Condenado a ser crucificado

Nicholas Kristof, The New York Times

30 Outubro 2015 | 02h00

A qualquer momento, os aliados sauditas dos EUA podem degolar e crucificar um jovem chamado Ali al-Nimr.

Os recursos impetrados por ele contra sentença proferida pelo tribunal de execução se esgotaram e os guardas poderão levá-lo a uma praça pública, cortar sua cabeça com uma espada. Depois, pelo protocolo saudita para a crucificação, seu corpo ficará exposto como sinal de advertência para outros.

Qual foi o crime de Nimr? Ele foi preso aos 17 anos por participar de manifestações contra o governo. A acusação era de que ele atacou policiais e praticou atos de vandalismo, mas a única prova é uma confissão aparentemente obtida por meio da tortura.

Nimr recentemente foi transferido para a solitária, preparando-se para a execução. O sistema medieval da Arábia Saudita também executa "bruxas" e açoita e prende homossexuais.

Está na hora de uma discussão franca sobre a aliada saudita e seu papel como Estado que oferece base legal para o fundamentalismo e a intolerância no mundo islâmico. Os governos ocidentais tendem a silenciar a respeito porque consideram a Arábia Saudita um pilar de estabilidade numa região turbulenta - mas não estou seguro de que isso seja certo.

A Arábia Saudita apoiou as madrassas em países pobres na Ásia e na África, exportando extremismo. A Arábia Saudita também cria instabilidade com sua guerra no Iêmen para conter o que considera influência iraniana.

Existe também uma hipocrisia latente no comportamento saudita. Esse é um país que condenou um britânico de 74 anos a 350 chibatadas por estar de posse de bebida alcoólica, mas raramente vi tamanha quantidade de bebida alcoólica como em festas em Riad das quais participavam autoridades.

Um príncipe saudita, Majed Abdulaziz al-Saud, acabou de ser preso em Los Angeles em uma mansão de US$ 37 milhões que alugou depois de supostamente ter bebido muito, contratar prostitutas, usar cocaína, aterrorizar mulheres e ameaçar matar pessoas.

"Sou um príncipe e faço o que quiser", ele declarou de acordo com informação do Los Angeles Times.

Região. A Arábia Saudita não é um inimigo, mas é um problema. Ela poderia ter uma influência muito positiva no mundo islâmico se usasse sua posição para amainar as tensões entre sunitas e xiitas e incentivar a tolerância. Por um determinado tempo, sob a liderança do rei Abdullah, houve tentativas de reforma, mas agora, no governo do rei Salman, o processo ficou paralisado.

Na verdade, a Arábia Saudita aprova o fundamentalismo, a discriminação religiosa, a intolerância e a opressão das mulheres. As sauditas não só estão proibidas de conduzir um veículo, mas segundo alguns clérigos não devem nem usar cinto de segurança nos carros porque contornos de seus corpos podem ficar à mostra.

Mesmo o Irã recentemente escarneceu dos sauditas pelo mau tratamento das mulheres - e quando os misóginos radicais iranianos conseguem se colocar numa posição de superioridade em se tratando de direitos da mulher, temos aí um problema.

Tenho defendido o Islã de críticos como Bill Maher que, na minha opinião, demoniza uma crença professada por 1,6 bilhão de muçulmanos porque uma pequena porcentagem é formada de extremistas violentos. Mas aqueles que, como nós, refutam essa demonização têm o dever de combater o verdadeiro extremismo. Infelizmente, a Arábia Saudita produz mais danos à reputação do Islã do que qualquer cartunista blasfemo.

uitos sauditas vêm insistindo nas reformas. Um jovem e brilhante escritor, Raif Badawi, tem defendido eloquentemente os direitos das mulheres, uma reforma do ensino e liberdade de pensamento. Foi condenado a 10 anos de prisão, uma multa de US$ 267.000 e mil chibatadas.

O governo dos EUA faz vista grossa a tudo isso, pelo menos publicamente, tendo expressado apenas uma profunda preocupação com a sentença de crucificação do jovem, mesmo fornecendo armamento para os ataques sauditas no Iêmen.

Isso é realpolitik. A Arábia Saudita tem petróleo e influência e o governo Obama precisava se aproximar ainda mais dos sauditas para conseguir o acordo nuclear iraniano. Mas, agora que o acordo foi concluído, deve continuar o silêncio?

Não fazemos favor, nem a nós e tampouco ao povo saudita, sempre que fazemos vista grossa quando um aliado crucifica um dos seus cidadãos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*NICHOLAS KRISTOF É COLUNISTA

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