Como os EUA poderão abrigar imigrantes

Há muitos americanos extremamente generosos; governo deveria mostrar a mesma vonatde

David Miliband, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2015 | 02h02

Nas últimas semanas, foi possível observar inúmeros cidadãos europeus adiantando-se aos respectivos governos para fazer frente ao drama humano que se espalha a partir do Oriente Médio. Nos EUA, a resposta do governo Obama tem sido cautelosa.

O secretário de Estado, John Kerry, afirmou que mais 30 mil refugiados poderão ingressar no país em 2017, num total de 100 mil, mas não especificou quantos deles serão cidadãos sírios. A cidade de Munique recebeu 25 mil refugiados num fim de semana. O descompasso é flagrante.

A experiência do Programa de Admissões de Refugiados dos EUA, consórcio de agências federais e organizações sem fins lucrativos, permite extrair diversas lições muito úteis. A primeira é que, para que os migrantes possam se instalar dignamente, será imprescindível uma combinação eficiente de recursos fornecidos pelas esferas pública e privada. O governo terá de criar um arcabouço legislativo, encarregar-se da supervisão da segurança e fornecer recursos para proporcionar uma habitação provisória, além do ensino da língua.

Uma vez que essas necessidades sejam atendidas, as agências de assentamento dos refugiados que trabalham em suas comunidades cuidarão do desenvolvimento de programas de voluntariado e do levantamento de fundos de maneira a aumentar os recursos públicos. O sucesso do programa de admissão de refugiados tem sido fruto dessa parceria.

Em segundo lugar, os refugiados precisam ser vistos como pessoas capazes de dar a sua contribuição para a sociedade. Considerá-los um ônus é equivocado. Ao contrário, a autossuficiência econômica será o principal elemento de sucesso do seu reassentamento.

Em terceiro lugar, a educação oferecida aos filhos dos refugiados é crucial para a sua efetiva integração. Muitas dessas crianças chegam com uma educação formal mínima, em outras línguas que não o inglês. Entretanto, a experiência com o reassentamento nos EUA mostra que, com o apoio necessário, essas crianças podem apresentar um excelente rendimento escolar num prazo bastante reduzido. Para muitos refugiados, a chance de os filhos receberem uma boa educação significa mais para os pais do que suas próprias perspectivas imediatas. Serão os jovens que colherão os benefícios de sua instalação no país.

A última lição é que os refugiados têm maiores possibilidades de sucesso com a aquisição da cidadania, e precisarão de apoio assim que obtiverem o direito de se naturalizar.

Segundo alguns estudos, a naturalização americana representa melhores chances de emprego e salário. A ONU pediu o reassentamento de 400 mil refugiados sírios nos próximos anos - o que corresponde a cerca de 10% dos que se deslocaram para países vizinhos como Turquia, Líbano e Jordânia.

Como o número de pessoas que fogem do desastre e do conflito é maior do que em qualquer outro momento, depois da 2ª Guerra, será necessária a renovação da liderança. Nenhum país está mais bem posicionado neste sentido do que os EUA.

Essa iniciativa não só salvará vidas preciosas, como também confirmará o comprometimento da nação com suas responsabilidades morais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

DAVID MILIBAND É EX- CHANCELER BRITÂNICO E PRESIDENTE E DIRETOR-EXECUTIVO DA ONG INTERNATIONAL RESCUE COMMITTEE

 

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