Comunidade judaica de NY vive os piores distúrbios da década

A detenção de um idoso acendeu esta semana o pavio dos piores distúrbios da década envolvendo a comunidade judaica de Nova York, e ainda alimentou uma polêmica na qual alguns acusam a polícia de racismo e outros, de frouxidão com os israelitas. Os incidentes começaram depois de a Polícia deter, na terça-feira à noite, Arthur Schick, de 75 anos, e se prolongaram durante horas em Borough Park, no Brooklyn, reduto da seita hassídica, cujos integrantes professam o judaísmo mais ortodoxo e se caracterizam por demonstrações de alegria, como cantos e danças. Dois agentes feridos, duas viaturas da Polícia destruídas, várias vitrines quebradas e dezenas de fogueiras nas ruas: esse foi o resultado da revolta de aproximadamente mil pessoas diante da passividade das forças policiais, acusadas por Schick de maus-tratos durante a detenção. "Vamos te tratar como um negro" foi, segundo Schick, o que os agentes lhe disseram. O idoso garante ter sido posto "de bruços no assoalho" de uma viatura policial depois de ser detido por falar ao celular enquanto dirigia. O comissário de segurança da cidade de Nova York, Ray Kelly, expressou no dia seguinte sua "plena confiança nas forças da Polícia" que, segundo ele, "agiram corretamente". Mas as declarações de Kelly não acabaram com a polêmica. Para piorar ainda mais as coisas, o chefe policial Joseph Esposito chamou os manifestantes de "fucking jews", algo como "judeus de merda". Além das críticas à suposta atitude dos agentes com Schick e às palavras de Esposito, a Polícia foi criticada pela permissividade durante as desordens. Além de Schick, apenas duas pessoas foram detidas apesar da forte presença policial. Os agentes foram agredidos e insultados por manifestantes que os chamaram, em coro, de "nazistas". Nomeado pelo prefeito de Nova York - o judeu Michael Bloomberg -, Kelly negou que a Polícia do Brooklyn tenha recebido a ordem de não reprimir os manifestantes. Mas surgiram vozes discordantes dentro das próprias forças da ordem. "Definitivamente, o tratamento a essa comunidade (judaica) é totalmente diferente se compararmos estas desordens a outras manifestações, como os desfiles de porto-riquenhos e as celebrações hispânicas", afirmou o presidente da Associação Nacional de Policiais Latinos, Anthony Miranda. Em declarações publicadas pelo jornal "La Prensa", Miranda disse que "nos desfiles porto-riquenhos e nas celebrações hispânicas, os indivíduos são logo detidos, suas impressões digitais são tiradas e eles são apresentados ao juiz e acusados de obstrução à autoridade e de conduta desordeira". Não é a primeira vez que ocorrem distúrbios em Borough Park, bastião dos aproximadamente 30.000 integrantes da seita hassídica que moram em Nova York. Atualmente, mais de meio milhão de judeus vivem na "Big Apple", que até 1948, quando foi fundado o Estado de Israel, era a cidade com a maior comunidade judaica do mundo. Borough Park já tivera revoltas em 1978, quando um morador foi esfaqueado, e em 1999, depois de a Polícia abrir fogo contra um deficiente mental que portava um martelo. Naquelas ocasiões, também houve acusações de indulgência oficial. Mas nesta década ainda não haviam sido registrados incidentes violentos no reduto da comunidade hassídica, cada vez mais isolada devido ao estabelecimento, nas proximidades, de novos grupos de imigrantes. Como acontece em Mea Sharim, bairro ortodoxo judaico de Jerusalém, em Borough Park as mulheres só saem às ruas de peruca e os homens usam chapéus e vestem sisudas roupas pretas.

Agencia Estado,

08 Abril 2006 | 14h42

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