Como vencer o ''buraco negro'' do Oriente Médio

Choque entre sionismo e nacionalismo palestino na Terra Santa ''engole'' tentativas [br]diplomáticas ao longo do tempo, derrotando qualquer tipo de solução para o conflito

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2010 | 00h00

O enviado americano ao Oriente Médio, George Mitchell, chegou e partiu, de novo, com as conversações de paz ainda paralisadas e um comentarista israelense, Yossi Sarid, ponderando que "o conflito israelense-palestino é um buraco negro que engole embaixadores de boa vontade ao longo das eras".

Não posso argumentar contra isso. Guerras frias veem e vão, novas tecnologias transformam o mundo, mas o choque entre sionismo e nacionalismo palestino na Terra Santa derrota qualquer solução.

Neste momento, o primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, acha que os palestinos estão indecisos e os palestinos acham que Netanyahu é um provocador desdenhoso (o principal negociador palestino, Saeb Erekat, caracterizou seu tom como, "Venha cá, garoto, nós sabemos o que é melhor pra você"). Já estão se sentindo otimistas? Eu confesso que estou - ou melhor, o desespero absoluto com o processo de paz quando cheguei a Israel abrandou. Tudo bem, isso não é exatamente otimismo, mas no Oriente Médio pequenas mercês contam.

A viagem de Mitchell não foi infrutífera. No meu entendimento, as conversações indiretas recomeçarão no próximo mês, com a equipe de Mitchell fazendo a ponte entre os dois lados. Israel se absterá de fazer provocações do tipo Ramat Shlomo (aquelas planejadas 1.600 unidades habitacionais em Jerusalém Oriental), e prometerá se tornar objetivo, sobre fronteiras principalmente. Os palestinos prometerão, bem, comparecer.

Mas não é essa a razão para a melhora do meu ânimo: é difícil comemorar conversações indiretas quando palestinos e israelenses com frequência mantiveram conversações diretas. Não, eu detecto três desenvolvimentos. O primeiro é Obama. O segundo e Fayyad. O terceiro é o que Danny Avalon, o vice-primeiro-ministro israelense, conhecido como o "comprimido de veneno coberto de açúcar" do status quo israelense. Vou considerá-los pela ordem.

Na semana passada, uma carta do presidente Barack Obama foi enviada a Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina. Nela, assim entendo, Obama falou de seu compromisso muito forte - compromisso sem precedente - com uma paz com base em dois Estados e disse que se Israel minar seriamente a confiança entre as duas partes, os Estados Unidos não impedirão uma resolução da ONU condenando isso. Não foi oferecida nenhuma definição americana do que seriam esses atos que solapam a confiança, razão porque Erekat pressionou Michell em sua reunião na última sexta-feira sobre o que constituiriam "ações provocativas" de Israel.

Parece claro, porém, que qualquer retomada do desastre Ramat Shlomo, com Obama furioso, satisfaria os critérios americanos. O ponto principal para Israel é: segurem a construção, segurem as propostas e segurem qualquer outra provocação enquanto Mitchell banca o intermediário.

A recalibração da diplomacia americana no Oriente Médio de Obama é transformadora. Ele está sendo esmurrado dos cantos de sempre, mas manterá o curso porque é realista e porque soldados lhe disseram que, com mais 200 mil militares americanos em países muçulmanos, conseguir que israelenses e palestinos vivam lado a lado em paz é um interesse de segurança nacional vital para os americanos. O cálculo, e não a consciência, está movendo a política.

Mudança. Há uma mudança real na nascente Palestina, também. Salam Fayyad, o primeiro-ministro palestino, é o fenômeno mais importante no Oriente Médio.

Fayyad é obcecado por segurança - uma obsessão refletida na hoje onipresente polícia da Autoridade Palestina na Cisjordânia - e por construir instituições do Estado e a economia. Ele não está interessado na "vitimização" palestina. Narrativas não alimentam uma família. Ele quer um futuro. Acredita que a não-violência é a maneira de chegar lá.

Ele está recebendo ajuda de Netanyahu na economia (precisa de mais, contudo) e a cooperação em segurança prossegue.

Com o tempo, Fayyad pode tranquilizar os israelenses de que eles terão um Estado confiável do outro lado da fronteira, e não algum Cavalo de Troia iraniano. A construção de instituições palestinas é a melhor resposta ao argumento de Israel de que "não há interlocutor". Dentro de Israel, uma economia em expansão e a tranquilidade na vida cotidiana sugeririam que a paz é uma baixa prioridade. No entanto, pesquisas de opinião mostram que uma maioria sente que o país está avançando na direção errada; escândalos da corrupção galopante apenas não podem explicar isso.

Como me disse Ayalon, "não temos uma fronteira oriental". Países sem fronteiras definidas têm dificuldade de acreditar que estão seguindo na direção certa. Isso me diz que Netanyahu tem um interesse potencial, a despeito do Hamas e de seus vídeos abjetos sobre o sequestrado Gilad Shalit, em sair do status quo para um status permanente. Mitchell acredita nisso. Ele perguntou sobre Netanyahu durante sua visita e, segundo notas que vi, respondeu: "Acredito que Netanyahu é sério, capaz e está interessado em chegar a um acordo. O que eu não posso dizer é se ele está disposto a concordar com o que é necessário para garantir um acordo."

Essa reunião terminou com Mitchell dizendo: "Você perguntou se eu acho que Netanyahu é sério. Eles fizeram a mesma pergunta. Você é um especialista em política palestina e israelense. Eles também são. Mas ninguém no mundo conhece a política americana melhor que eu, e isto eu direi. Nunca houve na Casa Branca um presidente que estivesse tão comprometido com essa questão, incluindo (Bill) Clinton que é um amigo pessoal, e jamais haverá, ao menos durante o tempo de vida de qualquer um nesta sala."

Não desistam ainda mesmo que a história, e o Hamas, digam que a paz é um castelo no ar e Mitchell o próximo da fila para aquele "buraco negro". / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É ESCRITOR BRITÂNICO E COLUNISTA

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