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Como reagir?

Bruxelas, no meio do dia desta terça-feira, era uma cidade morta e asfixiada. Às vezes, ruídos de sirenes, depois silêncio, como se amordaçada. Os cafés, fechados. As ruas principais, vazias, perceptíveis apenas as silhuetas de policiais, soldados. Nenhuma criança. Escolas desertas.

Gilles Lapouge, O Estado de São Paulo

23 de março de 2016 | 05h00

Ao longe, um homem, uma mulher, olhar aturdido, incrédulo, como se tentando enviar o que ocorreu de manhã para o terreno vago do sonho, do pesadelo. E as pessoas sabem muito bem que o pesadelo foi real: dois ataques, às 8 e às 9 horas na manhã, primeiro contra o aeroporto de Zaventem e depois contra uma estação de metrô. Mortos e feridos. Sangue. Quantos mortos? 20? 30?

Naquele momento, nenhuma reivindicação de autoria. Mais tarde, uma mensagem do Estado Islâmico. Com certeza essa infâmia é uma resposta à captura, pela polícia belga, do único sobrevivente dos terroristas que levaram a cabo os atentados de 13 de novembro em Paris. 

O detido é Salah Abdeslam, que, em vez de morrer como mártir como seus cúmplices, preferiu fugir, jogando no lixo seu colete de explosivos e permanecendo escondido como um verme durante quatro meses no bairro de Molenbeek, em Bruxelas, onde nasceu, não muito longe da casa de sua mãe.

Salah foi encontrado no dia 18. Se a carnificina de ontem foi um ato de vingança dos jihadistas, então ela foi fulgurante.

Bastaram quatro dias para os terroristas realizarem uma operação de envergadura, atingindo dois grandes objetivos (o aeroporto e o metrô) numa cidade em alerta. Ou os ataques estavam programados havia muito tempo.

Mas nos dois casos a lição é a mesma: os assassinos estão dentro de casa, em todas as cidades do continente. Fazem suas compras todas as manhãs, café, suco de laranja, uma baguete, talvez até conversem gentilmente com a padeira e um dia, em uma hora, atacam como bem desejarem, não importa quando e onde.

François Hollande e David Cameron manifestaram seu horror. Era o mínimo. E expressaram sua coragem: “eles não nos intimidarão!”. Muito bem. Natural. O que não é natural, infelizmente, são as medidas que a Europa adota para lutar contra o flagelo.

Aumentaram os controles, milhares de soldados foram às ruas em apoio aos milhares de policiais, mas os terroristas continuam lá. Estão no meio de nós, como peixes dentro d’água. Eles vão e vêm. Se querem penetrar num aeroporto, penetram. Se querem passar pelos portões de segurança, passam. Colocar uma bomba num metrô? Eles colocam.

Devemos aumentar as batidas, as verificações de bagagens?

Talvez, mas eles sempre encontram um meio de escapar. É preciso dizer que a tarefa é difícil. E a maioria dos grandes aeroportos europeus é vetusta. Esses aeroportos foram projetados em tempos mais tranquilos, quando os terroristas estavam ausentes. Deveriam ser reformados com base em novos projetos, novas normas. Que governo conseguirá pagar essa despesa?

E o mais complicado é essa multidão de assassinos e “mártires” que se agita em todos os países da Europa. Certamente poderíamos remontar às causas desse afluxo de jihadistas europeus e discutir o “comunitarismo” que alterou a ordem estabelecida em países como a França ou Bélgica e permitiu o nascimento dessas “bases de retaguarda” do terror, que são alguns subúrbios, como a comuna de Molenbeek na Bélgica.

Sim. Mas, então, seria necessário também retroceder mais ainda no tempo, até as catastróficas colonizações do império francês e do Congo Belga.

Não seria melhor coordenar os serviços de segurança, as investigações, os serviços de polícias, de contraespionagem e de inteligência de todos os países europeus? Seria algo possível de realizar, pois os países da Europa, há 60 anos, “suam sangue” para compartilhar suas fronteiras, suas alfândegas, suas moedas, seus cérebros, seus sonhos e suas alegrias. E produziram quilômetros de leis, decretos, regulamentos com esse objetivo. Qual foi o resultado?

A França e a Bélgica são “nações irmãs”. Na noite desta terça-feira, a Torre Eiffel foi iluminada com as cores da bandeira belga. Magnífico! Mas neste momento, franceses e belgas trocam farpas, criticando a atuação da polícia da Bélgica.

Quantos apocalipses como o de 13 de novembro em Paris e o de ontem em Bruxelas serão necessários para, finalmente, os serviços de polícia de todos os países da Europa se unirem? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 


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