Comunidade islâmica se revolta e compara o papa a Hitler

Muçulmanos de todo o mundo reagiram com indignação e revolta às declarações do papa Bento XVI, que em um discurso na terça-feira na Alemanha criticou o conceito de guerra santa. Na Turquia, o partido do governo comparou o papa a Hitler e Mussolini; no Líbano, líderes exigiram a retratação pessoal do pontífice. Em outros países, manifestações e ataques ao Vaticano marcaram o dia. O partido do governo turco juntou-se à onda de críticas ao papa acusando-o de tentar reviver o espírito das Cruzadas. Líderes muçulmanos do Oriente Médio se mostraram consternados. "Bento, autor dessa frase tão infeliz e insolente adverte que ele vai descer na história com suas palavras. No entanto, ele está descendo na história à mesma categoria que líderes como Hitler e Mussolini", enfatizou o líder do partido do governo turco, Salih Kapusuz. No Paquistão, o parlamento condenou por unanimidade as declarações.Já no Líbano, um clérigo muçulmano exigiu que Bento XVI peça desculpas pessoalmente. "Nós não vamos aceitar desculpas através de canais oficiais do Vaticano. Nós pedimos a ele que faça uma retratação publica", disse o ayatollah Mohammed Hussein Fadlallah nesta sexta-feira durante um sermão.A grande preocupação é que os discursos inflamados das lideranças islâmicas desencadeiem uma onda de manifestações gigantescas e atos de vandalismo semelhante à reação à publicação das charges do profeta Maomé por um jornal dinamarquês, no início do ano.Atentado em GazaUm grupo detonou nesta sexta-feira uma bomba de fabricação caseira na entrada de uma igreja da Cidade de Gaza, aparentemente como reação às críticas do papa Bento XVI contra o Islã, feitas durante sua viagem à Alemanha, informaram fontes policiais.A explosão não deixou vítimas, mas causou danos materiais na igreja, pertencente à corrente romano-ortodoxa, situada no bairro de Zeitun.A pequena comunidade cristã em Gaza, com cerca de 3.500 paroquianos em meio a 1,5 milhão de muçulmanos, conta com quatro igrejas, incluindo uma católica apostólica romana e uma anglicana. Fontes policiais da Autoridade Nacional Palestina (ANP) disseram que autoridades investigam o ataque que, por enquanto, não foi assumido por nenhuma facção. Mais tarde, cerca de dois mil palestinos saíram às ruas de Gaza para se manifestar contra as declarações de Bento XVI. Foi o maior protesto registrado ao longo do dia, e contou com o apoio do premier palestino, Ismail Hanyie, do Hamas, que classificou as manifestações como uma forma "para expressar a raiva palestina em relação aos comentários que ofenderam o Islã e os muçulmanos". "Em nome do povo palestino, que vive na terra sagrada da Palestina, expressamos nossa rejeição aos comentários feitos pelo papa ao Islã sobre fé, sua lei religiosa, história e modo de vida", afirmou Hanyie. "Pedimos ao papa que reconsidere sua declaração e pare de ofender a religião islâmica que tem um bilhão e meio de seguidores", disse o premiê. Visita à TurquiaAli Bardakoglu, clérigo turco do Diretório de Negociações Religiosas, exigiu que Bento XVI pedisse desculpas sobre suas afirmações e fez uma série de acusações ao Cristianismo, aumentando a tensão antes da visita de Bento XVI a Turquia, planejada para novembro. Esta será a primeira passagem de Joseph Ratzinger, na qualidade de papa, a um país islâmico.Bardakoglu afirmou estar profundamente ofendido e chamou as afirmações de Bento XVI de "extraordinariamente preocupantes, tristes e inoportunas".Nesta sexta-feira, Salih Kapusuz, líder do partido do primeiro-ministro turco, afirmou que o discurso de Bento XVI é "resultado da desprezível ignorância" sobre o Islã e de seus profeta, ou pior, uma distorção deliberada da realidade. "Ele tem uma mentalidade obscura que vem do tempo da Idade Média. É uma pessoa pobre que não foi beneficiado com o espírito de reforma do mundo cristão", afirmou Kapusuz durante declarações à agencia de notícias estatal Anatólia. "Parece uma tentativa de reviver o período das Cruzadas".Oficiais do governo libanês afirmaram que o embaixador do país no Vaticano foi instruído para pedir explicações sobre as declarações feitas por Bento XVI.Na Síria, país de maioria muçulmana, autoridades enviaram uma carta ao papa dizendo que os comentários do pontífice vão interferir nas relações com o mundo islâmico.No Cairo, aproximadamente 100 pessoas protestaram contra o Vaticano em frente a mesquita de Al-Azhar, na capital do país. O Parlamento paquistanês adotou por unanimidade uma resolução condenando as declarações do papa, que foram chamadas de "depreciativas" e pediram que Bento XVI se retratasse.O Ministro do Exterior paquistanês afirmou que as declarações do papa são "lamentáveis". "Qualquer pessoa que descreva o Islã como uma religião intolerante encoraja a violência", afirmou o Tasmin Aslam, porta-voz do Ministério."O que ele fez foi citar declarações ofensivas de imperadores de centenas de anos atrás", segundo Aslam. "As declarações não foram úteis porque tentamos superá-las, chamando para um diálogo e entendimento entre as religiões", afirmou.Aslam afirmou que os muçulmanos tem uma longa história de tolerância, acrescentando que quando o rei da Espanha expulsou os judeus do reino em 1492, eles foram bem-vindos pelas nações muçulmanas do Império Turco Otomano.VaticanoO porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que a intenção da igreja é "de cultivar uma posição de respeito e diálogo com outras religiões e culturas, e isso claramente inclui o Islã". Mas a declaração não teve o efeito desejado. Lombardi insistiu que o papa respeita o mundo islâmico e que Bento XVI quer "cultivar o respeito e o diálogo com outras religiões e culturas".O Vaticano disse que o papa não quis ser ofensivo durante seu discurso numa universidade da Alemanha. Falando sobre guerra santa, o papa citou Manuel 2º, Imperador cristão ortodoxo que na Idade Média dominava Bizâncio, área que compreende a atual Turquia. "Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava", teria dito o imperador católico, segundo Bento XVI. O papa alemão disse e repetiu que apenas citava palavras que não eram suas, e acrescentou que a violência é "incompatível com a natureza de Deus e da alma".Texto atualizado às 20h25

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