Argentina Presidency/Handout via Reuters
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Macri recebe líder eleito e controle sobre dólar é acirrado

Limite de compra de US$ 200 por mês entra em vigor; dólar oficial se mantém estável, mas paralelo sobe

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial a Buenos Aires

28 de outubro de 2019 | 10h03
Atualizado 28 de outubro de 2019 | 22h56

Horas após de ser derrotado na noite de domingo em sua tentativa de reeleição, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, envolveu-se nesta segunda-feira, 28, em dois movimentos destinados a conter a desvalorização do peso em relação ao dólar e tranquilizar o mercado após o triunfo peronista. 

No plano político, Macri recebeu durante uma hora na Casa Rosada seu sucessor, Alberto Fernández, que obteve a vitória em primeiro turno, com 48,1% dos votos. Macri ficou com 40,3%, tendo sido computados 97% dos votos. Segundo relato de assessores, o encontro, no qual os dois ficaram sozinhos (a pedido de Fernández), foi amistoso.

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O peronista pediu a formação de uma equipe de transição, para a qual indicou cerca de 30 pessoas. Macri concordou. Ficou acertado também que o governo atual terá autonomia plena sobre as decisões até 10 de dezembro, data da posse.

Antes da votação, uma reunião tão imediata e cordial entre os dois adversários parecia improvável. Ambos trocaram acusações e Fernández chegou a dizer que não conversaria mais com o presidente. 

A reunião iniciada às 10h30 disputou espaço no noticiário local com o começo da vigência do limite imposto à compra de dólares. O Banco Central havia colocado uma barreira de US$ 10 mil por mês por pessoa após a vitória peronista nas primárias de agosto, em uma votação que serve como um simulado para a eleição real.

Hoje, a cota foi reduzida radicalmente a US$ 200 por pessoa por mês com débito em uma conta bancária em pesos. Este valor se aplica a transações cambiárias feitas no sistema financeiro. Os argentinos que quiserem comprar a moeda americana em efetivo só poderão adquirir US$ 100 por mês em espécie - esses valores não são cumulativos. Para quantias superiores será necessária uma autorização especial.

Já não residentes no país poderão comprar até US$ 100 por mês. "Quem já tiver comprado mais de US$ 200 em outubro e menos de US$ 10.000 não será penalizado", diz a nota divulgada pelo Banco Central.

O anúncio foi feito pelo Banco Central na noite de domingo, horas depois da vitória do peronista. 

"Na semana passada, observamos uma demanda importante por dólares. Dado o risco disso ser mantido nesta semana, decidimos aprofundar os controles. A partir de hoje (segunda-feira), reduzimos o valor máximo que as pessoas podem comprar para 200 dólares por mês", anunciou o presidente do Banco Central, Guido Sandleris.

Ainda de acordo com o Banco Central, este regulamento é transitório e mantém total liberdade para a retirada de dólares de contas bancárias, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. "(A medida) não afeta o funcionamento normal do comércio exterior ou do turismo", informou o órgão.

Redução das reservas da Argentina

Analistas acreditam que a medida tende no curto prazo a evitar a corrida pelo dólar oficial, o que levaria à consequente redução das reservas da Argentina, estimadas em US$ 45 bilhões. 

“É uma medida de emergência, prevista para vigorar até dezembro. Deve acalmar a demanda por dólar oficial, mas esse interesse deve se transferir ao mercado paralelo”, afirmou Martin Kalos, economista chefe da consultoria Elypsis.

Essa tendência foi confirmada hoje. No câmbio oficial, a moeda americana foi vendida a 63,5 pesos, permanecendo estável. No mercado paralelo, o dólar, cotado a 68 pesos na sexta-feira, passou a 74 pesos hoje.

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A decisão do Banco Central de restringir fortemente o acesso ao dólar, medida que os argentinos chamam de “cepo”, tem alto significado político. Uma das primeiras medidas de Macri ao assumir o poder, em dezembro de 2015, foi desfazer o controle imposto por Cristina Kirchner (2008-2015) no fim de seu mandato. Ele considerava o sistema incompatível com o projeto de abertura da economia. 

Macri, que em eleições parlamentares de dois anos atrás contava com aprovação suficiente para lhe garantir uma vitória na renovação parcial do Congresso, agora enfrenta uma forte crise econômica, que o obrigou a renegociar dívidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e se comprometer a cortar gastos.

A inflação está em cerca de 5% ao mês, o desemprego superou a casa dos 10% e a pobreza chegou a 35,4% dos argentinos. O governo disse hoje que retomará o diálogo com o FMI assim que Fernández definir a equipe que negociará com a instituição.

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