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'Como você dorme à noite sabendo que bombas russas matam crianças?', jornalista questiona Lavrov

Uma jornalista questionou o chanceler russo sobre a invasão na Ucrânia durante uma entrevista coletiva, e foi acusada de fazer propaganda pró-ocidente

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 12h24

MOSCOU - O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, enfrentou diversas perguntas críticas de uma jornalista sobre a invasão da Ucrânia durante a entrevista coletiva online que fez nesta quinta-feira, 3. Em resposta, ele acusou a repórter de fazer propaganda pró-ocidente e ignorar as guerras que envolvem Estados Unidos e Europa.

Ela começou contando história de uma mulher que foi supostamente morta em Kiev em seu carro por soldados russos, então questionou:  "Senhor Lavrov, eu sei que o senhor tem uma filha. Quero que você me olhe nos olhos e me diga como que você dorme à noite sabendo que bombas e munições estão matando crianças?"

"Qualquer vida humana é preciosa", respondeu Lavrov. "Infelizmente, toda hostilidade resulta em mortes entre muitos civis. Nossas tropas que tem participado da operação especial tem a ordem estrita de usar armas de alta precisão para inoperalizar infraestrtura militar das tropas ucranianas." O termo "operação especial" é utilizado pela Rússia para se referia à invasão - o país proibiu veículos de imprensa de utilizarem "invasão" e guerra".

O chanceler continuou dizendo que "só poderia oferecer condolências" quando foi interrompido pela jornalista: "Centenas de civis já foram reportados mortos, isso já está sendo investigado pela corte internacional. Eu me pergunto se você está pessoalmente se preparando para uma defesa em um tribunal de crimes de guerra?"

Lavrov então muda o tom e começa a fazer acusações contra a repórter. "Eu entendo o seu desejo em fazer essas perguntas afiadas, você quer incitar a sua audiência. Esse é o seu trabalho. Não é sobre a mídia de massa, mas ser uma ferramenta para entrar na mente das pessoas. A exata coisa que os líderes do ocidente precisam." 

E continua: "De novo, vou reiterar que não vou justificar nenhum ação que leva à morte de civis, mas o dano colateral não foi gerado por nós mas por nossos colegas do ocidente."

O chanceler repete um discurso muito comum no governo russo que é citar a invasão americana no Iraque - feita sob falsos pretextos de armas de destruição em massa - e intervenções na América Latina e na Líbia. "Você tentou aplicar esse discurso emocionado quando milhares de pessoas morreram no Iraque ou na Líbia ou Síria?"

E mais uma vez a jornalista interrompe: "Você que começou essa guerra, esses sangues estão na sua mão, senhor Lavrov."

"Não vou jogar este jogo. Você fala agora como uma apresentadora de talk show". E finaliza sugerindo que ela estudasse os documentos no site do governo de Moscou citando supostas mortes de russos pelo governo ucraniano em Donbass.

Centenas de mortos e um milhão de refugiados 

Centenas de civis ucranianos morreram desde o início da invasão, que será investigada pelo procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), o britânico Karim Khan, por supostos crimes de guerra após as acusações de Kiev de bombardeios contra zonas residenciais.

"A invasão da Rússia abriu um novo e perigoso capítulo na história mundial", disse Michelle Bachelet, principal autoridade de direitos humanos da ONU. Segundo ela, a ONU já confirmou a morte de 227 pessoas, incluindo 15 crianças, mas enfatizou que “os números reais serão muito maiores” porque seu escritório não recebeu detalhes de vítimas de áreas de combate feroz. O governo ucraniano de Volodmir Zelenski já chegou a informar mais de 2 mil mortes até quarta-feira, 2.

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O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Nesta quinta-feira, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) atualizou os números de deslocados e informou que mais de um milhão de pessoas fugiram da Ucrânia em sete dias. Mais da metade delas seguiram para a Polônia. 

Os países ocidentais e seus aliados responderam à invasão com uma bateria de sanções para isolar a Rússia nas áreas diplomática, econômica, cultural e esportiva.

As tropas russas, que conseguiram assumir o controle da primeira grande cidade ucraniana desde o início da invasão, intensificaram os bombardeios contra outros centros urbanos, o que pode aumentar o número de civisi mortos rapidamente. A Rússia, porém, nega que esteja mirando edifícios civis e sim militares.

Uma delegação ucraniana estava a caminho para a segunda rodada de negociações com os russos - após o fracasso do primeiro encontro na segunda-feira./AFP e NYT

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