Como Pequim deve dar respostas

Governo precisa cumprir sua parte do acordo de devolução e garantir ao território as promessas de autonomia e liberdade

CHRIS , PATTEN, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2014 | 02h05

Não é inteiramente verdadeiro dizer que os olhos do mundo inteiro estão voltados para Hong Kong. Eles estariam, é claro, se as pessoas da China continental pudessem saber o que está ocorrendo na cidade mais bem-sucedida de seu país. Mas o governo da China tentou impedir que qualquer notícia sobre as manifestações pela democracia em Hong Kong chegasse ao restante do país.

Antes de sugerir uma maneira de as canhestras autoridades de Hong Kong avançarem, três coisas precisam ser esclarecidas. Primeiro, é uma calúnia à integridade e aos princípios dos cidadãos de Hong Kong afirmar que eles são manipulados por forças externas. O que motiva dezenas de milhares de manifestantes em Hong Kong é uma crença apaixonada de que devem poder cuidar de seus assuntos como lhes foi prometido, escolhendo quem os governe em eleições livres.

Segundo, outros fora de Hong Kong têm um interesse legítimo no que ocorre na cidade. Hong Kong é um importante centro internacional cuja liberdade e autonomia foram garantidas num tratado registrado na ONU. Em particular, a Grã-Bretanha, a outra parte da Declaração Conjunta Sino-Britânica. Ela buscou e recebeu garantias de que a sobrevivência da autonomia e das liberdades de Hong Kong seria assegurada por 50 anos.

Terceiro, os maiores problemas surgiram por uma disputa sobre em que o prometido caminho para a democracia de Hong Kong a deveria levar - e quando. Ninguém disse aos habitantes quando lhes foi garantido o sufrágio universal que isso não significaria poder escolher em quem poderiam votar.

Na verdade, não era isso que a China tinha em mente. Em 1993, o principal negociador da China sobre Hong Kong, Lu Ping, disse ao Diário do Povo: "O (método de sufrágio universal) deveria ser reportado (ao Parlamento da China) para o registro - e a anuência do governo central não é necessária. A maneira como Hong Kong desenvolverá sua democracia no futuro é inteiramente da alçada da autonomia de Hong Kong. O governo central não interferirá".

O Parlamento britânico resumiu o que havia sido prometido em um relatório sobre Hong Kong em 2000. "Portanto, o governo chinês aceitou formalmente que cabe ao governo de Hong Kong determinar o alcance e a natureza da democracia de Hong Kong."

O que vem em seguida? Os manifestantes pacíficos em Hong Kong não serão varridos das ruas como lixo ou intimidados à submissão por gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Qualquer tentativa de fazê-lo exibiria ao mundo um quadro terrível e danoso de Hong Kong e de Pequim - e seria uma afronta a tudo que a China aspira a ser.

As autoridades de Hong Kong calcularam muito mal as opiniões de seus cidadãos. Como os maus cortesãos contra os quais Confúcio advertia, eles foram a Pequim e disseram ao imperador o que julgavam que ele queria ouvir e não qual era a real situação na cidade. Eles precisam repensar.

Pelos planos existentes, há supostamente uma segunda fase de consultas sobre desenvolvimento democrático depois do que se mostrou um falso começo do processo. Agora, o governo de Hong Kong deve oferecer a seu povo uma justa segunda rodada de consultas que seja aberta e franca. O diálogo é a única maneira sensata de avançar. Os cidadãos de Hong Kong não são irresponsáveis ou insensatos. Um acordo decente que permita eleições que as pessoas reconheçam como justas, não trapaceadas, é certamente possível.

Os manifestantes em Hong Kong, jovens e velhos, representam o futuro da cidade. Suas esperanças são de uma vida pacífica e próspera na qual possam gozar das liberdades e do estado de direito que lhes foram prometidos. Isso não é do interesse apenas de sua cidade, é do interesse da China também. O futuro de Hong Kong é a questão principal, mas a honradez e a posição da China no mundo, também. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É O ÚLTIMO GOVERNADOR BRITÂNICO DE HONG KONG, EX-COMISSÁRIO PARA ASSUNTOS EXTERNOS DA UNIÃO EUROPEIA, E É REITOR DA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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