Matias Baglietto/REUTERS
Matias Baglietto/REUTERS

Conciliação exige que Cristina e Fernández abram mão de algo; leia análise

Em vez de buscar soluções, resposta do peronismo foi um confronto entre suas duas figuras-chave

María Matilde Ollier ⃰, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 05h00

Para entender a crise, ainda em desenvolvimento, que ocorre na Argentina, é preciso voltar aos seus antecedentes distantes e imediatos. Os primeiros referem-se a uma anomalia política instalada desde a origem do atual governo pelo qual a vice-presidente, Cristina Kirchner, elege seu companheiro de chapa, Alberto Fernández, como presidente. Desta forma, ela estava em condições de retornar ao poder, algo que seus 30% de fluxo eleitoral e seu perfil radicalizado não possibilitavam. Fernández, um moderado, deu-lhe os 20% restantes. A aposta ficou completa com a participação de outro peronista, Sergio Massa, que havia rompido com Cristina, derrotando-a, em 2013, na poderosa Buenos Aires.

O experimento, um pan peronismo feito de seus diferentes fragmentos, não só carecia de um único líder, mas também tinha uma liderança de duas faces: CFK detinha o poder real (ela comanda Buenos Aires, preside o Senado com seu próprio quorum e seu filho é o chefe do bloco peronista na Câmara dos Deputados) e o poder formal do presidente, sem qualquer pretensão de construir seu próprio espaço.

O duplo comando teve repercussões na gestão do governo, quando a vice-presidente passou a intervir, empurrando sua radicalização; e, aos poucos, foi se resolvendo a seu favor, não só porque todos os ministérios contavam com figuras de seu rebanho, mas também porque CFK expressou publicamente a Fernández a existência de “funcionários que não trabalham”, ocasionando a saída da Ministra da Justiça (uma área sensível para CFK, que responde a vários processos judiciais).

Na mesma época, o ministro da Economia não pode demitir um subsecretário respaldado pela vice, entre tantos outros episódios. As tensões entre cristinistas e albertistas tornaram-se um problema político e de gestão, somando-se aos inúmeros erros presidenciais  na luta contra a covid e nas áreas educacional, econômica e social.

Nesse quadro, o gatilho imediato emerge. Antes das eleições, CFK alertou o presidente da necessidade de fazer mudanças no gabinete para melhorar a atuação do governo e, aliás, avançar sua participação: o chefe da Casa Civil e o ministro do Turismo deveriam ser chefes da lista em Buenos Aires, província e cidade. O presidente recusou, colocando dois outros candidatos seus nesses lugares. A fórmula pan-peronista, útil para vencer as eleições presidenciais de 2019, provou ser um fracasso no governo, conforme revelado pela derrota esmagadora - em 17 das 24 províncias - nas eleições primárias de domingo.

Na tentativa de reverter os resultados das eleições gerais de novembro, a vice-presidente voltou a propor mudanças urgentes, visando ao chefe do gabinete. Mas o presidente considerou que elas deveriam ser feitas após as eleições gerais.

Além das duas versões que circulam sobre se na noite de segunda-feira os dois chefes de governo organizaram mudanças em novembro ou não, uma série de funcionários importantes, incluindo ministros, como o do Interior, apresentaram sua renúncia, alguns informalmente; pegando Fernández de surpresa, que descobriu na mídia. Desencadeia-se uma crise no governo, latente desde a sua origem, e que não é apenas produto da derrota, mas também do desígnio governamental que o levou à Casa Rosada.

Em vez de buscar soluções, a resposta do peronismo é um confronto entre suas duas figuras-chave. Com o passar das horas, o presidente recebeu o apoio de vários governadores peronistas, da Confederação Geral do Trabalho e de alguns movimentos sociais. Como Fernández não aceitou imediatamente as demissões (formais ou informais é um detalhe), a queda de braço continua, embora a ruptura da coalizão não pareça ser o caminho escolhido por ele. Diante do fracasso eleitoral, essa crise em meio a uma eleição que ainda não terminou, enfraquece ao invés de fortalecer o governo.

Mas a conciliação exige que cada um abra mão de algo. Nesse caso, o desafio que virá passa fundamentalmente pela recomposição do vínculo entre o presidente e sua vice; algo bastante difícil por causa de quão longe foi o confronto.

* É Doutora em Ciência Política pela University of Notre Dame (EUA) e diretora do doutorado em Ciência Política da Escola de Política e Governo da Universidade Nacional de San Martín

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