Como pensar e falar sobre o Islã

Para analisar a religião, é preciso levar em consideração sua história e não somente incidentes recentes

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2014 | 02h02

Quando o apresentador de televisão Bill Maher declara em seu programa semanal que "o mundo muçulmano... tem coisas demais em comum com o Isil" e o escritor Sam Harris, um convidado do programa, concorda, argumentando que o Islã é "o veio principal de más ideias", eu entendo por que pessoas ficam chateadas. Maher e Harris fizeram simplificações grosseiras e exageros. Mas eles estavam falando também de um problema real.

Conheço todos os argumentos contrários a falar do Islã como violento e reacionário. Ele abriga a fé de mais de 1,6 bilhão de pessoas. Lugares como a Indonésia e a Índia têm centenas de milhões de muçulmanos que não se encaixam nessas caricaturas. E é isso que faz Maher e Harris culpados de generalizações grosseiras. Mas sejamos honestos. O Islã tem um problema hoje. Lugares que têm dificuldade de se acomodar ao mundo moderno são desproporcionalmente muçulmanos.

Em 2013, dos 10 principais grupos que perpetraram ataques terroristas, 7 eram muçulmanos. Dos 10 principais países onde ocorreram ataques terroristas, 7 eram de maioria muçulmana. Enquanto isso, o Pew Research Center classifica países segundo o número de restrições que os governos impõem ao livre exercício da religião. Dos 24 países mais restritivos, 19 são de maioria muçulmana. Dos 21 países que têm leis contra a apostasia, todos têm maiorias muçulmanas.

Hoje, há um câncer de extremismo no Islã. Uma pequena minoria de muçulmanos celebra a violência e a intolerância e adota práticas profundamente reacionárias com mulheres e minorias. Apesar de alguns confrontarem esses extremistas, não há um número suficiente deles e os protestos não repercutem o suficiente. Quantos comícios de massa foram realizados contra o Estado Islâmico (EI, também conhecido como Isil) no mundo árabe hoje? A ressalva "Islã hoje" é importante. O problema central na análise de Maher e Harris é que ela toma uma realidade - o extremismo no Islã - e a descreve de maneira a sugerir que ela é inerente ao Islã. Maher diz que o Islã é "a única religião que age como a máfia, que o matará se você disser a coisa errada, desenhar a figura errada ou escrever o livro errado". Ele está certo sobre a crueldade, mas errado em associá-la a "Islã" - e não a "alguns muçulmanos". Confie em mim, Bill, se 1,6 bilhão de muçulmanos se sentissem assim, você já estaria morto.

Harris se orgulha de ser altamente analítico - com nada menos que um doutorado. Eu aprendi no curso de graduação universitária que nunca se deve explicar um fenômeno variável com uma causa fixa. Assim, se você afirmar que o Islã é inerentemente violento e intolerante - "o veio principal de más ideias" - então, como o Islã existe há cerca de 14 séculos, deveríamos ter observado 14 séculos desse comportamento.

Harris deveria ler o livro Peace Be Upon You: Fourteen Centuries of Muslim, Christian and Jewish Conflict and Cooperation (A paz esteja convosco: 14 séculos de conflito e cooperação muçulmana, cristã e judaica, em tradução livre) de Zachary Karabell. O que ele descobriria é que houve guerras, mas também muitos séculos de paz. Houve tempos em que o Islã esteve na crista da onda da modernidade e períodos, como o atual, em que é o grande retardatário. Como Karabell me explicou, "se você excluir os últimos 70 anos, mais ou menos, em geral o mundo islâmico foi mais tolerante com minorias do que o mundo cristão. É por isso que havia mais de um milhão de judeus vivendo no mundo árabe até o início dos anos 1950 - quase 200 mil só no Iraque."

Se houve períodos em que o mundo islâmico era aberto, moderno, tolerante e pacífico, isso sugere que o problema não está na essência da religião e as coisas podem mudar de novo. Então, por que Maher está fazendo esses comentários? Eu compreendo que como um intelectual público, ele sente a necessidade de falar o que vê como a verdade nua e crua (embora sua "verdade" seja simplificada e exagerada). Mas também há, com certeza, outra tarefa para intelectuais públicos - tentar mudar o mundo.

Será que ele realmente pensa que comparar o Islã à máfia fará isso? Harris diz que deseja encorajar "muçulmanos nominais que não levam a fé a sério" a reformarem a religião. Portanto, a estratégia para reformar o Islã é dizer a 1,6 bilhão de muçulmanos, a maioria dos quais crentes e devotos, que sua religião é nefasta e eles deveriam parar de levá-la a sério? Não foi assim que o cristianismo avançou de sua adoção multissecular de violência, cruzadas, inquisições, queima de bruxas e intolerância para a condição moderna. Ao contrário, intelectuais e teólogos celebraram os elementos da religião que eram tolerantes, liberais e modernos e os enfatizaram, enquanto davam aos cristãos devotos razões para se orgulharem de sua fé. Uma abordagem similar - reforma combinada com respeito - funcionará com o Islã no correr do tempo.

As paradas são altas nesse debate. Você pode tentar fazer notícia ou pode fazer a diferença. Espero que Maher comece a fazer a última. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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