos EUA.”

Alguns detalhes, no entanto, devem ser considerados:

Por que os EUA estão dispostos a implantar tropas na Europa Oriental, mas não na Ucrânia?

Em resumo: porque têm obrigações.

No rescaldo da 2ª Guerra, os Estados Unidos, Canadá e vários aliados na Europa Ocidental estabeleceram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para fornecer segurança coletiva contra a União Soviética. Entre os princípios fundadores da aliança está que um ataque a um país da Otan é considerado um ataque a todos, obrigando as nações da Otan, por tratado, a permanecerem unidas em tempos de crise.

A Otan se expandiu por anos, de 12 nações em 1949 para 30 hoje, e cresceu para incluir ex-repúblicas soviéticas como Letônia, Estônia e Lituânia. Isso irritou o presidente russo, Vladimir Putin. Outros ex-estados soviéticos, notadamente a Ucrânia e a Geórgia, buscaram a adesão, mas seus pedidos definharam em parte porque permitir a adesão exigiria que o resto da Otan os defendesse contra a Rússia.

Putin buscou garantias de que a Ucrânia não se libertaria mais plenamente de sua esfera de influência ao ingressar na Otan, e reclamou amargamente da expansão da aliança. A resolução da crise agora provavelmente exigirá abordar a questão de alguma forma.

Quantas tropas dos EUA estão implantadas na Europa e por quê?

Mesmo em tempos de paz, a presença do Pentágono na Europa é vasta – um legado, em parte, da 2ª Guerra. Mais de 90 mil soldados dos EUA estão no continente ou navegando perto dele, com cerca de 35 mil baseados apenas na Alemanha.

As relações militares em todo o continente são impulsionadas em parte por acordos estabelecidos na ordem mundial liberal, uma estrutura estabelecida após a 2ª Guerra que buscou priorizar a paz, a democracia e o estado de direito em todo o mundo, bem como combater a União Soviética na Guerra Fria.

Embora a estrutura tenha exigido gastos e implantações de defesa significativas por parte dos Estados Unidos, também forneceu ao país bases na região que se mostraram inestimáveis. Um exemplo: a maioria dos militares americanos que precisaram de cirurgia de emergência após sofrer ferimentos no Iraque ou no Afeganistão receberam tratamento em um hospital do Exército dos EUA em Landstuhl, Alemanha.

Outras grandes concentrações de tropas dos EUA na Europa estão baseadas na Itália, no Reino Unido e na Espanha. Os Estados Unidos mantêm estreitos laços militares com outras nações, incluindo algumas próximas à Ucrânia, como a Polônia.

O que o Exército americano fez nos últimos dias?

Entre os primeiros passos que os militares dos EUA deram estava o envio de vários milhares de soldados da 82ª Divisão Aerotransportada em Fort Bragg, Carolina do Norte, para a Polônia.

Os soldados não foram mobilizados com tanques ou outras armas pesadas que seriam necessárias para enfrentar a Rússia na Ucrânia. Mas eles são um símbolo visível da presença americana, inclusive perto de Przemysl, uma cidade polonesa a poucos quilômetros da fronteira com a Ucrânia.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse que os soldados não vão se deslocar para dentro da Ucrânia, mas podem ter uma ampla gama de missões do outro lado da fronteira, incluindo fornecer assistência humanitária se ondas de refugiados fugindo do derramamento de sangue chegarem.

O Pentágono também mobilizou uma unidade de cerca de mil soldados operando veículos de combate blindados Stryker este mês da Alemanha para a Romênia, onde se juntaram a cerca de 900 soldados dos EUA que já estavam lá. Uma companhia menor de soldados, com mais de 100, foi enviada para a Bulgária.

As medidas anunciadas pelo Pentágono na terça-feira aumentam os tipos de armamento que chegam à área. Entre os soldados envolvidos estão pilotos de helicópteros AH-64 Apache e suas equipes de apoio, e cerca de 800 pára-quedistas da 173ª Brigada Aerotransportada, com sede em Vicenza, Itália.

Como os outros serviços estão envolvidos?

Embora a maior parte dos desdobramentos militares dos EUA anunciados até agora na crise tenha sido do Exército, cada serviço do Departamento de Defesa já está envolvido.

Notavelmente, a Marinha manteve o grupo de ataque do porta-aviões Harry S. Truman - uma poderosa formação de navios que inclui um porta-aviões com o nome do ex-presidente - na região por semanas. Na segunda-feira, o grupo de ataque estava no Mar Jônico, nas costas da Grécia e da Itália, participando de um exercício de treinamento da Otan que inclui navios, aeronaves e submarinos, segundo declarações da Marinha.

A Marinha também tem pilotado aviões de vigilância P-8A Poseidon – especializados em caçar submarinos – da Itália sobre o Mar Mediterrâneo. Caças russos os interceptaram, em alguns casos a distâncias que o Pentágono identificou como inseguras e pouco profissionais.

Na terça-feira, o Pentágono disse que até oito caças F-35 da Força Aérea serão implantados na Europa Oriental como parte da expansão das operações, adicionando a aeronave militar mais avançada ao quebra-cabeça. Outros caças e aviões de vigilância foram vistos sobrevoando a região por dias, e oficiais militares destacaram os voos de uma força-tarefa de bombardeiros B-52 que desembarcou na República Tcheca na segunda-feira.

O papel do Corpo de Fuzileiros Navais na crise tem sido mais limitado até agora, mas inclui uma equipe de seguranças da embaixada que estava baseada em Kiev, a capital ucraniana, até que os Estados Unidos se retiraram do complexo diplomático na semana passada. Os Estados Unidos enviaram oito guardas de embaixadas adicionais para Kiev para reforçar a segurança antes de sair, disseram oficiais da Marinha a repórteres no mês passado.

O que a Otan pode fazer?

As tropas dos EUA mobilizadas na crise até agora se reportam ao Comando Europeu dos EUA, a sede geográfica em Stuttgart, Alemanha, que supervisiona as operações americanas em todo o continente. Mas os aliados da Otan também têm avançado cada vez mais, enviando armas para a Ucrânia e tropas para reforçar as forças na Europa Oriental.

Há outro grande passo que a Otan pode dar, no entanto. A aliança tem à sua disposição uma unidade multinacional chamada Força de Resposta da Otan que conta com cerca de 40 mil soldados. A Otan nunca ativou a força, em parte porque isso requer o consentimento de todos os 30 membros da aliança.

Desde a invasão russa da península da Crimeia na Ucrânia em 2014 e sua subsequente anexação, a Otan tomou várias outras medidas para reforçar a segurança. Elas incluem o estabelecimento de uma brigada multinacional na Romênia, uma missão de policiamento aéreo e uma Força-Tarefa de Alta Prontidão, ou VJTF, que está em alerta para ser desdobrada a qualquer momento.

 

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