Comparando minha escolinha (global)

Se os que dizem que os Estados Unidos fracassaram em seu sistema educacional estão errados, os que afirmam que o país está indo muito bem também se equivocam

THOMAS L. FRIEDMAN*, THE NEW YORK TIMES

06 de abril de 2013 | 02h03

Houve um tempo em que pais de classe média nos EUA podiam ficar - e ficavam - contentes de saber que as escolas públicas de seus garotos eram melhores que as do bairro vizinho. Agora que o mundo encolheu, o bairro vizinho é Xangai ou Helsinque.

Por isso, em agosto do ano passado escrevi uma coluna citando Andreas Schleicher - que dirige o exame global que compara como alunos de 15 anos em escolas públicas de todo o mundo se saem em leitura aplicada, matemática e habilidades científicas - sugerindo imaginar, dentro de alguns anos, que a pessoa poderá inscrever-se num website e ver como sua escola se compara com uma escola similar em qualquer parte do mundo. Aí ela levaria essa informação ao superintendente de ensino local e perguntaria: "Por que não estamos nos saindo tão bem como escolas na China ou na Finlândia?"

Bem, esse dia chegou graças a um projeto piloto bem-sucedido envolvendo 105 escolas americanas recentemente concluído pela equipe de Schleicher na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o teste Pisa, e a equipe de Jon Schnur da America Achieves, que se associou à OCDE. A partir do último trimestre deste ano, toda high school (correspondente às três ou quatro últimas séries do ensino secundário no Brasil) dos EUA poderá se comparar às melhores escolas do mundo usando uma nova tecnologia na qual as escolas podem se registrar em www.americaachieves.org. Ela é comparável ao Pisa e mede o quão bem os alunos podem aplicar seu domínio de leitura, matemática e ciência a problemas do mundo real.

O estudo piloto foi descrito num relatório da America Achieves intitulado Middle Class or Middle of the Pack?. O relatório compara alunos de classe média americanos com seus pares globais de status socioeconômico semelhante nos exames Pisa 2009.

A má notícia é que os alunos de classe média americanos estão muito atrás de seus pares em âmbito global. "Muitos supõem que a pobreza nos EUA está puxando para baixo a pontuação geral americana", disse o relatório, "mas quando se divide cada país em quartos socioeconômicos, percebe-se que mesmo os alunos de classe média dos EUA estão atrás não só de alunos com vantagens comparáveis, mas também de alunos mais desprivilegiados em vários outros países". Os estudantes americanos do segundo quarto em termos socioeconômicos - a maioria de classe média alta - foram significativamente superados por 24 países em matemática e por 15 países em ciência, segundo o estudo. No terceiro quarto - a maioria de classe média baixa - os alunos americanos foram significativamente superados por pares em 31 países ou regiões em matemática e 25 em ciência.

A boa notícia, porém, disse Schnur, "é que documentamos, pela primeira vez, que há escolas americanas individuais que estão literalmente superando em desempenho todo país do mundo". "A BASIS Tucson North, uma high school não seletiva que atende a população de alunos de classe média economicamente modesta no Arizona, superou a média de todos países do mundo em leitura, matemática e ciência", segundo o relatório. Mas o piloto expôs também certa autocomplacência. "Uma escola que atende alunos similares aos de Woodson está atrás de 29 países em matemática, mas recebeu um A no sistema de responsabilidade de seu Estado com base principalmente em teste do próprio Estado", disse Schnur.

Paul Bambrick-Santoyo é diretor administrativo da North Star Academies em Newark, New Jersey, uma rede da Uncommon Schools com nove escolas especiais para alunos de baixa renda que tomou parte e ficou entre as 10 primeiras. "Nós sempre realizamos testes estaduais e SATs (sigla para testes de avaliação escolar)", ele me disse, "mas nunca tivemos um parâmetro internacional". "Essa foi uma oportunidade de ouro para ver em que pé estávamos - já que temos de preparar nossos garotos para o sucesso não só nesse país, mas num mercado global." Ele se declarou particularmente motivado pelo fato de que garotos de baixa renda de Xangai "terem podido superar" a maioria das escolas americanas, porque isso deu para sua escola um verdadeiro par internacional para referência.

"Tivemos 157 páginas de feedback" por participar no piloto, acrescentou Jack Dale, o superintendente das escolas do Condado de Fairfax, o que é muito valioso porque o teste Pisa expõe se os alunos de sua high school podem aplicar suas habilidades em matemática, ciência e leitura a problemas do século 21.

Qual é o segredo então das escolas com melhor desempenho? É que não há nenhum segredo. As melhores escolas, como revelou o estudo, têm bases sólidas e culturas que acreditam que tudo é possível com qualquer aluno. Elas "dão duro para escolher professores fortes com bom conhecimento de conteúdo e dedicação constante ao aprimoramento". Elas são "movidas por dados e transparentes, não só com relação aos resultados do aprendizado, mas também de habilidades secundárias, como completar o trabalho no tempo, perseverança - e pontualidade". E promovem "o envolvimento ativo de pais e famílias".

Se observar todos os dados, concluiu Schnur, fica claro que o desempenho educacional nos EUA não decaiu. Na verdade, o país melhorou um pouco. O desafio é que as mudanças na economia mundial continuam aumentando as dificuldades do que nossos garotos precisam para ter sucesso. Nossas modestas melhorias não estão acompanhando esse aumento das dificuldades. Os que dizem os EUA fracassaram estão errados. Os que dizem que estão indo muito bem, também. A verdade é que os EUA têm escolas secundárias que são as melhores do mundo. Só não as têm na quantidade suficiente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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