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Confiança dos americanos na imprensa cai em dez anos, diz pesquisa

Entre republicanos, mais de 9 entre 10 dizem não acreditar na mídia como faziam antes

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2018 | 05h00

WASHINGTON - Os americanos dizem confiar menos na imprensa hoje em dia do que há dez anos, especialmente, entre o grupo que se considera republicano ou conservador. A pesquisa realizada pelo instituto de pesquisa Gallup em parceria com a Knight Foundation, mostra que 69% dos adultos nos Estados Unidos avaliam que sua confiança na mídia caiu nos últimos 10 anos. Só 4% da amostra de entrevistados diz que a confiança na imprensa aumentou e 26% não mudaram sua percepção sobre a mídia.

Nas entrevistas, os que se declaram republicanos ou politicamente conservadores são quase unânimes ao dizer que reduziram a confiança na imprensa na última década. A resposta foi essa para 94% dos republicanos e 95% dos conservadores. A maioria dos que se declaram independentes (75%) ou moderados (66%) deu a mesma resposta. A pesquisa foi realizada em junho e julho deste ano e os resultados foram divulgados no último dia 12 pelo Knight Center.

Entre os democratas e os que se consideram liberais a resposta é outra. No primeiro caso, 42% avaliam que a confiança na imprensa diminuiu, 10% consideram que ela aumentou e a maioria (48%) não alterou a sensação com relação à mídia.

Para o professor Jeff Niederdeppe, da Cornell University, que fica em Washington, isso tem relação com o fato de autoridades republicanas acusarem a mídia de ser tendenciosa. “O presidente amplificou essas manifestções, repetindo-as e atacando fontes de noticias”, avalia Niederdeppe.

Em estudo conduzido no final do ano passado, o cientista político Brendan Nyhan chama atenção para o que considera “ataques sem precedentes” do mais alto cargo do país, em referência ao presidente Donald Trump. “Políticos frequentemente oferecem resistência a uma cobertura desfavorável, mas a constante enxurrada de ataques públicos à legitimidade da imprensa é sem precedentes na era moderna”, escreveu o professor da Universidade de Michigan, um dos autores do trabalho “Você é Fake News”, realizado dentro do The Poynter Institute For Media Studies. Ainda de acordo com o estudo de Nyhan, “os republicanos têm visões muito mais negativas sobre a imprensa do que os democratas, incluindo quase metade dos que apoiam restrições à liberdade de imprensa”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, critica com frequência a imprensa americana e costuma chamar de "fake news" (notícias falsas) informações que considera prejudiciais à sua imagem. Ele já direcionou críticas aos jornais The Washington Post e The New York Times e a redes de televisão como a CNN, por exemplo, e considerou jornalistas "inimigos do povo". Em agosto, centenas de jornais dos Estados Unidos reagiram e publicaram editoriais em defesa da liberdade de imprensa e crítica ao presidente dos EUA.

“É sem precedentes que o presidente dos Estados Unidos repetidamente se refira à imprensa como 'fake news'. E os meios de comunicação amplificam isso ao cobrir essas afirmações. O resultado é que o conceito de 'fake news' é repetido de novo e de novo. Essa repetição leva à normalização dessas percepções, por mais falhas que possam ser”, diz Jeff Niederdeppe.

Em uma pergunta aberta da pesquisa sobre o que faz americanos desconfiarem de meios de comunicação, 45% das respostas menciona reportagem imprecisa, enganosa, mentiras ou “fake news”. Esta é a resposta mais citada pelos entrevistados.

Quando a pergunta é sobre a restauração da confiança na imprensa, a maioria dos americanos (69%) acredita que é possível recuperar a credibilidade dos veículos. Mas 30% avaliam que é um caminho sem volta. Essa porcentagem é maior ainda entre republicanos: 39% acreditam que não irão recuperar a confiança na imprensa.

Para o pesquisador da Cornell University, o resultado não surpreende com o crescimento da atenção sobre as notícias falsas e o declínio da confiança dos americanos em instituições, incluindo a imprensa. 

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