Como um sindicato frustrou o líder mexicano

Facção trabalhista contrária à reforma da educação de Peña Nieto convoca greve edefende boicote às eleições para pressionar o governo

WHITNEY , EULICH, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2015 | 02h08

Os mexicanos não concordam em muita coisa. Mas são quase unânimes em dizer que sem reformar a educação - conhecida pelos resultados fracos, apesar do generoso financiamento público - a pretensão de um renascimento mexicano com o presidente Enrique Peña Nieto provavelmente não se concretizará. É por essa razão que a oposição sindical ao projeto se transformou num teste crucial para agenda do chefe de Estado.

Uma facção dissidente do sindicato nacional dos professores que se opõe à reforma deu início a uma greve na segunda-feira e defende que os eleitores boicotem as eleições legislativas e regionais de hoje.

Com isso, Peña Nieto recuou. O governo anunciou que suspenderia por tempo indeterminado as avaliações nacionalmente administradas, uma pedra angular do projeto criado em 2012. Mas sua disposição de abdicar de uma medida crucial de reforma fez muitos questionarem suas motivações e sua habilidade para conduzir o México.

"Isso é um sinal de estagnação (do governo)", diz Alejandro Schtulmann, presidente da Emerging Markets Political Risk Analysis, uma consultoria na Cidade do México. "A educação está no cerne do futuro do México. Temos tanta corrupção e tanta criminalidade porque não temos uma boa educação."

Mudanças. Quando Peña Nieto introduziu a reforma da educação em 2012, ele a chamou de base para transformar o México. Além de avaliações de professores, o pacote de reformas inclui a criação de um sistema de remuneração e promoção por mérito, testes para professores novos entrarem no campo, e mais supervisão federal.

O projeto foi o primeiro de uma série apresentada por Peña Nieto e aprovada por uma coalizão multipartidária no Congresso. Ela foi seguida por outras mudanças em setores como energia e telecomunicações, com o objetivo de tornar o país mais competitivo.

"A reforma da educação foi mais do que a primeira iniciativa (de Peña Nieto) e sua primeira realização: ela era a chave de sua credibilidade. Um governo que ousou mexer num poder como o sindicato dos professores e anunciar critérios como o mérito no processo de educação merecia respeito", escreveu o comentarista político Jesús Silva-Herzog Márquez no diário Reforma do México. "O governo de Peña Nieto tomou essa posição no realinhamento do Estado. Daí a dimensão da derrota."

Entre os países industrializados, o México gasta uma das porcentagens mais altas de seu orçamento em educação, mas os resultados de testes refletem mal seus investimentos. Menos de 40% dos adultos (25 a 64 anos) concluíram o segundo grau. Além disso, o México figura regularmente no terço inferior em compreensão de leitura, matemática e ciência no Programa Internacional para a Avaliação de Estudantes (PISA). Economistas dizem que o sistema educacional precário contribui para a desigualdade.

Alerta. "Por motivações políticas ou por medo, o governo está colocando a educação em risco", diz David Calderón, o diretor-geral do Mexicanos Primero, um importante grupo de defesa da educação. Segundo ele, as avaliações de professores não foram criadas como ferramentas de punição, mas como meio de aprimoramento.

Em meio à suspensão das avaliações, que deveriam ocorrer nos próximos meses, membros da Coordenadora Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE) fecharam escolas em muitas partes dos Estados de Guerrero, Michoacán, Chiapas e Oaxaca, tirando milhões de estudantes das salas de aulas. Escritórios eleitorais e de educação foram alvos de violência e vandalismo em protesto por todo o sul do país, e centenas de sindicalistas marcharam na Cidade do México pedindo a anulação da reforma.

"Nós dissemos, e repetimos, que as avaliações não são o objetivo principal, mas repelimos uma reforma que tem mais a ver com trabalho do que com educação", disse um representante da CNTE.

O primeiro censo nacional escolar do México, no ano passado, revelou que existiam mais de 39 mil professores "fantasmas" - que não aparecem para ensinar - na folha de pagamentos. Outros cerca de 30 mil indivíduos recebem salário para completar atividades sindicais.

Cidadãos preocupados, acadêmicos e a sociedade civil ajudaram a promover as reformas da educação desde o início, diz Calderón. Ele espera que a reforma possa voltar aos trilhos, mas alerta que isso será muito complicado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EDITORA DE AMERICA LATINA DO CSM

Artigo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.