Atul Lowke/NYT
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Como uma casa de US$ 110 milhões virou impasse diplomático entre EUA e Índia

Lincoln House, antigo palácio e ex- sede do consulado dos EUA em Mumbai, deveria ter sido vendida há seis anos

Jeffrey Gettleman, Suhasini Raj e Lara Jakes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 20h00

MUMBAI - No início deste ano, quando o secretário de Estado americano Antony Blinken aguardava sua confirmação em Washington, uma estranha pergunta sobre uma propriedade a quase 13 mil quilômetros surgiu.

A Lincoln House, um antigo palácio do marajá e ex-sede do consulado dos EUA em Mumbai, deveria ter sido vendida há seis anos por US$ 110 milhões (aproximadamente R$ 616 milhões). Desde então, os Estados Unidos tentam transferir a propriedade para uma das famílias mais ricas da Índia, responsável por grande parte das vacinas contra a covid-19 fabricadas no país. Por razões desconhecidas, o governo indiano bloqueia a transação.

A disputa é “uma irritação desnecessária nas relações bilaterais”, disse o senador James E. Risch em uma pergunta a Blinken durante a audiência de confirmação. “Você se compromete a fazer da resolução da questão Lincoln House uma prioridade, em termos de Índia, e a direcionar o Embaixador dos Estados Unidos na Índia a fazer o mesmo?”

"Sim", disse Blinken, que nesta semana terá a chance de provar sua palavra.

Na terça-feira, ele deve chegar à Índia para sua primeira viagem ao país como secretário de Estado, e funcionários do Congresso e do governo afirmam que ele pretende trazer à tona a mansão decadente que está se tornando uma espécie de buraco negro diplomático.

Blinken tem um prato cheio em suas mãos. Ele tentará cobrir tudo rapidamente: cibersegurança, direitos humanos, mudança climática, assistência relacionada à covid, Afeganistão e até um acordo comercial que pode significar bilhões de dólares em novos negócios para a Índia e os Estados Unidos, se for assinado.

Mas Lincoln House se tornou um obstáculo inesperado. A correspondência diplomática de alto nível revela quanta atenção esta única propriedade tem consumido, indicando algumas das tortuosas reviravoltas da relação EUA-Índia, que muitas autoridades americanas esperam que se torne sua pedra angular na Ásia.

O ex-secretário de Estado Mike Pompeo expressou sua frustração no ano passado em uma carta ao ministro das Relações Exteriores da Índia, escrevendo que "o governo da Índia nunca nos forneceu qualquer resposta legal confiável ou explicação de por que bloqueou a transferência". “Lamentavelmente”, acrescentou Pompeo, “a saga da Lincoln House não está à altura dos padrões de nosso relacionamento”.

Um ano depois, com as contas de manutenção aumentando, a Lincoln House ainda não foi vendida, seus muros altos estão desmoronando, a pintura descasca e manchas de ferrugem escorrem pela calçada. Um edifício irregular, de aparência mal-assombrada e cor creme, a mansão fica em um dos enclaves mais desejáveis ​​de Mumbai - Breach Candy - a apenas alguns passos de onde as ondas suaves caem na costa.

Funcionários da administração do primeiro-ministro Narendra Modi atenderam aos pedidos para discutir o assunto com um silêncio impenetrável.

Mais de meia dúzia de funcionários, desde o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores até o coletor de Mumbai, envolvido no registro de transferências de propriedade, até o principal diretor-geral do Escritório de Informações à Imprensa, que lida com questões relacionadas ao escritório de Modi, não quiseram comentar.

As autoridades americanas estão além de irritadas.

Do ponto de vista dos EUA, não há motivos legais para bloquear a venda, e a Índia e os Estados Unidos deveriam ser amigos. As autoridades ressaltam que Washington apressou a assistência de inteligência e equipamentos para o frio no ano passado, depois que soldados indianos foram espancados por tropas chinesas ao longo de sua disputada fronteira com o Himalaia. E que quando a covid atingiu a Índia com força, os Estados Unidos enviaram ajuda médica no valor de quase um quarto de bilhão de dólares.

As autoridades americanas entrevistadas pelo The New York Times pareceram perplexas com a questão. Elas suspeitam que o governo de Modi não gosta da ideia dos Estados Unidos ganhando tanto dinheiro com o negócio, que seria uma das maiores vendas de casas na história da Índia. Ou talvez o governo Modi queira impedir que Lincoln House vá para os Poonawallas, que não estão entre o punhado de bilionários indianos que o apoiam. Ou talvez seja uma questão de orgulho e os funcionários se sintam desconfortáveis ​​com um governo estrangeiro simplesmente vendendo um pedaço icônico da história da Índia como qualquer outra propriedade.

A mansão de três andares foi construída na década de 1930 em estilo Indiano-Déco (imagine linhas Art Déco claras, com cúpulas arredondadas e malhas de janela ornamentadas) pelo Marajá de Wankaner, uma das centenas de Estados principescos que existiram sob o domínio britânico.

M.K. Ranjitsinh era o neto do marajá que o construiu. “Era muito moderna para a época”, diz sobre a casa, que tinha uma piscina e uma pista de dança de madeira (“não é como se a usássemos muito”, admitiu.)

Mas após a independência em 1947, os marajás perderam seus privilégios. A manutenção da casa - chamada Wankaner House na época - tornou-se cara demais para um pequeno aristocrata. Então, em 1959, a família Wankaner vendeu os direitos da propriedade (a Lincoln House está, na verdade, em um arrendamento de mais de 900 anos) ao governo americano por 1,65 milhão de rúpias, o que custaria cerca de US $ 350 mil na época.

Embora Nova Déllhi seja a capital da Índia, os Estados Unidos precisavam de algo grande e impressionante para um consulado em Mumbai e, em seguida, em Bombaim, a potência comercial do país asiático.

Alguns indianos têm boas lembranças de grandes soirées em Lincoln House.

“Havia belos terraços para que você pudesse ver o jardim abaixo”, conta Jeroo Mulla, um professor de mídia que visitou a mansão várias vezes desde 1975. “Era tão incomum. Não é como as outras coisas feias ao redor."

Mas, em 2011, os Estados Unidos abriram um consulado moderno em Mumbai. Era hora de dizer adeus a Lincoln House. Alguns anos depois, quando foi colocada no mercado, os Poonawallas a compraram.

A família administra o Serum Institute of India, o maior fabricante mundial de vacinas, com sede na vizinha Pune. Às vezes a família discorda do governo indiano por causa de restrições à exportação e outras questões, mas os dois lados precisam um do outro e minimizam suas diferenças.

Com uma queda por Ferraris e cavalos de corrida, os Poonawallas são conhecidos por viverem bem e disseram que planejavam usar o espaço de 15 mil m² como uma casa de fim de semana.

Em outubro de 2015, o Ministério das Relações Exteriores da Índia deu ao governo dos EUA permissão explícita para o negócio em uma carta dizendo “Este ministério gostaria de transmitir sua aprovação para a venda”.

Mas logo depois, outro braço do governo indiano, o Defense Estates Officer, se opôs, dizendo que os americanos não haviam avisado sobre a venda e a cessação do uso da propriedade dentro de um período obrigatório de 20 dias. As autoridades americanas responderam que não haviam finalizado a transação ou parado de usar a propriedade e, portanto, não haviam infringido as regras.

Depois que o governo indiano continuou a frustrar a venda, muitos funcionários americanos, incluindo dois embaixadores e Pompeo, entraram em cena, argumentando que a venda deveria ser realizada e pedindo ao governo Modi que ajudasse a concretizá-la. Os senadores dos EUA enviaram duas cartas a Modi. Eles nunca receberam uma resposta.

Se o negócio não for finalizado até o final de agosto, os Poonawallas têm o direito de desistir, de acordo com o contrato. Se o fizerem, o governo americano enfrentará uma pergunta cara: e agora?

Não há muitos outros compradores que podem gastar US$ 110 milhões em uma casa. E como a Lincoln House é uma propriedade histórica, seria difícil, de acordo com as regras de zoneamento atuais, derrubá-la e reconstruí-la. As autoridades americanas estão começando a temer que seja uma perda total.

Por meio de um porta-voz, Adar Poonawalla afirmou não querer comentar o caso. No ano passado, quando o assunto foi levantado em uma entrevista ao The Times, ele disse que a família ainda queria a propriedade e não sabia por que o governo estava bloqueando a venda. “Eu realmente espero que eles decidam de uma forma ou de outra”, disse ele.

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