Kobi Gideon/Government Press Office/Reuters
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Compasso de espera

Extrema direita israelense gostaria que novo líder dos EUA enterrasse de vez ideia de dois Estados

Gilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2017 | 05h00

Uma das fraquezas - ou, talvez, uma das forças - de líderes com o estilo do novo presidente americano, Donald Trump, - personagem inexperiente que ignora códigos e vocabulários da política mundial, e se deixa levar pelos acessos de cólera - é que não sabemos nunca se os anúncios estrondosos que fazem para chegar ao poder serão acompanhados de resultados quando colocam suas garras nesse poder.

Charlatães, muito inteligentes, estranhos ao princípio da não contradição (uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo), desprovidos de superego e de escrúpulos, esses indivíduos têm sempre várias “verdades prontas” e escolhem uma ou outra segundo as necessidades do momento.

Neste instante, contudo, é preciso admitir que Trump parece perigosamente honesto, ou seja, vem aplicando as ideias, mesmo que estranhas ou barrocas, propostas durante sua campanha eleitoral sobre o Obamacare, o livre-comércio, etc.

E quanto a Israel? A questão está em aberto. No domingo, Trump, após um telefonema a Binyamin Netanyahu, não poupou elogios ao governo israelense. Mas evitou falar sobre sua promessa de transferir a embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém.

Essa transferência deixará extasiados os israelenses da extrema direita, pois colocará um fim definitivo à possibilidade de uma solução de dois Estados. Não devemos esquecer que, se for criado um Estado palestino, sua capital será em Jerusalém Oriental.

Trump, que se mostrou tão eloquente ao se referir a essa transferência da embaixada durante sua campanha, de repente emudeceu. Nenhuma palavra. Os jornalistas de Washington pressionaram seu porta-voz, Sean Spicer, para dizer se a transferência seria ordenada pelo presidente ou não. Ele respondeu que “o caso está apenas na sua fase preliminar”.

Essas hesitações e esses recuos certamente deixam Israel em polvorosa. Os deputados mais exaltados e a direita religiosa resmungam. E o líder dessa direita, Naftali Bennett, gostaria que a chegada de Trump à presidência americana enterrasse de uma vez por todas essa desagradável utopia de dois Estados.

E como o novo presidente americano se mostra muito prudente, vão obrigá-lo a agir. O mesmo Naftali Bennett conseguiu que fosse votado um projeto de lei que com o objetivo de legalizar uma centena de postos avançados erguidos sem autorização na Cisjordânia. E exige que o governo israelense anexe a colônia de Maale Adumim.

E quanto ao premiê israelense, Netanyahu? Silêncio. Mas não podemos dizer que ele seja “da paz”. Então, por que a prudência? Diríamos que ele não quer fazer nada que possa embaraçar Trump. Ele sabe que a transferência da embaixada é uma verdadeira “nitroglicerina” que pode incendiar todo o Oriente Médio.

O atual primeiro-ministro de Israel concordou com o princípio de dois Estados em 2009, mas é uma promessa antiga, caduca. Portanto, na verdade, ele segue a mesma linha da ultradireita de Naftali Bennett, mas prefere o método lento, progressivo e quase invisível. Sabe que anexar Jerusalém Oriental provocará enormes problemas com a Europa e até com o Tribunal Penal Internacional. Portanto, vamos em frente, mas devagar.

Além disso, o premiê sabe que o novo morador da Casa Branca, sem dúvida orientado por um de seus conselheiros, não pretende queimar as etapas. A ideia é conservar os mesmos objetivos, mas manter o sangue-frio. Dar tempo ao tempo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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