Comunidade cristã sofre com violência em Gaza

A pequena comunidade cristã da Faixa de Gaza, cerca de 2 mil pessoas, está de luto. A guerra entre Israel e o grupo radical islâmico Hamas matou um dos fiéis da Igreja Ortodoxa de São Porfírio, do século 12, onde, na sexta-feira de manhã, foi celebrada uma missa com mais de cem pessoas em memória da vítima.

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / GAZA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h06

De acordo com o relato de amigos que participavam da cerimônia, Salem Bolos Suelem, um carpinteiro de 54 anos, era vizinho de um prédio no centro da Cidade de Gaza que foi duramente bombardeado por Israel.

Os oito dias de violência, na semana passada, "transformaram a vida de todos no isolado território palestino - e os cristãos não são exceção", afirma Nabil Ayad, primo de Suelem e zelador da igreja de nove séculos.

Questionado sobre como é viver sob o governo islâmico do Hamas, que fechou os cinemas de Gaza e pressiona as mulheres a usar o véu, ele muda o assunto da conversa. "Contra Israel, estamos todos unidos", repete várias vezes. "Há cristãos em grupos como Fatah, a Frente Popular Pela Libertação da Palestina e muitos outros. Sempre lutamos contra a ocupação."

A história dos cristãos de Gaza tem milênios, mas apenas alguns ficaram para contá-la. Desde 1967, quando Israel ocupou a faixa mediterrânea que antes era do Egito, a maior parte decidiu emigrar para países como Canadá, EUA e Austrália.

A comunidade da Igreja de São Porfírio é próspera para os padrões de Gaza e, entre os fiéis, há vários profissionais liberais e empresários. No entanto, ela continua encolhendo, enquanto jovens deixam o território palestino à procura de melhores empregos no exterior.

A última vez em que um membro da igreja morreu por "motivos políticos", na expressão de Ayad, havia sido em 2007, na luta entre o Hamas e a facção Fatah. Desde então, o grupo islâmico fundamentalista controla a Faixa de Gaza e Israel impõe um bloqueio ao território.

Um dos que foram à missa de sexta-feira afirma que "se incomoda" ao ver como o radicalismo islâmico é cada vez mais forte no território palestino. Ele diz se lembrar da época em que mulheres podiam ir à praia com roupas de banho. A costa da Gaza hoje é vazia.

A relação entre os cristãos e o Hamas é um tabu nas conversas. Publicamente, vários contam histórias de como a comunidade já ajudou militantes do Hamas a fugir de soldados israelenses ou contrabandear coisas do Egito para Gaza.

No entanto, na conversa de canto, após a missa, aparecem reclamações sobre como a facção islâmica está mudando a cultura e impondo valores que são estranhos à comunidade cristã em Gaza.

Mobilização. Há alguns meses, um escândalo mobilizou os fiéis. Dois cristãos, um homem de 25 anos e uma mulher de 31 anos, supostamente teriam sido forçados a se converter ao Islã. Revoltados, os fiéis da igreja ortodoxa organizaram um protesto diante da Igreja de São Porfírio, mas a polícia - ligada ao Hamas - diz que os dois decidiram se tornar muçulmanos por vontade própria.

A versão da família dos dois convertidos é que eles foram levados à força para um centro islâmico diretamente ligado ao movimento que governa Gaza e mantidos presos até aceitarem abandonar a fé cristã.

O Hamas colocou na internet um vídeo em que a mulher aparece dizendo ter se convertido por que quis. "Vivemos agora com uma família islâmica, ela nos ajuda e nos ensina a rezar. Temos tudo o que precisamos", afirma Hiba Daoud no vídeo.

Em culturas do Oriente Médio, a mudança de religião é geralmente vista como uma traição à sua cultura, motivo de grande desonra para a família. Fiéis de São Porfírio dizem que a mulher foi coagida a gravar o depoimento.

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