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Conexão Havana-Pyongyang

São 12,5 mil quilômetros de Cuba à Coreia do Norte, mas as afinidades encurtam as distâncias. Regidos por dinastias em vias de extinção, os dois países também têm em comum um pacto natural de Estados párias. Foi assim em julho de 2013, quando o regime de Raúl Castro resolveu ajudar os irmãos norte-coreanos com um navio carregado de surpresas. No manifesto do cargueiro Chong Chon Gang constava apenas açúcar. Quando os fiscais no Canal do Panamá foram checar, acharam bem mais.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2014 | 02h01

Debaixo de mais de 200 mil sacos de açúcar refinado cubano havia não drogas, como imaginavam, mas um arsenal para alegrar qualquer ditador: dois caças MiG desmontados, 15 motores de avião, nove mísseis e duas plataformas antiaéreas completas.

Os panamenhos apreenderam o navio, prenderam a tripulação e reportaram o contrabando à ONU, que desde 2006 veta o envio de armamentos pesados ao regime norte-coreano, que nutre sonhos nucleares. Foi o início de uma tortuosa dança diplomática, ao estilo de Pyongyang e à moda bolivariana.

Na semana passada, Cingapura apresentou queixa-crime contra uma companhia de navegação local que teria bancado a operação com um operador panamenho. Todos aguardam a decisão do Conselho de Segurança da ONU, que recebeu um relatório detalhado sobre o caso, mas ainda não determinou sanções aos dois países.

Se depender da complexa tradição da corporação, onde China e Rússia, aliadas de conveniência de Pyongyang, têm poder de veto, o resultado da maior apreensão de armas ilegais enviadas para uma das piores tiranias do planeta pode acabar em pizza habanera.

Desde cedo, vários países latino-americanos trabalharam para garantir exatamente isso. São os aliados do falecido líder venezuelano Hugo Chávez, que ergueram uma cerca companheira. Acusaram o Panamá, nação "lambe-botas" dos gringos, de ingerência em assuntos entre duas nações soberanas, Cuba e Coreia do Norte.

Se não fosse criminosa, a versão seria risível. Em primeiro lugar, os cubanos jamais admitiram enviar armas, apenas açúcar. Flagrados, disseram que o material era obsoleto e se destinava à manutenção na Coreia do Norte, para depois ser devolvido. Portanto, ele estaria isento do boicote da ONU.

Balela. Segundo o comandante Belsio González, diretor do Serviço Aeronaval do Panamá, os caças russos, assim como os motores, estavam em "excelente" estado. O Panamá libertou parte da tripulação do Chong Chon Gang sob fiança de US$ 700 mil, mas ainda mantém detidos três oficiais do navio. No seu relatório anual, um painel de especialistas da ONU concluiu que é a diplomacia norte-coreana que articula envios clandestinos de armas para Pyongyang por meio de complexos artifícios financeiros. A conexão com Havana faz parte do embuste.

A ditadura asiática encobriu o rastro da operação desastrosa. Trocou seu embaixador em Havana e abafou a história. Na bizantina política norte-coreana, o diplomata era ligado ao poderoso Jang Song-thaek, inimigo mortal do novo líder supremo, Kim Jong-un. Especula-se se que ambos, Jang e o ex-embaixador, tenham sido executados.

Chama a atenção que a desventura do Chong Chon Gang começou no Porto de Mariel, cuja reforma o governo brasileiro banca para consolidar laços companheiros e dinamizar o comércio do país amigo. Ao que parece, de olhos bem fechados.

É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS 'VOCATIV'

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