Concessões necessárias

Acordo nuclear demanda do Irã e do Ocidente sacrifícios, sobretudo dentro de casa

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2014 | 02h07

Ficaram altas as expectativas depois que o Irã e as grandes potências firmaram um acordo provisório sobre o programa nuclear de Teerã. Na semana passada, porém, elas diminuíram acentuadamente quando autoridades iranianas fizeram comentários públicos duros, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, reafirmou sua oposição a praticamente qualquer acordo e vários senadores americanos influentes ameaçaram aprovar novas sanções.

Isso não significa que um acordo final com Teerã é impossível, mas que ambos os lados, Irã e Ocidente, devem começar a pensar criativamente sobre como transpor os grandes obstáculos - que não estão no exterior, mas dentro de casa.

As declarações iranianas que mais chamaram a atenção vieram do chanceler e do presidente. O primeiro, Mohamad Javad Zarif, explicou a Jim Sciutto da CNN que, ao contrário do que Washington havia repetidamente afirmado, o Irã "não concordou em desmantelar nada". Mais tarde, numa entrevista para mim, também na CNN, o presidente Hassan Rohani explicou que o Irã não destruiria nenhuma de suas centrífugas existentes. Ele também me indicou que Teerã não fecharia seu reator de água pesada em Arak, um ponto contencioso com o Ocidente, temeroso de que a instalação possa produzir plutônio para ser usado na fabricação de uma bomba.

Irã e EUA têm visões fundamentalmente distintas sobre um acordo final aceitável. Com base em minha entrevista com Rohani e outras autoridades iranianas, minha impressão da visão iraniana é a seguinte: o Irã fornecerá ao mundo garantias e evidências de que seu programa nuclear tem fins civis, e não militares. Isso significa que o país permitirá níveis sem precedente de inspeções intrusivas em todas instalações. Esse processo já começou. O acordo provisório dispõe sobre inspeções internacionais a unidades de produção de centrífugas, minas e fábricas do Irã. Na semana passada, pela primeira vez em uma década, inspetores entraram em minas iranianas.

Mas as autoridades iranianas estão determinadas a não aceitar nenhuma restrição a seu programa. Elas falam com frequência na importância de o Irã ser tratado como qualquer outro país signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o que para eles significa ter o direito inalienável de enriquecer urânio para produzir eletricidade. Aliás, o TNP não diz nada especificamente sobre atividades de enriquecimento.

Muitos países com usinas de energia nuclear não enriquecem, mas outros o fazem, o que permite ao Irã alegar, razoavelmente, que o enriquecimento tem sido até agora uma atividade aceita. O único critério que o tratado realmente estabelece é que toda produção nuclear deve ter "fins pacíficos".

A visão americana do acordo final é muito diferente e decorre da noção de que o Irã precisa dar passos especiais para dar garantias de que seu programa é pacífico. Ela permitiria que Teerã enriqueça uma quantidade pequena, simbólica, de urânio, até um teor de 5% (no qual ele demandaria tempo para ser convertido num teor para a produção de armas). Além disso, iranianos desmantelariam milhares de suas centrífugas instaladas e fechariam seu reator de água pesada. Washington quer estender o tempo que separa um programa civil de um militar.

Ambos os lados terão de repensar suas preocupações centrais. As autoridades iranianas terão de aceitar o fato de que seu país está sendo tratado de maneira diferenciada e por boas razões. O Irã tem um programa que é suspeito - um investimento maciço para produzir uma quantidade minúscula de eletricidade - e o país enganou o mundo sobre seu programa no passado. Washington terá de reconhecer que, embora vá obter mais concessões do que considerava possível com inspeções, obterá menos sobre o recuo do programa existente do Irã. Se ele puder garantir que tem um tempo de preparação - seis a nove meses - essa é uma conquista significativa. Afinal, se Teerã expulsar os inspetores, Washington não precisa de seis meses para reagir.

Há concessões criativas capazes de transpor muitas diferenças. Colin Kahl e Joseph Cirincione, da Universidade de Georgetown, que trabalham nessas questões, assinalaram que se poderiam fechar centrífugas sem destruí-las.

É melhor que os dois lados comecem a preparar o terreno domesticamente para um acordo final - e as concessões que ele envolveria - em vez de esperar que, de algum modo, se funcionou em Genebra, funcionará em casa também. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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