Conferência de Durban tem forte esquema de segurança

A população negra de Durban, a terceira maior cidade sul-africana, de 1,2 milhão de habitantes - acompanha meio à distância, oscilando entre a indiferença e a hostilidade, a movimentação da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, que conta com a presença de mais de 17 mil delegados e observadores, contando-se os participantes das reuniões e fóruns paralelos. A indiferença explica-se pelo forte esquema de segurança, que isolou todas as ruas que dão acesso ao Centro Internacional de Convenções (ICC), por onde ninguém passa sem crachá de identificação fornecido pela organização da conferência, após rigorosa checagem de todos os dados sobre os participantes, sejam convidados, funcionários ou jornalistas.Tanto cuidado tem razão de ser: da lista de chefes de Governo e de Estado esperados para uma mesa redonda da sessão de abertura constavam os nomes dos presidentes de Cuba, Fidel Castro, da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, e do comitê executivo da Autoridade Palestina, Yasser Arafat.A hostilidade é perceptível mais no olhar das pessoas, especialmente os brancos, que encaram, com indisfarçada irritação, a presença de tantos negros estrangeiros num país que, há poucos anos, vivia em regime de apartheid, sistema de segregação oficial que mantinha a maioria negra à margem da rotina de cada dia e da história. Os brancos são cerca de 3,5 milhões neste país de 44 milhões de habitantes.A designação de Durban para sede da conferência contra o racismo, uma escolha simbólica, não parece agradar os sul-africanos de origem européia, exatamente por essa escolha soar como uma homenagem ao fim do apartheid e à reabilitação de Nelson Mandela, um herói nacional que saiu da prisão para a presidência da República. "O apartheid só acabou no papel", disse um comerciante suíço, há décadas radicado na África do Sul, apontando as dificuldades de relacionamento que ainda existem entre brancos e negros.Nas últimas semanas, houve manifestações contra brancos e outras minorias raciais, as de origem indiana e chinesa. Não existe mais discriminação oficial, mas os grupos estão separados na prática. Ainda que fosse por razões econômicas - também é - os negros não se misturam com brancos nas escolas públicas e continuam fazendo os serviços subalternos.Além do inglês e do africâner (uma mistura de alemão e holandês), que são ensinados na escola, os sul-africanos têm mais 9 línguas oficiais, de origem tribal. Durban, uma cidade portuária do Oceano Índico, a leste de Joannesburg, é a capital do reino zulu, um enclave monárquico que congrega a maioria negra do sudeste do país. A polícia tem negros e brancos que trabalham em grupos isolados e mal se falam entre eles. Protestos contraditórios tanto contra o anti-semitismo quanto contra o sionismo aconteceram em Joannesburg (1,9 milhão de habitantes) e na Cidade do Cabo (2,4 milhões). Esse contraste, que reflete a posição de minorias de origem árabe e judaica, deverá se repetir hoje, numa grande marcha que terá participação maciça de estrangeiros vindos para conferência contra o racismo.Na quinta-feira, os sem-terra da África do Sul, naturalmente quase todos negros, fizeram uma passeata para exigir terras e justiça social. Outros protestos não têm relação direta com a Conferência das Nações Unidas. A greve dos trabalhadores da indústria automobilística, por exemplo, já na terceira semana, reivindica aumento de salário. Os eletricitários, que prometiam parar, acabaram desistindo da idéia.

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