Complô contra Evo está cercado de mistério

Separação de Santa Cruz teria sido motivação de grupo de estrangeiros

Simon Romero, THE NEW YORK TIMES, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

Armados com fuzis de assalto, os membros do Grupo Delta, uma unidade de elite da polícia boliviana, esgueiraram-se silenciosamente pelas escadas até o quarto andar do Hotel Las Americas. Era madrugada, 4 horas, do dia 16 em Santa Cruz, a cidade do leste da Bolívia que se tornou baluarte da oposição contra o presidente da Bolívia, Evo Morales. Então, eles entraram em ação. Em questão de minutos, os policiais balearam e mataram três homens: Michael Dwyer, irlandês de 24 anos; Arpad Magyarosi, romeno de 39 anos e ascendência húngara; e Eduardo Rozsa Flores, de 49 anos, boliviano que possuía passaportes húngaro e croata e um passado nebuloso como líder de um grupo de estrangeiros que combateu em favor da Croácia na época do fim da Iugoslávia.Enquanto os cadáveres crivados de balas eram exibidos em rede nacional de TV, as autoridades afirmavam ter frustrado um complô para assassinar Evo, ex-líder cocaleiro detestado pela elite branca de Santa Cruz. Pouco depois da operação, forças de segurança descobriram um depósito de explosivos e armas que, segundo elas, estaria relacionado aos suspeitos mortos. "Esses terroristas estavam ligados à ideologia extremista da direita fascista", disse Álvaro García Linera, ex-guerrilheiro marxista e hoje vice-presidente boliviano. Mas o episódio, com a sua pitada de intriga balcânica, continua longe de ser um caso encerrado de rivalidade entre direita e esquerda. ÁREA CINZENTAEm vez disso, ele se encaixa em algum ponto da área cinzenta da política boliviana, na qual as denúncias de complôs para desestabilizar o governo (transformadas por Evo numa característica recorrente de seu mandato) e os desmentidos da oposição - que considera tais conspirações meras farsas - contribuem para o aumento da tensão entre o governo central e as regiões rebeldes. "Se a questão não fosse tão grave, os acontecimentos dariam um excelente roteiro de cinema, com sua mistura de farsa e tragédia", disse Jim Shultz, analista político de Cochabamba, cidade localizada no centro da Bolívia. Numa medida que irritou os líderes políticos de Santa Cruz, o governo central ordenou na semana passada o envio de mais de mil soldados à região. Juan Ramón Quintana, um dos principais assessores de Evo, disse que a decisão foi tomada em parte por causa da preocupação com a "presença de terroristas que representavam uma ameaça potencial ao Estado boliviano". Enquanto isso, as mortes levantaram uma série de perguntas espinhosas. Quem sustentava tal grupo? Como as autoridades o detectaram? Por que Evo enviou policiais da distante capital, La Paz, para lidar com eles? E quanto a Rozsa Flores, que foi poeta e correspondente de guerra antes de se envolver nos massacres dos Bálcãs?O que trouxe esse ex-morador de Santa Cruz de volta à terra natal? De fato, o mistério do caso envolve principalmente essa figura enigmática, tida como líder do grupo. Rozsa Flores deixou a Bolívia durante a adolescência, acompanhando os pais durante o exílio no Chile antes de se mudar para a Hungria, terra natal de seu pai, imigrante de origem judaica. Segundo suas entrevistas publicadas, em Budapeste, enquanto estudava linguística e literatura, Rozsa Flores disse ter entrado em contato com Ilich Ramírez Sánchez, o terrorista venezuelano conhecido como Carlos, o Chacal. Ao encontrar trabalho como correspondente de guerra para um jornal espanhol cobrindo a dissolução da Iugoslávia, Rozsa Flores abandonou a objetividade jornalística e envolveu-se pessoalmente no conflito. Comandou voluntários combatendo pela Croácia no início da década de 1990, mas sua experiência no campo de batalha foi manchada por alegações de que ele teria supervisionado a execução de dois cidadãos, um inglês e um suíço. Ao voltar à Hungria depois da guerra, Rozsa Flores converteu-se ao Islã, uma guinada em relação à sua associação anterior com a Opus Dei, grupo conservador católico. E ele descobriu uma nova obsessão política, explicando em entrevista concedida no ano passado a um jornalista húngaro que pretendia voltar à Bolívia para organizar uma milícia."O conflito armado faz-se necessário", disse ele na entrevista, que foi transmitida pela primeira vez na Hungria após a morte dele. "E não se trata de botar os rapazes para marchar na rua com bandeiras e paus." Na entrevista, Rozsa Flores foi além, dizendo que seu objetivo não era a deposição de Evo, mas a conquista da autonomia para Santa Cruz, a província mais rica da Bolívia. Antevendo a oposição de La Paz às suas pretensões, ele descreveu com indiferença seu objetivo: "Declarar independência e fundar um novo país." Durante o final de semana, um investigador apresentou um vídeo gravado com telefone celular, com áudio de má qualidade, no qual se afirmava que Rozsa Flores estaria debatendo um plano para assassinar Evo durante sua recente visita ao Lago Titicaca. TIROTEIOO vice-presidente disse inicialmente que os três suspeitos tinham sido mortos após um tiroteio de meia hora, mas aparentemente o relatório feito pela seguradora contratada pelo hotel e obtido pelo jornal La Razón não detectou sinais de troca de tiros. Dois homens capturados no hotel, o húngaro Elod Toazo e o boliviano Mario Tadik, parecem ter se rendido sem oferecer resistência. "O que ocorreu foi o assassinato de três pessoas que estavam dormindo, o que corresponde a homicídio", disse Oscar Ortiz, presidente do Senado boliviano e um dos principais opositores de Evo. Alfredo Rada, ministro de Interior, piorou a situação quando foi à TV com imagens de homens uniformizados e empunhando armas em Santa Cruz, afirmando que eles teriam relação com os suspeitos mortos. Mas os homens retratados na fotografia, que foi tirada de uma página da rede de relacionamentos Facebook, desmentiram o ministro ao explicar que eram praticantes de um jogo parecido ao paintball. FRASESÁlvaro García LineraVice-presidente da Bolívia"Esses terroristas estavam ligados à ideologia extremistada direita fascista"Oscar OrtizPresidente do Senado boliviano"O que ocorreu foi o assassinato de três pessoas que estavam dormindo, o que corresponde a homicídio"

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