(AP Photo/Leo Correa, Arquivo)
(AP Photo/Leo Correa, Arquivo)

Como um vasto programa de vacinação global deu errado

Depois de meses de esforços, o Covax, apoiado pelas Nações Unidas, em breve terá muito mais doses, mas o consórcio enfrenta uma crise que vai dificultar a aplicação das vacinas

Benjamin Mueller e Rebecca Robbins/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 10h00

As mortes por covid-19 estavam aumentando em toda a África no mês de junho, quando 100 mil doses da vacina Pfizer-BioNTech chegaram ao Chade. A entrega parecia uma prova de que o programa apoiado pelas Nações Unidas para imunizar o mundo conseguiria fornecer as vacinas mais desejáveis para as nações menos desenvolvidas. No entanto, cinco semanas depois, disse o ministro da Saúde do Chade, 94 mil doses continuavam sem uso.

Perto dali, no Benin, apenas 267 injeções eram aplicadas a cada dia, um ritmo tão lento que 110 mil das doses do programa AstraZeneca expiraram. Em toda a África, segundo documentos confidenciais de julho, o programa estava monitorando pelo menos nove países onde se afirmava que as doses destinadas aos pobres corriam o risco de estragar neste verão.

O acúmulo de vacinas ilustra um dos problemas mais sérios, mas não muito reconhecido, que o programa de imunização vem enfrentando ao tentar se recuperar de meses de erros e decepções: a dificuldade em levar as doses das pistas dos aeroportos para os braços das pessoas.

Conhecido como COVAX, o programa deveria ser uma potência global, uma aliança multibilionária de órgãos internacionais da saúde e organizações sem fins lucrativos que, por meio de seu poder de compra, garantiria que os países pobres recebessem vacinas tão rapidamente quanto os ricos.

Em vez disso, o COVAX vem enfrentando dificuldades para adquirir as doses: está meio bilhão abaixo de sua meta. Os países pobres estão perigosamente desprotegidos agora que a variante delta corre solta, exatamente o cenário que o COVAX foi criado para prevenir.

A necessidade urgente de vacinar o mundo vai muito além de proteger as pessoas nas nações pobres. Quanto mais tempo o vírus circula, mais perigoso ele pode se tornar, mesmo para pessoas vacinadas em países ricos.

Sem bilhões de doses a mais, alertam os especialistas, novas variantes podem continuar surgindo, colocando todas as nações em perigo.

“O COVAX ainda não fracassou, mas está falhando”, disse o Dr. Ayoade Alakija, copresidente do programa de entrega de vacinas da União Africana. “Realmente não temos outras opções. O COVAX precisa funcionar, pelo bem da humanidade”.

Mais suprimentos finalmente estão a caminho, cortesia do governo Biden, que está comprando 500 milhões de doses da Pfizer e as distribuindo por meio do COVAX, a peça central de uma promessa maior das democracias ricas. As doses doadas devem começar a embarcar ainda neste mês.

Mas a doação de Biden, no valor de US $ 3,5 bilhões, vem com uma ressalva: para ajudar a financiá-la, o governo está desviando centenas de milhões de dólares prometidos para campanhas de vacinação em países mais pobres, de acordo com notas de uma reunião entre o COVAX e autoridades americanas. Com pouco financiamento, esses países têm dificuldade em comprar combustível para transportar doses para os postos de saúde, treinar pessoas para aplicar injeções ou convencer as pessoas a se vacinarem.

Mesmo enquanto as autoridades do COVAX lutam para preencher essa lacuna de financiamento, a questão primordial é saber se o programa pode ir além de seus erros e além de um desequilíbrio de poder que o deixou à mercê dos países ricos e das empresas farmacêuticas. Por exemplo: a Pfizer, revelam as entrevistas, recusou um acordo direto com o COVAX nesta primavera e, em vez disso, preferiu chegar a um acordo por meio do governo Biden, um arranjo que prejudicou a credibilidade do COVAX como comprador de vacinas independente.

O programa vem enfrentando atrasos e conflitos internos. De acordo com entrevistas e registros do COVAX, as barreiras burocráticas impostas por sua liderança impediram o desembolso de US $ 220 milhões para ajudar os países a aplicar vacinas.

Impulsionada por uma organização sem fins lucrativos financiada pela Fundação Gates, o COVAX é uma criação sem precedentes. O consórcio levou vacinas para países mais pobres mais rápido do que o esperado e desenvolveu um sistema para compensar as pessoas por reações graves pós-vacina e proteger os fabricantes de responsabilidade legal – um plano que poupou esses países de meses de negociações.

Ainda assim, as 163 milhões de doses que o programa distribuiu – a maioria de graça para os países mais pobres, com o restante para países como o Canadá, que pagaram por suas despesas – estão muito longe dos planos que projetavam pelo menos 640 milhões de doses disponíveis até agora.

O Dr. Seth Berkley, presidente-executivo da Gavi, a organização sem fins lucrativos que opera no coração do COVAX, disse que a insuficiência do financiamento antecipado tornou a escassez de suprimentos inevitável. Quando surgem problemas de distribuição do tipo do Chade e do Benin, o COVAX tenta “redistribuir essas vacinas para outros países, mas depois trabalhar com esses países para tentar melhorar a capacidade”, disse ele.

Apoiadores e críticos concordam que o programa precisa melhorar rapidamente. No início de julho, documentos confidenciais do COVAX indicaram que 22 nações, algumas com aumento nos números de fatalidades, relataram estar quase ou totalmente fora das doses do programa.

“Pela forma como o COVAX foi embrulhado e vendido, os países africanos pensaram que ele seria seu salvador”, disse a Dra. Catherine Kyobutungi, que dirige o Centro de Pesquisa em Saúde e População Africana. “Quando o consórcio não atendeu às expectativas, não havia mais a quem recorrer”.

Ricos e pobres

Nos frenéticos primeiros meses de 2020, especialistas em saúde traçaram estratégias sobre como inocular o mundo de maneira equitativa. A resposta foi o COVAX, reunindo duas organizações sem fins lucrativos financiadas por Gates – Gavi e a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias, ou CEPI, na sigla em inglês –; a Organização Mundial da Saúde; e o UNICEF, que lideraria os esforços de entrega. O consórcio esperava ser um grande comprador global de vacinas, tanto para as nações ricas quanto para as pobres, dando-lhe influência para intimidar as fabricantes.

Mas, embora prometessem doações, os países ricos não foram parceiros prestativos. A Grã-Bretanha negociou para que os participantes mais ricos pudessem escolher as vacinas para comprar através do COVAX, o que gerou atrasos, disse Kate Elder, consultora sênior para políticas de vacinas da Campanha de Acesso da Médicos Sem Fronteiras.

Ainda mais importante, as nações ricas se tornaram rivais em uma corrida pela compra de vacinas, pagando ágio para garantir suas próprias doses e, ao mesmo tempo, atrasando as cauções financeiras de que o COVAX precisava para assinar acordos.

“Não dá para passar o chapéu no meio de uma pandemia”, disse a Dra. Nicole Lurie, diretora americana da CEPI, referindo-se à luta desesperada por financiamento.

De início, o COVAX planejava entregas gigantes do Serum Institute, uma fabricante indiana. Mas, depois que o vírus se espalhou pela Índia em março, o governo indiano suspendeu as exportações de vacinas. Muitos países pobres ficaram abalados, pois haviam apostado no COVAX, apesar de muitas vezes terem sido deixados de fora de sua tomada de decisão.

Alakija, que está liderando os esforços de entrega da África, disse que as autoridades de saúde africanas mal foram consultadas em meados de 2020, quando o programa estabeleceu uma meta inicial de vacinação de pelo menos 20% das populações dos países mais pobres. Alakija lembrou que as pessoas envolvidas com o COVAX disseram acreditar que a África está sob baixo risco e que as imunizações em massa são desnecessárias – uma alegação que um porta-voz da Gavi negou.

O porta-voz disse que a meta foi definida em face da “limitação de recursos” e de “uma compreensão limitada da epidemiologia da covid-19” e que agora havia dinheiro suficiente para comprar vacinas para quase 30% das populações dos países mais pobres.

Desesperados, 17 países que poderiam receber doses gratuitas do COVAX, entre eles Ruanda, fecharam acordos para comprar doses diretamente da Pfizer.

A CEPI, uma das organizações sem fins lucrativos por trás do COVAX, fez investimentos cruciais para expandir a fabricação de várias vacinas. Mas, em junho, problemas de produção atrapalharam as entregas do principal fornecedor do COVAX, a AstraZeneca, que disse que os embarques já haviam aumentado. A Johnson & Johnson, que também teve dificuldades de produção, ainda não entregou nenhuma dose encomendada pelo COVAX.

Só recentemente várias grandes fabricantes de vacinas concordaram em fornecer doses para o programa, entre elas a Moderna e duas empresas chinesas.

“O mundo está produzindo algumas centenas de milhões de doses por semana, então não existe problema de abastecimento”, disse o Dr. Bruce Aylward, consultor sênior da Organização Mundial da Saúde. Em vez disso, disse ele, as fabricantes de vacinas e líderes mundiais estavam optando por colocar os países ricos em primeiro lugar: “O que existe é um problema de escolha”.

Como pagar pelos freezers

Com mais 1,7 bilhão de doses esperadas até dezembro, as autoridades do COVAX temem que alguns países terão dificuldades para fazer uso das vacinas repentinamente disponíveis. Como estavam enfrentando longas esperas de entrega e embarques incertos, alguns países atrasaram os preparativos principais.

“É muito mais fácil ganhar escala quando você tem um suprimento estável e previsível”, disse Lily Caprani, conselheira sênior do UNICEF.

O COVAX contara com doações e empréstimos do Banco Mundial para financiar as campanhas de vacinação dos países mais pobres. Mas, devido à escassez de suprimentos do COVAX, os países gastaram a maior parte desse dinheiro em doses.

Em junho, a Gavi, a organização sem fins lucrativos líder do COVAX, pediu a seu conselho que aprovasse US $ 775 milhões em novos fundos de distribuição, US $ 500 milhões dos quais fornecidos pelos Estados Unidos como parte de uma doação não relacionada ao acordo com a Pfizer.

Mas os US $ 1,8 bilhão disponíveis até o final de junho para a entrega de vacinas ainda estavam US $ 1 bilhão abaixo daquilo que as autoridades de saúde estimam ser necessário.

Os custos estão aumentando, visto que as doses da Pfizer devem ser armazenadas em temperaturas ultrabaixas. O COVAX precisa instalar algo entre 250 e 400 freezers e geradores. Algumas autoridades africanas temem que suas redes elétricas possam ficar sobrecarregadas. Sob essas condições, alguns países, como o Chade, não conseguem transportar as doses da Pfizer para fora das grandes cidades.

Para comprar freezers, o COVAX planeja sacar US $ 220 milhões prometidos pela Alemanha em fevereiro. Mas um impasse burocrático impediu esse gasto, refletindo preocupações mais amplas sobre atrasos no financiamento para as entregas.

Mesmo com as autoridades americanas pressionando o COVAX para se preparar para as doses cruciais da Pfizer, os países ricos continuam relutantes em financiar esse trabalho, disseram os especialistas. As dificuldades levaram a apelos para que o COVAX compartilhasse mais poder com grupos humanitários e regionais.

“Não vejo muita compreensão de que eles nunca serão capazes de fazer tudo isso centralmente”, disse o Dr. Mark Dybul, professor de Georgetown. “Minha preocupação é eles acabarem com um monte de vacina emperrada”.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / Tradução de Renato Prelorentzou. 

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