Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Como viver em um Estado falido?

Quando se fala de “Estado falido”, a imagem mais comum é a de um país africano muito pobre onde massacres, fome e epidemias são a norma e o governo existe mais para enriquecer os que detêm o poder que para prestar serviços públicos ou proteger a população. Não é o que vem em mente quando pensamos na Venezuela, com arranha-céus, bancos, rodovias, amplo histórico democrático e reservas de petróleo.

MOISÉS NAÍM E FRANCISCO TORO, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 05h00

O Estado venezuelano deixou de cumprir funções básicas: garantir ao cidadão o acesso a alimentos, medicamentos, a prestação de serviços públicos essenciais, uma condução mínima da economia e a defesa das fronteiras. A polarização política, a propaganda e a admiração romântica que ainda existe pelo carismático Hugo Chávez fazem com que os debates e as manchetes sobre a Venezuela ocultem a que extremos chegou o fracasso do governo e a tragédia humana. Mas, mais útil que o debate teórico sobre o fracasso do Estado é mostrar algumas situações do cotidiano que ilustram a crise e o roubo que consome esse pobre país rico da América Latina.

Maikel. Aos 14 anos, Maikel Mancilla lutava havia 6 contra a epilepsia. Sua doença estava controlada graças à lamotrigina, usada contra convulsões. Mas conseguir o remédio se transformou numa tarefa épica. À medida que aumentava a defasagem entre o custo real do medicamento e o preço autorizado pelo governo para venda, encontrá-lo ficou impossível. Em 11 de fevereiro, Yamaris, mãe de Maikel, deu ao filho sua última drágea de lamotrigina. Nenhuma farmácia a tinha mais remédios contra epilepsia. Yamaris recorreu às redes sociais, mas não teve sorte. Inevitavelmente, Maikel sofreu uma série de ataques cada vez mais graves, diante do olhar impotente da família. Em 19 de fevereiro, ele morreu de insuficiência respiratória.

O caso de Maikel não é único. O colapso da saúde e a falta de remédios causam mortes todos os dias. Doentes psiquiátricos que sofrem de esquizofrenia têm de se arrumar sem antipsicóticos. Dezenas de milhares de pacientes com aids lutam para encontrar os antirretrovirais. Para os diabéticos, conseguir insulina é problemático. Pacientes com câncer não dispõem de quimioterapia.

Herói da Fórmula 1. Enquanto os venezuelanos morrem por falta de remédios, o governo gastou dezenas de milhões de dólares por ano para assegurar que seu compatriota Pastor Maldonado pudesse competir na Fórmula 1. Maldonado, amigo das filhas de Chávez, não demonstrou muito talento - venceu apenas uma corrida em cinco anos. Não tinha importância. A estatal petrolífera, a PDVSA, gastava mais de US$ 45 milhões anuais para o piloto continuar correndo. 

Neste ano, Maldonado, cuja propensão a bater carro levou seus colegas a lhe darem o apelido de “Crashtor”, viu-se obrigado a abandonar o circuito quando a PDVSA, dilapidada pela corrupção e debilitada pela crise do petróleo, parou de financiá-lo. A generosidade dos presidentes com o petróleo venezuelano é lendária. O dinheiro do óleo foi distribuído pelo planeta, desde os US$ 18 milhões pagos a Danny Glover, em 2007, para produzir um filme ideologicamente apropriado (que ainda não foi concluído) até os milhões gastos para manter a economia cubana ou financiar partidos e movimentos de esquerda, de El Salvador à Argentina, passando pela Espanha e indo além. 

Crime e zika. A Venezuela sofre uma das piores epidemias de zika da América do Sul. O Instituto de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela é o lugar em que se confrontam a crise criminal e a emergência sanitária. O instituto foi assaltado 11 vezes nos dois primeiros meses do ano, o que deixou o laboratório sem um único microscópio. Claro, a resposta do país à epidemia nessas condições é precária. As tentativas para reparar o dano são prejudicadas pelas mesmas disfunções que atingem o resto da economia: não há dinheiro para substituir a caro equipamento importado roubado.

Outros aspectos do colapso do Estado também agravam a crise. A infraestrutura hidráulica das cidades venezuelanas está desmoronando depois de quase duas décadas de negligência e corrupção. As empresas de abastecimento de água têm respondido à queda do nível das reservas com severos racionamentos. Alguns bairros pobres passam dias, e até semanas, sem água corrente. A maioria das pessoas procura se adaptar, enchendo baldes quando o serviço é restabelecido, preparando-se para a seca. Naturalmente, armazenar água em baldes é a última coisa a ser feita quando a população enfrenta uma epidemia transmitida por mosquitos: os recipientes se convertem em criadouro para os insetos.

Eletricidade e injustiça. A seca que agrava o racionamento da água provocou uma queda no nível das hidrelétricas. Os apagões são comuns. As empresas têm problemas para manter água suficiente nas barragens para evitar o colapso total da rede elétrica.

Não havia razões para isso. Desde 2009 foram destinadas centenas de milhões de dólares para a construção de usinas elétricas movidas a diesel e gás natural, cujo objetivo era aliviar a pressão sobre uma rede hidrelétrica antiga. Boa parte da capacidade nunca chegou ao sistema e nunca foram prestadas contas sobre o dinheiro. Foi roubado. Nos EUA, duas pessoas foram condenadas, Na Venezuela, ninguém está investigando o assunto. É um reflexo simbólico da impunidade que reina em todos os setores do Estado, desde os crimes mais graves até as mais altas instâncias do governo. Em 4 de março, 28 mineiros desapareceram na selva, perto do Brasil. Testemunhas falaram de um massacre. Até agora, só foram presas quatro pessoas. Mas não são os culpados, mas sim familiares das vítimas que ousaram pedir justiça. 

Esses são apenas alguns casos que ilustram o colapso do Estado venezuelano. Tristemente, há muitos mais. Não é possível compreender a revolução bolivariana e seu fracasso sem incluir na análise o enorme impacto que teve o roubo do dinheiro público. Na Venezuela, a cleptocracia disfarçada de ideologia socialista e o amor aos pobres destruiu o Estado. É urgente começar a reconstrução de um país devastado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

MOISÉS NAÍM É COLUNISTA DO ‘ESTADO’ E FRANCISCO TORO É JORNALISTA 

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