Como os jihadistas podem unir o Iraque

ANÁLISE: Joshua Keating / SLATE

O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2014 | 02h00

No Iraque a situação chegou a um impasse, com o rápido avanço do Estado Islâmico. Mais de 1,7 mil iraquianos foram mortos em julho, tornando o mês um dos mais mortíferos desde o auge da guerra do Iraque. Membros do grupo étnico yazidi foram escorraçados das suas cidades. Quem são os yazidis? Em todo o mundo, eles são 600 mil e a maioria vive no Iraque, na Turquia e na Síria. Embora considerados descendentes dos curdos, eles se qualificam como um grupo étnico distinto. Seguem uma religião particular que mistura elementos do sufismo e do culto a Zoroastro. Como os xiitas, os cristãos e inúmeros outros grupos no Iraque, o Estado Islâmico considera os yazidis apóstatas e já matou pelo menos 500 deles.

Por que os EUA intervieram somente agora? Embora os americanos tenham enviado 300 conselheiros militares ao Iraque no mês passado, o governo Obama tinha medo que uma intervenção militar direta atrapalhasse na formação de um governo mais abrangente, sem Nuri al-Maliki como premiê.

O que vem ocorrendo com os yazidis é visto como um genocídio potencial e o próprio presidente Obama usou a palavra ao autorizar bombardeios contra os radicais. O controle da barragem de Mossul poderia ter consequências catastróficas.

O que uma intervenção americana efetiva acarretaria? Não temos muita razão para duvidar do presidente quando ele afirma que "as tropas americanas não voltarão a combater no Iraque". Este governo não tem mostrado entusiasmo em intervir tanto no Iraque quanto na Síria e provavelmente tentará manter essa missão no nível mais limitado possível.

Naturalmente, todas as intervenções estão sujeitas a um extravasamento e uma campanha limitada de ataques aéreos "para impedir um ato potencial de genocídio", como disse o presidente, pode facilmente se transformar numa campanha aérea mais longa em nome do governo iraquiano contra o Estado Islâmico, uma proposta de algum modo inoportuna diante do papel do Irã como principal patrono de Bagdá.

Como isso vai terminar? Embora basicamente todos os governos no Oriente Médio estejam unidos na oposição ao Estado Islâmico, ninguém parece capaz de conter a ofensiva rebelde. Além dos ganhos no Iraque, o grupo recentemente fez sua primeira incursão no Líbano. Até agora o que tem favorecido o Estado Islâmico é que muitos dos governos que ele vem combatendo - Síria, Iraque, EUA, Irã, Curdistão - também discordam entre si. Quando o grupo precisa recuar numa frente ele retorna ao ostracismo e lança uma nova campanha em outra parte.

Ironicamente, a campanha do Estado Islâmico contra os curdos pode acabar colaborando para unificar o Estado do Iraque. Até a semana passada, a desestabilização causada pela violenta investida dos islamistas contra o país parecia ser favorável à causa do Curdistão, que vem lutando pela plena independência do Iraque há anos e está em litígio com o governo pelos recursos petrolíferos. Agora, Maliki ordenou que sua força aérea auxilie os curdos. Várias facções do Iraque, como também dois patronos de Bagdá, que formam uma união peculiar, EUA e Irã, poderão ser obrigados a unir forças para enfrentar a mais grave ameaça ao país desde os piores dias da guerra do Iraque.

É improvável que o Estado Islâmico resista indefinidamente diante da oposição generalizada, dos EUA ao Irã e até a Al-Qaeda. Mas até agora o grupo tem contrariado as expectativas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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