Computadores e pregos contra o ditador Assad

DAMASCO

, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Abdullah guarda em seu computador a foto de um dos primeiros mártires de Homs, um jovem de 19 anos chamado Amjad Zantah, que foi morto durante as tentativas do governo de esmagar a origem dos protestos na cidade. A questão que desperta perplexidade é como a juventude síria - a "shabab" - continuava lutando diante de uma violência tão intimidadora.

Como notebooks, celulares e armas simples, como pregos nas ruas, são páreo para um dos Estados mais temidos do mundo árabe? E como um eclético conjunto de esquerdistas, liberais, conservadores, nacionalistas e muçulmanos pode se unir para derrubá-lo? "A Tunísia venceu, o Egito venceu, e vamos vencer", disse Abdullah, questionado sobre a dificuldade de triunfar. "Não há como voltar atrás."

Abdullah tinha um diploma em economia e administração, mas os empregos eram escassos. O incentivo à revolta, porém, era mais ambíguo: estava cansado das humilhações, da propaganda, da hipocrisia e, agora, finalmente, poderia fazer algo. "Não vamos esperar para viver nossas vidas depois da queda do regime. Começamos a vivê-las no primeiro dia das manifestações."

Ele estima que cem pessoas organizam os protestos em Homs. Jovens usam braçadeiras designando a tarefa da qual são incumbidos: apartar brigas entre manifestantes ou limpar as ruas depois dos protestos.

Existe até uma comissão de saúde para tratar os feridos. Ninguém mais tinha coragem de ir aos hospitais por medo de serem presos ou mortos. Foram preparadas clínicas simples em bairros para tratá-los. "Há dez pessoas que pensam e cem que agem, mas as forças de segurança nunca descobrirão as identidades delas", disse. "Conseguimos criar um caos organizado."

Abdullah procura correspondentes nos bairros para atualizar a Redação dos Revolucionários de Homs, sua página no Facebook. Ele ainda planeja entrevistar testemunhas e convidar analistas para debater os acontecimentos do dia por meio do Skype.

Todos sabem que é melhor evitar conversas longas no telefone via satélite, interrompendo-as antes dos 12 minutos para escapar do rastreamento. Depois da chamada, era preciso remover o chip do celular por 20 minutos. Se fosse usado como modem, era preciso limitar o tempo máximo de acesso à internet a 5 horas.

Iyad, um dos amigos de Abdullah, descreve o sentimento dos opositores. "Não há como voltar atrás. Temos de nos livrar de Assad, de todos eles. Se não nos livrarmos deles, vão contra-atacar com todas as forças." / NYT

Violência

2.200 pessoas morreram e milhares foram presas na repressão das forças de segurança durante os quase seis meses de protestos contra o governo de Bashar Assad

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