Comprimido diário pode reduzir risco de infecção por HIV

Dois novos estudos científicos revelaram que a ingestão diária de comprimidos do medicamento Truvada evitou que homens e mulheres heterossexuais da África fossem infectados com o vírus HIV, causador da aids. A descoberta anunciada hoje alimenta esperanças de que, um dia, será encontrada uma proteção médica contra o HIV.

MIKE STOBE, Agência Estado

13 de julho de 2011 | 16h54

"Esta é uma boa notícia e um bom dia para a prevenção contra o HIV", declarou a doutora Lynn Paxton, dos Centros e Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, nas iniciais em inglês), responsável pela coordenação da pesquisa realizada pela agência norte-americana.

No início deste ano, um outro estudo havia concluído que este mesmo medicamento não impedia que mulheres testadas no Quênia, Tanzânia e África do Sul contraíssem o vírus HIV. Mas agora os pesquisadores acreditam que esse primeiro estudo possa vir a perder validade por conta do sucesso dos outros dois anunciados hoje.

O primeiro destes dois novos testes, que foi coordenado pelo CDC, abrangeu mais de 1.200 homens e mulheres em Botsuana. Metade das pessoas submetidas ao teste foi medicada com comprimidos diários de Truvada, usado nas infecções por HIV, e desenvolvido pela Gilead Sciences Inc. Para a outra metade foi ministrado um placebo.

Exames realizados nas pessoas submetidas ao teste indicaram que quatro das que foram medicadas com o Truvada contraíram o vírus, comparado com 19 que receberam o placebo. Tal proporção significa que o medicamento reduziu o risco de infecção em aproximadamente 78%, disseram os pesquisadores.

O segundo estudo foi financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates e conduzido pela Universidade de Washington. Envolveu mais de 4.700 casais heterossexuais no Quênia e em Uganda. Em cada casal, um dos parceiros havia contraído o vírus HIV e o outro, não. Para os não infectados foram ministrados placebos, comprimidos de Truvada ou um remédio também desenvolvido pela empresa Gilead, o Viread. Neste caso, ocorreram 13 infecções pelo vírus entre os medicados com o Truvada, 18 entre os que tomaram o Viread e 47 entre os que ingeriram o placebo. Deste modo, os comprimidos reduziram o risco de infecção pelo HIV em 62% a 73%.

Uma comissão independente formada para revisar os testes afirmou no domingo que o benefício foi claro e por isso não deviam mais ser ministrados placebos e, em vez disso, que fossem oferecidos os comprimidos preventivos. Os integrantes da comissão consideraram antiético ocultar das pessoas que elas estavam sendo medicadas com placebo, disse o doutor Jared Baeten, pesquisador da Universidade de Washington que codirigiu o estudo. "Nossos resultados fornecem evidências claras de que o medicamento funciona no caso dos heterossexuais."

Em ambos os estudos, os participantes também receberam orientação e preservativos gratuitamente, o que pode contribuir para explicar a taxa de infecção, no geral, relativamente baixa. Os estudos deverão ser divulgados na íntegra durante uma conferência sobre a aids a ser realizada em Roma na próxima semana. Mas, seguindo a recomendação da comissão de revisão do estudo da Universidade de Washington, tanto a CDC quanto a equipe de Washington decidiram divulgar com antecedência as conclusões das pesquisas.

Histórico

Estes são o terceiro e quarto estudos extensamente anunciados sobre novos remédios para prevenção da aids. O primeiro foi anunciado no ano passado. Tratou-se de um estudo sobre os benefícios do Truvada para homossexuais no Peru, no Equador, no Brasil, na África do Sul, na Tailândia e nos Estados Unidos. O medicamento reduziu as chances gerais de infecção em 44%, mas alcançou 73% ou mais entre os homens que tomaram os comprimidos religiosamente.

Os especialistas comemoraram. Diante desses resultados encorajadores, o CDC aconselhou os médicos a prescreverem o Truvada, juntamente com outros tipos de prevenção, para homossexuais. Mas o entusiasmo parece ter arrefecido em abril, quando uma análise provisória dos testes realizados com o Truvada entre 3.900 mulheres de Quênia, Tanzânia e África do Sul concluiu não haver nenhum benefício claro.

Os cientistas ainda estão analisando por que esse primeiro estudo fracassou e os dois últimos tiveram sucesso. Uma das explicações possíveis é que as mulheres que participaram daqueles testes não tomaram a medicação com a frequência necessária, especulou a doutora Lynn Paxton.

A norte-americana Gilead Sciences é uma grande fabricante de medicamentos para o combate à aids. Ontem, autoridades da saúde da Organização das Nações Unidas (ONU) anunciaram que a empresa aceitou que alguns dos seus remédios sejam produzidos por fabricantes de medicamentos genéricos, o que aumentará potencialmente sua oferta nos países mais pobres. As informações são da Associated Press.

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