EFE/EPA/SERGEI ILNITSKY
EFE/EPA/SERGEI ILNITSKY

Como Putin pode conseguir se manter no poder até 2036

'Referendo constitucional' produziu o resultado esperado - Vladimir Putin pode governar até 2036 -, mas um espetáculo elaborado de afirmação pública foi vital para sua legitimidade

Andrew Higgins / The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2020 | 10h18

MOSCOU - O plebiscito nacional de sete dias da Rússia, destinado a manter o presidente Vladimir V. Putin no poder até pelo menos 2036, teve o resultado esperado: três quartos dos eleitores apoiaram a medida. Menos claro, no entanto, foi o motivo pelo qual Putin precisava de eleitores para aprovar uma série de emendas constitucionais que já entraram em vigor meses atrás. De acordo com opositores, o líder que comanda o país desde 2000 usou o aparato do estado para coagir eleitores. 

“É teatro, mas um teatro muito importante e bem interpretado. Não é um procedimento sem sentido", avaliou Greg B. Yudin, sociólogo da Escola de Ciências Sociais e Econômicas de Moscou, lembrando que o sistema da Rússia sob Putin depende da aparência de apoio popular para conferir legitimidade às decisões que ele já tomou. "O sistema precisa exibir demonstrações de apoio público, mesmo quando não o possui", disse Yudin. "Esta votação está colocando as técnicas teatrais de Putin à prova."

Nesta semana, Putin se dirigiu a nação com o pano de fundo de monumentos aos soldados soviéticos mortos na Alemanha nazista, assegurando aos eleitores que suas vozes eram importantes, não importando que as dezenas de emendas que estavam sendo solicitadas a considerar já tivessem sido cumpridas e que a constituição alterada já estava à venda nas livrarias. "A voz de cada um de vocês é a mais importante, a mais significativa", disse Putin.

Os eleitores, em teoria, poderiam ter rejeitado as emendas, e Putin prometeu honrar sua decisão. Mas as chances de que isso acontecesse pareceram minúsculas, principalmente pelo que a Golos, uma organização independente de monitoramento de eleições, descreveu na terça como um processo eleitoral fraudado desde o início.

A votação, injustamente distorcida por uma campanha de propaganda unilateral da mídia controlada pelo estado e a pressão de grandes empresas e organizações estatais, "não permitiu falar seriamente sobre a possibilidade de a vontade das pessoas ser expressa". 

O vasto alcance e recursos do estado permitiu mobilizar pessoas como Lyudmila Savinkina, editora-chefe do Yegoryevsk Today, uma pequena estação de televisão estatal em uma cidade a sudeste de Moscou. Em uma gravação obtida por Golos, ela ordenou que sua equipe não apenas votasse, mas que votasse na cidade de Yegoryevsk, não importa onde geralmente estejam registrados. Autoridades locais corriam o risco de perder o emprego se não mobilizassem eleitores suficientes em seus próprios distritos.

Para quem desobedecesse, a editora disse que haveria consequências. "Todos podem perder empregos e bônus - e isso em meio a uma pandemia, quando muitas pessoas já perderam seus empregos". Ela não respondeu a telefonemas pedindo comentários.

Os funcionários das bibliotecas financiadas pelo Estado em São Petersburgo reclamaram que haviam sido ordenados por suas instituições para votar. Boris Vishnevsky, acadêmico e membro da oposição em São Petersburgo, descreveu isso como uma "grave violação da lei trabalhista" dizendo que "os funcionários não têm obrigação de votar se não quiserem".

Campanha 

Durante semanas, um longo desfile de russos proeminentes que dependem do Estado para suas posições e renda - de atores e músicos ao chefe do Museu Hermitage em São Petersburgo e ao patriarca da Igreja Ortodoxa Russa - instou, na televisão estatal, as pessoas a votar.

Curiosamente, nenhum deles mencionou o centro da questão: uma emenda para permitir que Putin ultrapasse os limites constitucionais em vigor desde 1993 e permaneça no poder virtualmente por toda a vida, ao invés de sair ao final de seu mandato atual em 2024. Em vez disso, eles se concentraram em outras mudanças, como consagrar a proteção de aposentadorias, valores familiares, animais, o idioma russo e a memória dos russos mortos na Segunda Guerra Mundial.  

Também inclui medidas como a inclusão na Constituição da "fé em Deus" e o matrimônio como instituição heterossexual. 

Manobra 

O voto, no modelo de "sim ou não", foi, na verdade, um grande pacote - qualquer um que acreditasse nos valores tradicionais do país provavelmente marcaria sim e, ao fazer isso, endossava a ideia de deixar Putin, agora com 67 anos, permanecer no Kremlin pelo menos até os 83 anos.

Aleksei A. Navalny, o líder de oposição mais proeminente da Rússia, denunciou as ações como uma "farsa vergonhosa" que foi "especialmente projetada para enganar e enganar o público". Navalny criticou celebridades que dependem de shows financiados pelo Estado e haviam participado de uma campanha para obter a votação. Ele as chamou de "pessoas vis e repugnantes" que "estão mentindo e enganando as pessoas por dinheiro".

Por outro lado, muitos blogueiros, "influenciadores" e outras celebridades da internet recusaram pagamentos para mencionar as emendas, temendo que qualquer sugestão de elogio a Putin arruinasse sua imagem com seus jovens públicos e reduzisse as vendas de anúncios.

A natureza do resultado, na visão de Yudin, reflete a "democracia plebiscitária" da Rússia, um sistema que gira em torno de um único líder incontestável, mas que ainda exige gritos regulares de "aclamação pública para dar legitimidade".

O objetivo principal do Kremlin, segundo ele, era dar a Putin uma nova legitimidade em um momento em que, com a economia da Rússia gravemente prejudicada pela pandemia de coronavírus, sua taxa de aprovação caiu para o nível mais baixo desde que chegou ao poder há 20 anos.

Para garantir que isso acontecesse, eleitores foram atraídos para as assembleias de voto por loterias, cupons de supermercado, shows de palhaços e outras atrações. Houve relatos dispersos de fraude, mas mais significativa foi a mobilização forçada do grande número de eleitores cuja subsistência depende, de uma maneira ou de outra, de permanecer do lado do Kremlin.

Para aqueles que não querem desempenhar seus papéis, o editor de televisão de Yegoryevsk teve alguns conselhos simples: "Sinto muito, moramos neste país. Como disse anteriormente, se você não gostar, mude para outros país e todos os problemas serão resolvidos de uma só vez". / Com informações da AFP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.