Kamil Zihnioglu / AP
Kamil Zihnioglu / AP

Concessão de Macron aos coletes amarelos custará € 2 bilhões aos cofres da França

O presidente francês atingiu um novo recorde negativo de popularidade entre a população em razão da reação considerada lenta frente aos protestos

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2018 | 12h31
Atualizado 06 Dezembro 2018 | 16h25

PARIS - A suspensão do aumento nos impostos sobre os combustíveis, anunciada pelo governo francês para apaziguar as manifestações dos coletes amarelos, custará € 2 bilhões aos cofres públicos da França, disse um funcionário da administração à Reuters nesta terça-feira, 4.

Esse buraco nas finanças públicas será financiado por um corte de gastos do orçamento governamental para que o déficit orçamentário não se desvie da meta de 2.8% em 2019, segundo a Reuters.

Nesta terça, o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, anunciou um adiamento de seis meses no aumento dos impostos sobre a gasolina e diesel, que entrariam em vigor a partir de janeiro de 2019. “Nenhum imposto pode colocar a unidade da nação em perigo”, anunciou nesta manhã.

“Alguém precisaria ser surdo e cego para não ver e não ouvir a raiva”, afirmou Philippe, dizendo que o sentimento veio da “França que trabalha, e trabalha muito, e está tendo problemas em encontrar seus objetivos.”

Além da suspensão do aumento, o governo vai adiar uma nova inspeção veicular e os aumentos dos tributos sobre o gás e a eletricidade. Mas não se sabe se isso será o suficiente para a acalmar os ânimos dos franceses. As reações iniciais dos manifestantes após o anúncio do primeiro-ministro foram negativas.

“Nós não estamos satisfeitos porque os franceses têm lutado por anos”, disse a um canal de televisão Benjamin Cauchy, um dos porta-vozes do movimento. “Isso poderia ter sido feito semanas atrás, e nós teríamos evitado todos esses problemas. Nossas demandas são muito maiores que essa moratória. Eles precisam parar de atingir as carteiras dos que ganham pouco. Nós queremos uma melhor distribuição de riqueza, aumentos salariais. É sobre toda a baguete, e não migalhas.

Lionel Cucchi, outro porta-voz do movimento, disse que os manifestantes estão preparados para continuar. “Não há garantia de que (o imposto) não vai voltar em seis meses”, disse. “Haverá protestos. Nós continuaremos mobilizados.”

As medidas foram uma resposta do governo da França às manifestações dos coletes amarelos, que desde 17 de novembro tomaram as ruas do país, em, protestos que deixaram três mortos e mais de 400 feridos. Entre as demandas dos protestos, estavam melhoras nas condições de vida e o abandono do aumento do imposto sobre os combustíveis, criado pelo governo para desestimular o uso de combustíveis fósseis, uma das agendas verdes da atual gestão.

O recuo é visto como um ponto decisivo para o governo do presidente Emmanuel Macron, que assumiu o cargo em maio de 2017. Ao contrário de seus antecessores, o francês havia ficado conhecido por não ceder a pressões populares.

Recorde negativo

As taxas de aprovação de Macron e de Philippe atingiram um novo recorde negativo em razão da forma como o governo francês tratou os protestos dos coletes amarelos, segundo uma pesquisa conduzida pelo Ifop-Fiducial e divulgada pela revista Paris Match e pela Sud Radio nesta terça.

O total de franceses que apoiam o presidente caiu para 23% de acordo com o levantamento feito na semana passada, 6 pontos porcentuais abaixo do registrado no mês passado. Já os que veem como positiva a condução política de Philippe caíram 10 pontos, ficando em 26%.

Os índices do presidente francês são iguais aos registrados por seu antecessor, François Hollande, no mesmo peírodo de governo, 18 meses, em dezembro de 2013, segundo a Paris Match.

O aumento de imposto previa apenas alguns centavos por litro, mas a proposta foi a gota d’água para os franceses, que têm uma das cargas tributárias mais altas da Europa. Muitos protestaram em pequenas cidades do interior, onde o padrão de vida caiu com a estagnação de salários. 

O aumento faz parte de uma série de reajustes que ajudariam a financiar a transição para a energia limpa, mas acabou dando vida aos coletes amarelos – que ganhou esse nome em razão da peça obrigatória para os motoristas. O movimento acabou se tornando um protesto geral contra as políticas fiscais de Macron, vistas como favoráveis aos mais ricos. 

Os manifestantes reclamam que seu poder de compra diminuiu tanto que ninguém conseguem mais pagar as despesas correntes, especialmente em áreas em que o carro é crucial. Para a maioria, Macron está preocupado com o “fim do mundo”, enquanto eles se preocupam com o “fim do mês”. 

Pelo terceiro sábado seguido a violência tomou conta da França, especialmente de Paris, onde manifestantes entraram em confronto com a polícia, incendiaram carros, quebraram vitrines de lojas, agências bancárias e picharam muros. No Arco do Triunfo, os eles deixaram um recado a Macron: “Já cortamos cabeças por muito menos do que isso”, dizia uma pichação. / REUTERS e NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.