FAISAL AL NASSER | REUTERS
FAISAL AL NASSER | REUTERS

Como os sauditas lidam com o EI

Para responder às acusações de ter financiado o grupo, Riad contribui com capital e recursos à luta contra os jihadistas

Adam Taylor, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2015 | 07h14

A ascensão do Estado Islâmico levou a um extraordinário crescimento nas críticas ocidentais à Arábia Saudita. Geralmente, esses críticos vão mais além do que simplesmente afirmar que o reino do Golfo Pérsico, um dos mais importantes aliados do Ocidente na região, não está se esforçando na luta contra o EI.

Eles argumentam que a teologia sobre a qual o Estado saudita está assentado – um ramo ultraconservador do Islã conhecido como wahabismo – é a mesma distorção apocalíptica do Islã que leva o grupo a cometer atos terríveis. Eles afirmam que, longe de serem inimigos, os dois poderes estão irremediavelmente entrelaçados.

Uma série de escândalos de direitos humanos na Arábia Saudita (incluindo casos de açoitamentos, decapitações e crucificações) somou-se a essas críticas. Logo após os ataques do Estado Islâmico em Paris, o escritor argelino Kamel Daoud resumiu o que muitos estavam pensando num artigo no New York Times. “O Daesh tem uma mãe: a invasão do Iraque”, afirmou Daoud, usando o acrônimo em árabe para o EI. “Mas também tem um pai: a Arábia Saudita e seu complexo religioso-industrial.”

Trata-se de uma crítica severa da qual autoridades sauditas têm feito esforço para se esquivar e para se opor. Pelo menos na superfície, o EI e a Arábia Saudita se opõem claramente, já que a organização extremista acredita que os sauditas são governados por infiéis. Militantes do EI realizaram quatro ataques a bomba contra mesquitas sauditas no último ano.

O Estado saudita parece ter usado seu peso na luta contra o EI com o envio de capital e recursos consideráveis para projetos com o objetivo de conter o terrorismo e o extremismo. “Acho que os sauditas se veem na linha de frente dos esforços globais de combate ao terrorismo”, disse Fahad Nazer, ex-analista político da embaixada saudita em Washington e analista político da JTG.

Então, a Arábia Saudita está fazendo o suficiente na luta contra o EI? Militares sauditas estão envolvidos na luta contra o EI desde o ano passado, tendo se juntado à coalizão liderada pelos EUA em setembro. Antes disso, já estava trabalhando com os americanos no treinamento de rebeldes.

Alguns analistas, porém, acreditam que a prontidão inicial de se engajar militarmente no combate ao EI chegou ao fim e a Arábia Saudita e outras potências do Golfo Pérsico estão deixando a liderança da luta para potências ocidentais. “Além da divulgação de uma foto supostamente mostrando pilotos de jatos F-15 que participaram das primeiras missões na Síria, os sauditas não disseram nada a respeito de seu papel na coalizão liderada pelos EUA”, disse Jeremu Binnie, editor de Oriente Médio da revista Jane’s Defense Weekly. Bowen acrescentou que os EUA têm sido muito vagos a respeito do envolvimento da Arábia Saudita e de outros países do Golfo nos ataques ao EI.

Discordâncias entre os países do Golfo sobre um plano de ação podem ter motivado a saída saudita, mas também é provável que a guerra por procuração, liderada pelos sauditas no Iêmen contra forças apoiadas pelo Irã, possa estar desviando sua atenção.

Uma parte integrante da crise na Síria e, por extensão, da luta contra o EI, tem sido a crise dos refugiados criada pela guerra civil. A ONU estima que metade da população da Síria antes da guerra, que era de 23 milhões, foi desalojada pelo conflito e o EI demonstra o desejo de explorar esse caos em benefício próprio.

Na Europa e nos EUA, tem havido uma onda de críticas à Arábia Saudita e a outros países do Golfo por sua recusa em receber um número significativo de refugiados. Em dezembro, a Anistia Internacional acusou esses países de não oferecer “locais de assentamento para refugiados sírios”. Meses mais tarde, a Arábia Saudita devolveu as críticas dizendo que havia fornecido residência para 2,5 milhões de refugiados sírios e também havia feito doações para a agência de refugiados da ONU, totalizando US$ 90 milhões em 2015. Especialistas concluíram que a Arábia Saudita recebeu um grande número de refugiados, embora não seja transparente a respeito de como lida com a questão.

Há uma teoria segundo a qual o reino saudita vinha financiando o EI. Alguns vão ainda mais longe e afirmam que a Arábia Saudita “criou” o grupo. Em junho de 2014, Lori Plotkin Boghardt, do Washington Institute, publicou uma análise concluindo que “não há evidências de que o governo saudita está apoiando financeiramente o EI”.

Ela lembrou que há um número significativo de doações para o grupo feitas por cidadão sauditas, apesar das tentativas do Estado de impedir os esforços de arrecadação de recursos. Esses financiamentos provavelmente tiveram um papel importante no desenvolvimento do EI.

No entanto, tendo em vista o aumento de outras fontes de renda do grupo, não é provável que as doações privadas de países do Golfo ainda sejam importantes. Talvez mais preocupante seja o grande número de sauditas que viajaram para a Síria para se juntar ao EI – estima-se que foram 2,5 mil. / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

ADAM TAYLOR É JORNALISTA DO THE WASHINGTON POST

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